terça-feira, 26 de maio de 2009

O PROCESSO ASSOMBRADO

O PROCESSO ASSOMBRADO
Por MMendes

Ao chegar na cidadezinha parou para abastecer o veículo. Enquanto o frentista enchia o tanque, viu um empregado numa condição de risco. Trabalhava perto do poste de alta tensão.

- Mário, deixe de moleza. Termine logo esse serviço. – Dizia o barrigudo empregador logo embaixo, esbravejando ordens ao empregado que arriscava a vida.

- Não tenho nada com isso. Sou neutro e só me pronuncio depois de provocado. - Pensava o motorista, quase que indiferente.

Depois de abastecer saiu conduzindo o veículo até o destino.

- Ele chegou! Está descendo do carro.

- Ajam naturalmente para que ele não desconfie de nada. – Diziam aquelas duas figuras espiando pela fresta da janela.

Lá fora, depois de viajar quatro horas por uma estradinha que parecia levar ao fim do mundo, o sujeito descia do carro que acabava de estacionar. A rua estava deserta, o tempo estava nublado e o vento soprava “uivante” as folhas secas da rua. Abriu a porta do carro e ao pisar no chão daquele lugarejo, sentiu um arrepio e um pressentimento de mau agouro. Tomou a mala de couro às mãos e caminhou para o foro. Era o juiz substituto Sabino Teixeira que chegava para ocupar o lugar do titular aposentado.

- Cruz credo que lugar sinistro. – Disse o juiz benzendo-se com o sinal da cruz, ao notar que o prédio do foro era vizinho do cemitério. Em frente à entrada juntou os pés e iniciou a marcha com o pé direito.

Logo na entrada foi recebido pelo diretor da secretaria. Um homem assustador. Pálido, olheira azulada, olhos irritados, vestia roupa preta e gravata vermelha. Parecia um personagem de filme de terror.

- Seja muito bem vindo, doutor. Estávamos a sua espera. Mostrarei seus aposentos. O lugarejo era tão decadente que não havia hotel digno para o juiz se hospedar. Por isso, arrumaram seus aposentos no prédio do foro. Um modesto quarto apartamento.

Já era tardinha e as audiências começariam apenas no dia seguinte. O juiz pediu à secretária que separasse os processos da pauta. A secretária, velha e enrugada, era uma servidora às vésperas da aposentadoria. “– Ou da morte”, pensou o juiz.

Olhou os processos um por um. Notou que faltava um deles. Pediu para ver os autos quando a secretária e o diretor gritaram ao mesmo tempo:

- Não coloque as mãos nesse processo! - O juiz deu um pulo de susto.

- Vocês quase me matam do coração! Por que não posso ver esse processo? – Perguntou com a voz trêmula e olhos arregalados.

- É um processo de espólio contra espólio. - Desculpou-se o diretor, alertando o juiz para a maldição que se encerrava naqueles autos.

- Esse processo ficou esquecido dentro dos arquivos da Vara. O caso é tão antigo que todos os que passaram pelo processo morreram. O autor da ação, um empregado de nome Mário, morreu eletrocutado num terrível acidente de trabalho. Proposta a ação pela inventariante, o empregador morreu num acidente dias depois da citação, em circunstâncias misteriosas. O juiz que aqui estava à época, acreditava tratar-se de uma maldição. Temeroso foi incapaz de dar andamento ao processo. O processo é tão antigo que os próprios inventariantes e os advogados que patrocinavam a causa também morreram. O caso está paralisado há vinte anos sem solução.

- Credo! Eu que sou só um juiz substituto quero distância desse processo. Que o próximo titular resolva essa abacaxi. – Disse o juiz limpando as mãos no paletó.

Encerrado o expediente, o diretor e a secretária fechavam o prédio. O juiz recolhia-se aos seus aposentos.

- Doutor, ia quase me esquecendo. Só temos luz até as dez da noite. Alertou o diretor.

- Como luz até as dez da noite?

- Aqui é assim. Depois dessa hora desligam o gerador da cidade. Deixei um maço de velas no criado perto de sua cama. Tenha uma boa noite - Disse o diretor antes de sair.

Sem que o juiz soubesse, por um descuido, na pressa de ir embora, a secretária de audiência inseriu o processo assombrado na pauta de audiência e sem qualquer explicação, misteriosamente agendada para a meia-noite. O juiz andou apressadamente até o quarto e fechou a porta.

- Ainda por cima essa porta não tem chave. – Resmungou amedrontado.

Apressou-se deitar e logo dormiu. Às dez badaladas do sino da matriz a luz se apagou. Lá por vota das 23h30 o juiz acordou com passos pelo corredor. Abriu seus olhos arregalados e cobriu-se com o lençol até a altura do nariz.

- Quem é? – Perguntou com a voz um tanto trêmula.

Não houve resposta, mas os passos continuaram seguidos de gemidos, ruídos de correntes, rangidos e bater de portas. Lembrou-se das velas e acendeu uma. Nesse instante alguém bate à porta com três pancadas.

- Está na hora. Está na hora. Está na hora. Se não abrir eu vou entrar. Não agüento mais esperar.
- Disse uma voz desconhecida.

Levantou-se vestindo ceroulas e calçando os chinelos. Temia que se ficasse embaixo dos lençóis coisa pior poderia acontecer. Ainda que trêmulo, resolveu enfrentar o medo e ver o que se passava.

- Que...quem é você? O...o que vo..você quer? - Gaguejou o juiz.

O magistrado olhou o relógio de pulso e era justamente meia-noite. Abriu uma frestinha da porta e viu um vulto escuro no corredor. Fazia sinal que o seguisse. Abriu a porta e levantando a vela, medrosamente seguiu o vulto. A assombração poderia atentar contra sua vida caso contrariada, pensava ele.

Foi conduzido diretamente à sala de audiência. Chegando lá viu a sala repleta de fantasmas. Suas pernas tremiam, seu coração estava paralisado. A parafina quente da vela queimava sua mão e ele mal sentia. Estava apavorado. Sua vontade era sair correndo dali. Mas ir para onde? O lugarejo ficava no meio do sertão. Estava isolado. O único acesso à estrada era pela balsa, que só começaria funcionar no dia seguinte.

Uma assombração encapuzada apontou para o magistrado. Sentiu um frio na espinha e suas pernas congelaram. Não conseguiu dar um passo sequer. Os fantasmas avançaram sobre o juiz forçando-o a ocupar seu lugar. Colocou a vela sobre a mesa, o único lume do ambiente. O fantasma encapuzado assentou-se ao lado esquerdo da mesa e seguiu dizendo:

- Ele nunca me forneceu equipamentos de segurança. Minha jornada era muito extensa. No final do dia estava desgastado e já nem conseguia prestar atenção no serviço, expondo-me ainda mais aos riscos. Explicou o espírito com voz fantasmagórica.

- Determinado dia fui obrigado trabalhar próximo aos fios da rede de alta tensão e num pequeno descuido....bizzzzz...morri eletrocutado. Caí torrado ali mesmo. Noutro dia, já havia um outro empregado em meu lugar. Fui descartado como se descarta uma fatia de pão queimado na torradeira.
- Depois de morto vi minha mulher e meus filhos passarem fome e necessidade. Mendigaram ajuda ao patrão, mas ele nem deu bola. Os expulsou do escritório e disse que procurassem seus direitos. Assim deram início ao processo de reparação de danos.

- Diante de tanta crueldade não consegui ascender ao plano do além, ficando ligado ao processo até que fosse solucionado. Estou aqui aguardando que a justiça seja feita. - Disse a assombração do trabalhador que exalava odor queimado.

Quando terminou sua fala, um outro fantasma do lado direito da mesa prosseguiu dizendo:

- Eu fui egoísta e avarento. Sou o responsável pela morte desse empregado desencarnado. Depois de sua morte eu mesmo fui vítima de outro acidente. Eu deveria ter investido na redução dos riscos do ambiente de trabalho. Excelência, tudo o que o empregado disse é verdade. Eu confesso. Tive uma vida miserável, só pensava em lucro, não me preocupei com a vida dos empregados. - Declarou o de cujus.

- Só depois de morto é que pude perceber que toda a riqueza de nada me valia. Estou arrependido e meu desejo é reparar o mal feito. Estou preso ao processo até que justiça seja feita. Disse o fantasma do patrão.

Aquela audiência mais parecia uma sessão espírita. Ali estavam os fantasmas do empregado, do empregador, dos inventariantes e dos advogados que morreram aguardando a morosa solução. Vendo nos olhos dos presentes uma aflição pela decisão, o medo cedeu lugar ao sentimento de justiça. O magistrado lembrou do dia anterior, quando viu um empregado também de nome Mário trabalhando em condições semelhantes.

- Terá sido uma coincidência, um aviso ou visão de uma história que se repete todos os dias esperando que a Justiça caia do céu sobre nós, vivos ou mortos? Refletiu o juiz absorto nos próprios pensamentos.

Enchendo-se de coragem e sentimento de dever, vestiu sua toga negra como que forjada para a ocasião. Diante da confissão do empregador, proferiu a sentença que todos desejavam. Reparou o mal feito e com justiça determinou o amparo a família do empregado que por vinte anos viveu em estado de penúria. No mesmo instante as almas da sala se libertaram. Começaram a brilhar e desapareceram sob o olhar do juiz.

O magistrado respirou aliviado, acreditando que tudo havia acabado. Ledo engano. No instante seguinte ouviu um vozerio que vinha do cemitério ao lado. Abriu a janela com cautela e teve uma terrível visão. Os mortos levantavam-se dos túmulos e vinham em sua direção cercando o prédio.
- Justiça! Justiça! - Gritavam os cadáveres enfurecidos.

O juiz corria de um lado para o outro trancando todas as entradas. Mas, os mortos forçavam as portas e janelas. Quando passou pela mesa viu uma pilha de processos. Teve uma intuição:
- Esses processos...Seriam dos cadáveres lá fora? - Disse o juiz sussurrando.

Olhou as datas dos protocolos de distribuição e notou que eram muito antigas. Sem pestanejar sentou-se à frente da máquina de escrever e apressou-se julgar todos os processos que encontrou nos arquivos da Vara. À medida que aumentavam as decisões, os gritos diminuíam em proporção inversa. Proferida a última sentença fez-se um silêncio mortal, como que anunciando a chegada dos primeiros raios de sol.

Quando o diretor e a secretária chegaram, o juiz já estava vestindo seu terno cinza. Antes que o juiz falasse qualquer coisa, o diretor o cumprimentou estendendo a mão direita:

- Excelência, nós viemos agradecer e nos despedir. Também somos responsáveis pela morosidade dos processos. Tratávamos os processos como se fossem apenas um monte de papel, sem perceber que atrás da capa dos autos havia sofrimento de pessoas clamando por justiça. Por isso fomos amaldiçoados, tal qual os outros. Não poderíamos ascender ao plano espiritual até que os processos fossem solucionados. A justiça nos libertou e agora podemos seguir nosso caminho em paz. – Disseram.

Depois disso, saíram pela porta da frente e foram caminhando pela rua até sumirem de vista. Quando voltou os olhos para dentro viu um prédio abandonado, cheio de papeis pelo chão, paredes emboloradas e o teto repleto de teia de aranha. Não havia mais nada a ser feito naquele local. Não havia uma viva alma na cidade.

Colocou a mala no carro e foi embora, deixando o lugarejo para trás. Jurou celeridade processual em frente ao cemitério e que não deixaria nenhum processo esperando tanto tempo sem julgamento, especialmente processos que envolvam espólio.

O juiz aprendeu que não há vida sem justiça. Apesar de ter libertado as almas penadas, ficou com a sensação de que justiça tardia não é justiça, mas sim injustiça manifesta.

domingo, 24 de maio de 2009

EFEITO INDESEJADO

Por MMendes

Eugênio Picolo, era um gaúcho imenso. Pesava quase 200 Kg. Não podia morar em prédio algum, pois não cabia no elevador. Já tinha tentado de tudo para emagrecer, mas seu ponto fraco era o churrasco. Era um churrasqueiro de primeira. Adorava carnes gordas e suculentas, mas detestava qualquer tipo de vegetal. Sua aversão por vegetais sempre prejudicava o regime de emagrecimento. Acho que era capaz de comer um boi inteiro em cada refeição, mas nenhuma folhinha de alface sequer.

A mulher estava desacorçoada. Já pensava em separação. Picolo há muito não enxergava nem a ponta dos pés, quanto mais amarrar os sapatos. E para tomar banho, um martírio. A esposa era obrigada a ajudá-lo no banho. Gastava um sabonete inteiro para ensaboar aquele homenzarrão.
Ela também era um tanto gordinha, mas nada comparado com Picolo. Também para acompanhar o marido, não havia dieta que sobrevivesse. O marido adorava a esposa, que carinhosamente chamava de gorduchinha. Certo dia, a mulher ouviu dizer que um psiquiatra especialista em hipinose era capaz de convencer uma pessoa de qualquer coisa. Não teve dúvida, marcou uma consulta e lançou um desafio ao médico:

- Doutor eu imploro. Se conseguir que meu marido deixe o gosto pelo churrasco eu lhe pago qualquer quantia.

O psiquiatra aceitou o desafio e pediu o prazo de um mês. Retornando para casa obrigou o marido a marca uma consulta, sob pena de pedir a separação. Picolo era apaixonado pela esposa, tal qual gostava de churrasco. Ficou entre a cruz e o espeto de churrasco. Mas a mulher, além de tudo, amarrava seus sapatos, coisa que o churrasco não fazia. Preferiu escolher ficar com a mulher, mas lá com seus botões pensava que poderia estar fazendo a escolha errada. Mesmo assim foi ao psiquiatra.

- Boa tarde doutor. - Disse Pícolo ao passar espremido na porta do consultório.

O médico psiquiatra espantado, nunca havia visto um homem daquele tamanho.

- Diga meu senhor, o que o traz? - Perguntou o psiquiatra, embora já conhecesse a resposta.

- Quero que o doutor me ajude a emagrecer. Ou é isso ou minha mulher me largará. Eu não saberia viver sem minha gorduchinha.

- Muito bem. Minha melhor técnica é a do hipnotismo. Deite-se no divã. - Enquanto isso o psiquiatra diminuiu a luminosidade da sala e regulou o ar condicionado para que o ambiente ficasse mais agradável.

Depois de algum tempo de relaxamento e indução, Picolo estava completamente hipnotizado. O psiquiatra mostrou-lhe um espeto de costela gorda, pediu que provasse e induziu Picolo a achar que era um pé de alface. O paciente fez uma cara de nojo e cuspiu tudo na mesma hora. Depois deu uma picanha medalhão emoldurada de um naco de gordura tostada. Quando Picolo colocou na boca o doutor induziu o paciente a pensar que era um pedaço de cenoura. Este cuspiu tudo para fora, com a maior cara de nojo, como havia feito antes.

Em seguida o médico tomou um pé de alface nas mãos e pediu que Picolo experimentasse, induzindo o paciente a achar que era um costela gorda e suculenta. O paciente hipnotizado devorou o pé de alface com a maior satisfação. Tão logo terminou a deglutição, ofereceu-lhe uma cenoura, afirmando ao paciente que tratava-se de uma picanha a medalhão acrescida de uma capa de gordura bem tostadinha. Picolo devorou a cenoura com cara de muita satisfação.
Terminado o tratamento, o médico fez com que o paciente voltasse ao normal.

- O senhor está curado seu Picolo. Pode voltar para casa que seu problema está resolvido.

Picolo não se lembrava de nada, mas sentia-se diferente. Não sabia explicar o que havia mudado. No caminho para casa a primeira coisa que pensou foi fazer um churrasco. Passou no mercado comprou carvão, sal grosso e os demais itens. Chegou em cumprimentou a mulher. Sorridente acendeu a churrasqueira. Enquanto preparava os espetos a mulher perguntou:

- Você foi ao médico como havíamos combinado?

- Fui, evidentemente. - Disse ele enfiando um pé de alface no espeto que acabava de limpar.

- E o que ele disse? - Perguntou a mulher.

- Ora, disse que eu estou curado. - Afirmou espetando uma cenoura em outro.

A mulher estava espantada com aquela situação, mas ficou em silêncio. Daquele dia em diante Picolo assava vegetais acreditando piamente que os espetos eram de carne. O psiquiata o tornou um churrasqueiro vegetariano. Com o passar do tempo, Picolo foi emagrecendo, emagrecendo até que ficou com seus 98 Kg. Estava disposto, vigoroso. Admirava-se de poder ver a ponta dos pés, há muito escondido debaixo da enorme barriga, que agora não existia mais.

Todavia, seu casamento começou entrar em crise. Já não se entendia muito bem com sua mulher. Ao contrário de antes, só a chamava de gordinha na hora da discussão. Gorduchinha era agora um apelido pejorativo. Os conflitos foram tantos que Picolo, neste ponto homem elegante e magérrimo, resolveu separar-se da esposa e arrumou uma namorada esguia.

A mulher retornou ao psiquiatra para saber o que havia dado errado. E depois de explicar-lhe o problema, o psiquiatra disse:

- Eu inverti a programação do cérebro de seu marido. Ele pensa que alface é costela bovina, pensa que picanha é cenoura e vice-versa. Mas pelo que está me dizendo, acho que ocorreu um efeito inesperado.

- Penso que seu marido amava tanto ser churrasqueiro e gostava tanto de carne gorda em decorrência do amor que tinha pela senhora. Havia uma relação a mulher “gorduchinha” e o estimulo pela carne gorda. Quando alterei essa programação, inesperadamente ele foi deixando de gostar da senhora. Foi um efeito colateral imprevisto.

- Era bem possível que se a senhora tivesse emagrecido, como efeito decorrente, isso induziria seu marido a emagrecer também.

A mulher saiu do consultório arrasada. Aprendeu uma grande lição. Devemos aceitar os outros como eles são. O mundo a nossa volta é o reflexo do que somos. Para mudar as coisas e preciso antes transformar nossa própria natureza. Não se muda o comportamento de uma pessoa sem mudar a pessoa como um todo. Somos como um vaso cheio de bolinhas. Não se pode tirar a bolinha do meio sem que todas as outras bolinhas se movimentem num novo arranjo. Picolo emagreceu enfim, e tornou-se uma outra pessoa.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O PÓ DA TERRA

O PÓ DA TERRA
*Por MMendes

As paredes daquela velha igreja estavam impregnadas de história. Doze pilares sustentavam sua abóbada adornada por desenhos magistrais. O ar estava impregnado de um elemento místico. O chão era feito de largas tábuas de jacarandá maciço, todas gravadas com números pirografados. Murilo entrou humilde e seus passos ressoavam pelo chão de madeira que rangia a cada passo. Era como se o chão lançasse murmúrios de uma multidão cadenciados pelo ritmo das passadas.

Quem conhece o costume sabe, embaixo de cada uma daquelas tábuas do chão da igreja, jazia enterrado um fiel que trabalhou e morreu naquela comunidade. Aquele era um solo sagrado, onde se guardava aqueles que pertenciam a Deus. Murilo conhecia o costume. Seus ancestrais estavam ali, dormentes, aguardando o juízo final. Foi até a igreja porque estava com problemas no casamento. Buscava uma fagulha de luz. Na realidade acho que estava com problemas existenciais por causa da proximidade dos quarenta anos. Em momentos como esse, nos sentimos entre a vida e a morte. Aquela velha igreja era o ambiente apropriado. A própria representação do limbo.

O sacrário ficava ao lado da nave central. Uma pequena sala iluminada por uma tênue fonte de luz. Sobre uma mesa de madeira que ficava na entrada, estavam depositados um crânio humano e uma ampulheta lembrando a efemeridade da vida terrena em contraponto com o sagrado que é eterno. Os povos antigos encaravam a morte com naturalidade e símbolos como esses não causavam temor, nem espanto ou ojeriza. Hodiernamente tememos a morte. Amedrontados sempre fugimos do assunto. Pensamos que esse dia nunca irá chegar. Com isso nos tornamos pródigos e esbanjamos a vida toda. Acreditando que viveremos para sempre destruímos valores eternos a ponto de comprometermos a própria vida do planeta. Para os antigos daquela comunidade, a morte era o complemento, a coroação da vida. Havia um profundo respeito aos mortos, quase um culto aos ancestrais.

Depois de percorrer a nave central da igreja e fazer a reverência costumeira, Murilo caminhou para a sala do sacrário e ajoelhou-se em oração. Sentia-se frágil e perdido. Brotou vontade de rezar a oração Ave Maria. Foi a primeira oração que aprendeu com sua avó Isolda, quando ainda era bem pequeno. Achava-se pequenino. Quem sabe, justamente por isso buscou consolo naquela oração de criança. Rezava desesperadamente a oração, uma após a outra, sem qualquer método ou propósito.

A medida que foi rezando, esvaziava-se de si pedindo luz. De repente um acontecimento insólito. Sem saber explicar como aconteceu, foi transportado para um lugar totalmente escuro. Uma escuridão diferente, como se um nevoeiro negro o envolvesse. Distante via apenas uma pequena estrelinha que se movia em sua direção. Quando a luz chegou mais perto, percebeu que era Nossa Senhora. Estava de costas, podia ver o manto azul celeste. Estava iluminada da cintura para cima. Não podia ver seus pés, apenas percebia que ela se movia lentamente em sua direção. Quando chegou a uma pequena distância virou-se. Suas mãos em forma de cuia seguravam delicadamente alguma coisa, tal qual como segura-se água.

Quando chegou bem perto, Murilo olhou naquelas delicadas mãozinhas para saber o que elas carregavam. Não havia nada, apenas luz. Maria carregava cuidadosamente uma porção de luz. Olhou para Murilo e continuou até que suas mãos penetraram seu peito. Continuou caminhando, enquanto entrava literalmente dentro do corpo de Murilo. Parecia que buscava guardar ali dentro, a porção de luz cuidadosamente carregada, até que desapareceu por completo.

Como acordasse de um sonho, estava de volta à sala do sacrário. Parecia ter sido um sonho, mas era viva a sensação de ter curvado o pescoço para olhar nas mãos de Maria. Envolvido naquela emoção ficou em dúvida quanto à realidade vivenciada. Mas era real. Teve uma visão. A luz que tanto pediu veio pelas mãos de Maria, intercessora dos homens. Ela havia colhido essa luz da própria fonte que jorra no meio do paraíso. Caminhava de costas para que seus olhos não ficassem cegos pela escuridão que envolvia Murilo.

Depois de um tempo Murilo levantou-se e caminhou para fora. Ao caminhar sobre o solo sagrado da Igreja, uma voz sussurrou em seu ouvido direito: “- Tu és pó e ao pó tornarás”.

Não, não era uma maldição. Era uma benção. Era um chamado de Deus para que Murilo abandonasse a idéia de separação, superasse seus conflitos e voltasse para sua família. A luz recebida de Maria abria-lhe os olhos, os mortos do assoalho sussurravam abrindo os ouvidos. Tal como o pó torna ao pó, havia entendido que deveria voltar àqueles a quem pertencia. O marido à mulher, o pai aos filhos.Lá fora o sol castigava os olhos, dissipando de vez a escuridão. Murilo levou a mão direita sobre os olhos como proteção. Seus olhos estavam desacostumados à luz. E assim voltou para casa caminhando sobre os cascalhos da rua. Cada pedra parecia nova, como renovado estava seu espírito.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A LUTA DE SAMUEL

*Por MMendes

A comunidade se preparava para a festa da Páscoa judaica. Samuel acordou muito cedo para preparar a banca na feira ao redor do Templo. Jardão, seu patrão, era um homem muito severo. Samuel necessitava do serviço para dar de sustento à família. Era um operário submisso, tinha medo de ser demitido. As estrelas ainda estavam no céu quando Samuel tomou um minguado quebra-torto, colocou parte da mercadoria sobre o lombo do burro e amarrou as cabras numa cordinha. Enquanto puxava o animal e as cabras, caminhava em silêncio passo a passo, com suas velhas sandálias de tiras de couro.

Ao chegar ao seu ponto junto ao Templo, fez a reverência de sempre e começou a arrumar a banca. Samuel vendia animais para o sacrifício judaico e ganhava uma miserável comissão pelas vendas. Trabalhava arduamente quinze horas por dia. Jardão exigia que gritasse o dia inteiro, oferecendo a mercadoria a um preço escorchante. Os judeus sentiam-se obrigados a fazer o sacrifício, temendo que Deus não perdoasse seus pecados e, com isso, fossem amaldiçoados. Por isso aceitavam pagar o preço absurdo exigido pelos vendilhões do Templo. No final do dia Samuel já não tinha mais voz, mas a canastra de Jardão estava abarrotada de moedas.

Era quatro da tarde e Samuel não tinha almoçado. Sem forças quase não parava em pé, quando Jardão começou a empurrá-lo aos insultos e constantes ameaças de demissão. Samuel caiu ao chão. Jardão armava-lhe um chute nos flancos, quando de repente, um homem chamado Jesus surgiu do nada, impediu o golpe e empurrou Jardão. Em seguida deu a mão direita a Samuel e disse:

- Levanta-se.- Sem que se apercebesse, naquele momento operava-se um dos milagres que não foram escritos na Bíblia. Jesus ressuscitava em Samuel a consciência de que era merecedor respeito, consciência essa, morta desde o momento em que abandou a luta por uma vida digna. O empregado acreditava que o maltrato do patrão era uma cláusula implícita do acordo de trabalho. Assim aceitava aquelas humilhações como prerrogativa do patrão. Mas, o milagre de Jesus iria revogar essa cláusula definitivamente.

Depois que Samuel estava em pé, Jesus e Jardão começaram a discutir. Jesus dizia:
- Você não tem compaixão desse empregado? Se continuar a explorar o povo e a tratar seus empregados como animais, você será condenado pela Justiça Divina. Seus bens serão expropriados e, então, blasfemará contra Deus.

Sem dar atenção às advertências, Jardão enfrentou o protetor de seu operário com uma chibata feita de cordas. Porém, Jesus foi mais hábil e tomou a arma de sua mão. Em seguida, açoitou Jardão, bem como outros patrões que a ele se aliaram e igualmente maltratavam os trabalhadores. Jesus gritava:

- Vocês converteram a casa de meu pai num covil de ladrões e exploradores.

Irado Jesus foi segurado por um amigo de nome Simão, que pedia que se acalmasse. Samuel ficou admirado como Jesus enfrentou seu patrão, exigindo tratamento digno aos trabalhadores. Depois disso, os amigos daquele valente homem o levaram para fora dos muros do Templo.
Samuel encorajou-se e daquele dia em diante passou a se reunir em segredo com um grupo de operários. Encorajavam-se mutuamente a enfrentar seus patrões exigindo condições dignas de trabalho, melhores salários e redução de jornada de trabalho. E assim decidiram fazer uma greve geral, às vésperas da Páscoa, quando o comércio era mais promissor.

Naquele grupo havia um espião de nome Josué. Numa quinta-feira antes da Páscoa, Josué foi ter com Jardão. Traiu Samuel em troca de dez moedas de ouro. Jardão se reuniu com os outros comerciantes e, a fim de desencorajarem os demais trabalhadores, decidiram armar uma cilada para Samuel. Seguindo o plano, Josué avisou um zelote que havia um grupo de inconfidentes, afirmando que Samuel queria com ele se reunir. Os zelotes eram um grupo de revolucionários que buscavam atentar contra o Império Romano. O zelote viu a oportunidade de montar um levante e aceitou o convite.

Quando compareceu disfarçado até a banca onde trabalhava Samuel, a milícia o apanhou e também prendeu Samuel. Ambos foram acusados de conspirar contra a economia local e contra os romanos. Foram presos, julgados no mesmo dia e condenados a crucificação. A execução da pena se deu no dia seguinte.

Quando Samuel já estava na cruz, percebeu que ao lado estava Jesus, o homem que o havia protegido contra Jardão. Nesse momento disse com sofreguidão:

- Senhor, é um homem justo. Com certeza, assim como eu, padece nessa cruz porque defendeu os humildes e lutou por um mundo melhor. Lembre-se de mim quando chegar minha hora.

Jesus respondeu-lhe:

- Samuel, eu te prometo. Ainda hoje você estará no paraíso comigo.

Apesar da agonia, Samuel sorriu. Aquele homem ao seu lado foi o único que teve a coragem de enfrentar seu patrão, o tratou com respeito e inspirou a lutar por sua dignidade. Parecia saber que, assim como o direito é fruto de uma dolorosa conquista, só ingressa no paraíso aquele defende seus ideais até a morte.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A MÁQUINA

A MÁQUINA
Por MMendes

Metido numa camisa de força seu corpo contorcia e corcoveava, o homem berrava:

- Soltem-me, chamem um advogado. Exijo um julgamento justo.

Quatro homens de branco tentavam segurá-lo firmemente. Dois o seguravam pelos pés e outros pelo tronco. Seus olhos arregalavam-se e sua boca espumava. Com muita dificuldade foi conduzido para dentro da viatura, que saiu em disparada com as sirenes ligadas.

- Essa prisão é ilegal. Onde está o mandado de prisão? Quero meu advogado. - Gritava o homem insistentemente até que lhe aplicaram um sossega leão. Ele apagou completamente. Quando acordou estava dentro da sala plenária do Tribunal. A sessão estava em andamento.

- Trouxemos o fujão de volta. - Disseram os homens de branco ao presidente daquela corte e retiraram-se do recinto.

O preso era um dos juízes de uma das varas daquela jurisdição. Havia fugido na tentativa de livrar-se do incomensurável volume de trabalho. Um verdadeiro Monte Everest de processos com sentenças e despachos atrasados. O ritmo de trabalho estava além de suas limitações humanas, não conseguia se amoldar às duras condições de trabalho.

O serviço acometido ao juiz era uma loucura, na literal acepção da palavra. Dezenas de audiências, dezenas de sentenças e centenas de despachos por dia. Estava obrigado a cumprir os exíguos prazos processuais e considerando o volume de serviço, não dava conta. Por isso tentou fugir em vão daquela jurisdição. Foi apanhado e agora seria submetido ao julgamento sumário de um processo administrativo.

A corte estava reunida, o processo devidamente instruído, o juiz teria julgamento imediato. Os desembargadores cochichavam entre si, enlouquecidos por uma severa punição ao infrator. De repente o presidente desferiu um golpe de malhete sobre a mesa e deu o veredicto:

- O réu foi considerado culpado de ineficiência. Os números do boletim estatístico revelam que sua produção foi insuficiente, acabando por comprometer o andamento da Máquina Judiciária. Condeno-o a julgar imediatamente todos os processos pendentes e colocar o serviço em ordem no prazo improrrogável de cinco dias.

Todavia, os membros da corte sabiam que seria impossível realizar o serviço dentro do prazo, considerando a capacidade de produção do condenado. Mas, ali estava envolvido o interesse público, o custo judiciário e aplicava-se a regra de que o interesse privado sucumbe ao interesse do Estado. Dessa forma decidiram tomar medidas para garantir a eficácia da condenação e melhorar a eficiência daquele organismo preguiçoso.

Determinaram ao meirinho que abrisse sua boca à força e ministrasse uma dose cavalar de um forte estimulante. Para garantir a fixação do juiz à jurisdição, evitando que fugisse novamente, ataram seus pés a uma corrente presa a uma bola de ferro. Retiraram a camisa de força, mas o amarraram sentado sobre uma cadeira. Para garantir que não dormiria, apesar do estimulante, ligaram um sistema de eletro-choque, caso vacilasse.

Os demais juízes de primeiro grau foram convocados para assistir a sessão e cada qual se comportava de maneira muita estranha. Um coçava a cabeça, outro dava gargalhada, outro chorava. Havia um que parecia ter o olhar perdido, indiferente a tudo aquilo, enquanto outro sentado gemia de pavor, encolhido abraçando as pernas.

Em seguida o levaram até a mesa munida de um computador, recoberta de pilhas e pilhas de processos. O estimulante começava fazer efeito. Os dedos do juiz digitavam com tanta velocidade que se podia ver fumaça saindo do teclado. As veias de suas mãos ficaram volumosas com o fluxo de sangue. O juiz tornava-se ofegante. Sua temperatura corporal aumentou provocando uma abundante sudorese que lhe escorria à face e molhava a roupa. Ainda assim, o meirinho lhe dava uns choques vez em quando, ordenando que aumentasse a velocidade.

O secretário do pleno debitava do boletim estatístico uma a uma as inúmeras decisões proferidas. A cada número o plenário e a platéia gritavam enlouquecidos:

- Mais um, mais um, mais um.

Depois de exatas 120 horas contínuas, o trabalho estava terminado. Sem qualquer energia vital o juiz faleceu sobre a mesa. As primeiras falanges dos dedos sumiram desgastadas pela frenética digitação. Os tendões e as articulações das mãos estavam em frangalhos. Os olhos estavam adornados por uma negra olheira. Nesse momento irrompe o recinto o médico psiquiatra daquele Tribunal:

- Seus loucos. O que vocês fizeram a esse pobre coitado? - Disse o médico apressando-se a prestar socorro, cujo paciente infelizmente jazia estirado no chão. O médico chamou por socorro e os enfermeiros de branco retornaram. Incontinente foram empurrando os desembargadores e os demais juizes em direção a uma porta que dava para um grande patio, afastando-os do morto.
Auxiliado pelos enfermeiros, o médico coloca o corpo numa padiola e dirigiram-se à viatura da ambulância, que estava no patio. Ao passarem com o defunto entre os juizes e desembargadores, registraram as reações mais imprevisíveis.

- Eu sou deus. - Gritava o presidente freneticamente.

- Eu quero números, quero números, quero números. - Repetia o corregedor sem parar.

- Eu sou a lei. - Berrava um dos juizes, ao lado de outros que diziam ser o Estado, a verdade, Napoleão, Jesus Cristo e por ai adiante.

A ambulância passava silenciosamente entre a multidão dirigindo-se ao portão de saída. Já não havia pressa, o homem estava morto.

O porteiro verificando tratar-se do médico psiquiatra, abre os portões. Deu passagem à ambulância que seguiu por uma estradinha a se perder de vista. Olhando para trás podia-se ver uma imensa construção cercada de um muro alto e branco, fechado por imensos portões de ferro. Sobre o portão podia-se ler: “Manicômio Judiciário”.

Aquele manicômio foi especialmente construído para abrigar os funcionários do Poder Judiciário que, por uma ou outra razão, perderam a razão e andavam perdidos nos labirintos da loucura. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

sábado, 18 de abril de 2009

COMEÇANDO O LIVRO PELO FIM

COMEÇANDO O LIVRO PELO FIM
Por MMendes

Anos atrás três amigos quarentões bem sucedidos se encontravam numa mesa de bar para a tradicional conversa de boteco. Depois de alguns chopps a mais perguntaram-se acerca do que fariam quando chegasse o dia da aposentadoria. Um afirmou que iria praticar ociosidade e curtir a vida com viagens, aproveitando o tempo que lhe restaria. Outro disse que mudaria radicalmente de profissão e recomeçaria tudo novamente. O terceiro amigo, que se chamava Giuliano Kepler, para espanto geral, afirmou com uma cara marota que sonhava em ser “lover boy”, um garoto de programa.
“Lover boy” depois dos 60 anos? Vai gastar toda a aposentadoria em medicamentos para impotência e estimulante sexual. Ironizaram os amigos, caindo na gargalhada.
Giuliano riu-se também, achando graça da idéia, embora la no fundo do coração alimentasse uma vontade reprimida de romper com a rotina de sua vida. Apesar de ser um profissional bem sucedido do alto escalão do governo, sua vida pessoal era um tanto conturbada. Acumulava um casamento desfeito, muitos namoros mal sucedidos e não tinha filhos. Era uma pessoa tímida e formal. Podia-se ver isso em seu vestuário, na maneira erudita de falar, no corte de cabelo e no comportamento convencional. Era uma personalidade rígida, totalmente incompatível com o que se espera de um garoto de programa.
Apesar de não ter o menor dom para a pretensa profissão, sem saber o por quê, Giuliano alimentava mesmo essa fantasia. Penso que na verdade, sentia-se infeliz e incompleto. Com tal transgressão buscava escapar da prisão emocional em que se meteu. Para isso era preciso romper com os muros que o cercavam. Era preciso uma revolução em sua forma de ser. Sua alma clamava por socorro:
Oh! Quem poderá me socorrer? Em sua fantasia, logo saltava à frente o herói dos heróis. Irreverente e extrovertido. Alguém capaz de dar um sentido à sua vida vazia, de preenchê-la de novidades e alegria. De arrancar aos gritos, o delirante amor da mulheres. O super “lover boy”.
O tempo passou e finalmente chegou o dia da aposentadoria. Parecendo seguir um ritual secreto, Giuliano foi até o shopping. Comprou umas roupas transadas. Ternos e gravatas nunca mais. Voltou para seu apartamento e foi até o guarda-roupas. Arrancou com força todas as roupas que lembravam o passado, embolou tudo com os vários sapados de cromo alemão, colocou tudo num saco preto e dali para a lixeira. Depois, voltou-se para o guarda-roupas quase vazio. Passou a dependurar as novíssimas peças que comprou no shopping. Um misterioso sorriso desenhava-se em seus lábios e um fulgor lampejava nos olhos. Seu closed seria, dali em diante, um espécie de batcaverna. Ali o misterioso personagem, que naquele instante incorporava, sairia a se esgueirar pelos motéis e pelas camas das moçoilas e senhoras, a procura de aventura, amor e sexo.
Pouco depois entrou na internet, acessou a página do maior jornal da cidade e plantou um anunciou:”- Prazer e sexo animal. Ligue para Super Lover Boy”, deixando para contato tão somente o número do novo celular que acabara de adquirir, nada mais. No fechar da tarde do dia seguinte, nada ainda. Nenhuma ligação. De tempos em tempos Giuliano olhava o celular para saber se não havia alguma chamada perdida. Estava ansioso.
De repente, seu celular tocou. Um frio percorreu sua espinha de cima para baixo, terminando numa leve pontada na região lombo-sacral. Seu coração disparou. Respirou fundo três vezes temendo um ataque cardíaco porque seu colesterol andava meio alto e a pressão arterial meio desajustada. Suas pernas ficaram tão bambas que chegou a sentir dor nos ossos do joelho. O tremor de suas mãos, lembrando mal de parkinson, quase não permitia que apertasse a tecla “accept” do celular. Esses sintomas se justificavam porque era um homem de 65 anos de idade, recém aposentado. Mas, afinal de contas, o futuro estava ali em suas mãos, pronto para entrar e mudar sua vida. Segurou firme e atendeu o celular dizendo:
“- Lover Boy pronto para o prazer, a sua disposição.”
Do outro lado da linha, uma voz sensual. Parecia mais o miado de uma gata no cio, sussurrando, pedindo sexo. Giuliano não conseguia se conter. Finalmente haveria de fugir dos muros da prisão em que se encontrava e a chave da porta do cárcere estava ali, do outro lado da linha. Aquela voz sensual, ainda sem nome, lhe deu um endereço e pediu urgência na entrega da mercadoria. Sem perder tempo, tomou banho, colocou uma daquelas roupas transadas, perfumou-se. Por causa do costume, penteou cuidadosamente o cabelo até que nenhum fio estivesse fora do lugar. Olhando-se no espelho viu seu passado refletido. Num ato de fúria descabelou-se apressadamente. Os cabelos foram assentados com as próprias mãos. Afinal, era um homem irreverente de agora em diante, nada de pentear cabelos. Ah! Evidentemente tomou aquele comprimidinho estimulante sexual para ajudar e garantir que não falharia na hora “H”.
Enquanto dirigia seu carro a caminho do encontro, Giuliano sonhava com a cliente de voz tão sensual:
Seria uma atendente de tele sexo? Que bobagem a minha. Pensou ele.
Deve ser uma gatinha toda queimadinha de sol, com aquelas marquinhas brancas de biquini. Ou seria uma loiraça de pele e pelos absolutamente alvos? Quem sabe uma morena quente e transada, cheia de curvas delirantes? Permitiu-se ir tão longe em pensamento, que quase sentia-se cansado só de pensar.
Do outro lado da cidade, num apartamento de classe média, uma mulher de quase 60 anos, ligeiramente pintada, vestia um babydoll preto. Fazendo conjunto, uma tanguinha tipo fio dental exibia umas plumas sobre o Monte de Vênus e as várias celulites de suas nádegas. Uma cinta liga apertava suas coxas brancas e flácidas, marcada de discretos vasinhos de varizes. Seu babydoll esvoaçante mostrava a barriga saliente. Era Cleideonora, a misteriosa cliente de Giuliano que se aprontava para o encontro. Ela também alimentava sonhos de encontrar um amante jovem para aplacar sua solidão. Em sua imaginação idealizava o Lover Boy um moço viçoso e sedutor. Dono de um corpo moreno latino, com tatuagem estampada no braço musculoso, cheio de amor para dar. Aquela era a primeira vez que contratava um garoto de programa. Seu marido havia falecido quando muito jovem. Desgostosa da vida, sem filhos, aquietou-se em seu apartamento até a velhice chegar. Naquele dia estava decidida a mudar de vida e recuperar o tempo perdido.
Chegada a hora marcada, toca a campainha do apartamento de Cleideonora. Apressou-se ansiosa em dar umas esborrifadas de perfume sobre a cama e correu para atender a porta:
Quem é? Perguntou ela.
Seu Lover Boy. Respondeu ele.
Parecendo ouvir um concerto de violinos, ajeitou o busto, fez uma pose sensual e com olhar matreiro abriu vagarosamente a porta. Giuliano e Cleideonora ficaram frente a frente. Foi uma decepção mútua, estampada no semblante dos dois amantes. Os violinos que Cleideonora ouvia tocaram notas desarmoniozas e dissonantes, soltas numa desafinada melodia, cujo som foi se apagando para dar lugar à indignação:
Você é o Super Lover Boy? Você está mais para velho bode do que para Lover Boy. Pode ir embora, estou cancelando o pedido.
Encarando definitivamente o personagem, Giuliano asseverou:
Desfeito o negócio? Não quero nem saber. Atendi seu chamado e fiz o deslocamento, exijo o pagamento integral, sua velha caloteira.
Assim começou uma discussão ali na porta do apartamento. Com medo da vizinhança, Cleideonora sussurra fazendo sinal para que o Lover Boy entrasse no apartamento. Queria a discussão longe dos ouvidos dos vizinhos. Uma vez lá dentro, lançaram ofensas reciprocas até que Cleideonora perdeu a razão e partiu para cima de Giuliano na tentativa de arranhá-lo. Ela sofria de labirintite e perdeu o equilíbrio. Caiu sobre a mesa lateral da sala derrubando o abajur, que espatifou-se no chão. Na tentativa de esquivar-se do arranhão, Giuliano tropeçou no tapete e caiu sobre o sofá que tombou. Lover Boy foi arremessado e saiu rolando pelo chão.
Cleideonora não conseguia manter-se em pé. Precisava de seu remédio da labirintite. Giuliano deu mal jeito na coluna e andava com dificuldade. A pedido de Cleideonora ,Giuliano foi até a cozinha pegar o remédio de labirintite e um copo d´água. Depois ajudou-a a sentar-se na poltrona do sofá. Enquanto isso Giuliano tomou um analgésico anti-inflamatório, depois que Cleideonora agradecida, lhe prescreveu o medicamento.
Enquanto se recuperavam daquela batalha, Cleideonora perguntou qual o motivo dele tornar-se um garoto de programa? Então ele contou sua triste história e disse que aquele era seu primeiro dia de trabalho nessa nova atividade. Do mesmo modo ele perguntou qual a razão dela seguir essa vida de desfrutes? Ela também contou sua história triste. Disse que aquela era a primeira vez que havia solicitado esse tipo de serviço.
Ficaram horas conversando, mal perceberam o tempo passar. Ambos descobriram que além de uma triste história, tinham muitas outras coisas em comum. Com isso se enamoraram. Deitaram-se na cama de casal e passaram a noite juntos, abraçadinhos, apenas olhando-se nos olhos, parecendo que um cuidava do outro. Dormiram embalados pelo silêncio eloqüente daquela noite inesquecível. Tanto se reconheceram um no outro que resolveram morar juntos.
Giuliano e Cleideonora descobriram que o amor desabrocha também na terceira idade. Na verdade não há idade nem para amar nem para recomeçar, pois cada dia que nasce é um novo recomeço e uma nova oportunidade para amar. Descobrir o amor na terceira idade é como ler um livro começando pelo fim, surpreendendo-se com o início da estória.

domingo, 29 de março de 2009

ALZHEIMER

ALZHEIMER
* Por MMendes

Olhando aquele corpo moribundo de boca murcha e desdentada, tentando morder a própria língua, não há como imaginar que já foi cobiçado pelos homens e invejado pelas mulheres. O brilho de seus olhos azuis flamejantes é a única expressão de comunicação. Não anda, não fala, não gesticula, não se alimenta sozinha. Parece que sua alma está deixando o corpo aos poucos. Seu punho fechado e os músculos do antebraço contraídos, parecem ter-se agarrado à vida com medo dela se desprender. Seus pés possuem movimentos involuntários, como que flutuando no ar. Foram amarrados à cama, talvez na tentativa de mantê-la presa à terra.

A enfermeira senta-se a beira de sua cama e lê um trecho de um livro qualquer. Mas, o olhar de Elza se perde no infinito, como quem está com o pensamento muito longe. Talvez buscando uma saída do labirinto em que se encontra, feito pelos corredores de vazios criados pelo desfibrar de sua rede neural. De vez em quando parece encontrar uma saída fazendo foco em alguém. Nesse momento seus olhos fazem água, sua boca treme e um murmúrio rouco rompe a garganta, como se pedisse socorro. Instantes depois, perde novamente a sintonia como que abduzida para o vazio de sua mente.

Seu olhar perpassa os corpos das pessoas, menos o da enfermeira e do marido. Estabelecem conversa pela flutuação do brilho dos olhos. É como um código morse de luzes intermitentes que só eles entendem. Penso que seja um código de amor que só os enamorados conseguem decifrar. O marido cuida de seu corpo, como os embalsamadores preparavam os corpos dos faraós para a eternidade, na esperança de que, depois de terem vencido a morte, retornassem a vida em algum momento. Pede que a enfermeira pinte cuidadosamente suas unhas de vermelho e que deixe suas sobrancelhas finas e arqueadas, retirando o excesso de pelos, como Elza gostava. Também não descuida de mudar sua posição no colchão de água, para que não forme escaras. Ao menor sinal de febre ou expressão de dor, socorre-se do médico da família que a visita semanalmente.

As memórias de Elza se vão como luzes de apartamentos de um edifício apagando-se uma após a outra, até que fique em total escuridão. A evolução da doença sugere que esse apagão segue uma ordem. No início o paciente esquece algumas palavras ou deixa pensamentos inacabados. Passa a esquecer fatos antigos e recentes. A medida em vai progredindo, o portador do mal de Alzheimer se esquece do tempo, se esquece de falar, se esquece dos familiares e por fim, se esquece de comer, de beber, de ir ao banheiro e no final, de viver.

Os médicos dizem que ainda não se descobriu a causa da doença e portanto não tem tratamento. Acho que Elza contraiu essa doença da própria história e do próprio tempo. A vida de cada um de nós é como um neurônio da história e poucas pessoas conseguem ser lembradas. A maioria morre e não deixa nenhum lembrança ou marca. Ao morrer toda aquela vida se apaga, tal qual ocorre no cérebro de Elza por causa do Alzheimer. Quem se lembra quem foi seu antepassado da 10a. geração? E da 5a. geração? Um grande número de pessoas não sabe nada sobre seus avós, quem foram, de onde vieram, o que fizeram. O povo não guarda na memória as mazelas dos políticos. Também os heróis e os artistas descansam esquecidos. Somos um povo sem memória, somos uma nação com Alzheimer.

A vida é um elo entre extremos. Nascimento e morte, bem e mal, certo e errado. Como a vida não se posiciona nos extremos, mas antes é o elo entre eles, tudo que é ruim tem um lado bom e o que é bom, revela seu lado ruim.

Quando detinha alguma capacidade motora, um dos primeiros testes em que reprovou foi o de desenhar um relógio. Se esquecia de colocar os ponteiros. Isso significa que a consciência de Elza perdia noção de tempo. Sem passado, nem presente e nem futuro, presa no limbo entre o infinito primordial e o terminal. Antes da doença era metódica, muito responsável e cheia de obrigações. Acordava logo de manhãzinha pegava seu material de trabalho e ia para a escola dar aulas. Tinha uma carga horária extensa, umas 15 horas de trabalho por dia. Só parava tarde da noite. Para quem não tinha tempo para nada, o tempo agora não tem mais ponteiros. Elza que sempre foi uma pessoa apegada a compromissos, finalmente se livrou deles.

Quando, ainda, sabia falar, já havia se esquecido da relação de parentesco. Uma vez foi perguntada que parentesco teria com sua irmã Marleide. Não se lembrava. Procuraram relembrá-la, então ela disse: “- Ah! É minha irmã!”. Logo em seguida questionaram sobre o parentesco com o marido e ela disse: “-É meu irmão também”. Elza era filha de pais separados e nutria uma profunda mágoa do pai por causa da separação. Finalmente a doença a fez esquecer do parentesco e com isso, acho eu, apagou suas mágoas para sempre. Evidentemente, devido a natureza da doença, no lugar da mágoa ficou um vazio que não foi preenchido. Também haviam desaparecido as paixões carnais subsistindo, entretanto, o mais puro amor pelo marido, que era fraternal.

Elza vive presa numa fração de tempo infinito. Podemos ver em seu olhar o desejo de viver e a luta que trava contra a morte. A única janela acesa no edifício cerebral de Elza é a janela do amor. O amor é a pedra fundamental onde é edificado tudo o que somos e, por isso, é a última coisa a se apagar no cérebro humano.

Benedito Spinosa, filósofo holandês, ensina que o “homem livre não pensa em nada a não ser na morte; e a sua sabedoria é uma meditação não sobre a morte, mas sobre a vida”. Pensar a morte, por mais paradoxal que seja, é o que dá sentido à vida. Aquele que encara a morte, corre para a vida. Elza descobriu, enfim, o sentido da vida.

quinta-feira, 26 de março de 2009

A FRIEDRICH NIETZSCHE

Por Guilherme Benvenuto Mendes*



Refugio um mundo dentro de mim,
mais do que o globo aos olhos.
Nele vivi uma vida pela eternidade,
a cada segundo infinito que passa.

Possuímos uma relação de parasitismo mútuo.
Contexto perfeito para duelos mortais pelo seu trono,
Entre milhões de adversários iguais:
todos os meus eus.

Combates em que me safo e morro,
impero e me destrono em nome da verdade.
E assim, assomam-me as cicatrizes e feridas incuráveis.
Já tantas afloram-me a face e enojam os "perfeitos" de rosto limpo.

Descascam as ilusões,
revelando as entranhas temidas e ignoradas.
Um dia trarei este mundo para fora.
Sucumbirão os "perfeitos" ao ver sua máscara distorcer.

Desesperados irão arrancá-la,
descobrindo que a face
tornara-se a máscara.
Nessa hora reinarei solitário.

sábado, 21 de março de 2009

MENINO TEIMOSO

MMendes

O guri era dos infernais,
Joãozinho não parava na cadeira,
com tudo teimava demais,
sem limites, sem barreira.

Inquieto além da imaginação,
aprendia tudo o que queria,
com desejo e obstinação,
esperteza e muita teimosia.

Ah, garoto levado!
Se queria algo saber,
não podia ficar parado,
até finalmente conceber.

Menino sapeca, endiabrado.
Com ele ninguém podia.
Não sabia ficar sentado,
olhando o fluir do dia.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Meu sereno amor

MMendes

O amor se manifesta imenso, torrente derramada que escorre entre vales e estreitos até se perder no mar. O mar é repositório imenso, denso de amores vividos, padecendo de sofrimento.
Nesse triste tormento, amores dormentes do mar tentam voltar a terra, lançando-se em ondas contra os rochedos. O robusto e portentoso oponente, esfacelado pela luta é registro do brado languido, lamento fino de areia, soprada, levada pelo vento.
Os minúsculos grãos de rocha, espalhados pela terra a dentro, clamam por notícia, conduzem soluços e lamentos de amores em cartas de sofrimento.
O poeta é um marinheiro, buscando terras distantes, navega pelo mar a dentro. O amor é um sentimento realmente poderoso, ora calmo ou fervoroso. É mesmo um mar bravo e revolto. O segredo está na maestria do timoneiro. Navegar pelo mar bravio não é para qualquer marinheiro. Diante das imensas ondas, o bom timoneiro é capaz de demonstrar calma e sossego. O barqueiro inexperiente pode naufragar ou se perder no desespero. O mestre capitão, experiente timoneiro, cruza todo mar bravio sem perder uma só onda, até atingir o remanso das praias, onde o mar, lá no alto, revolto e bangunceiro, agora descansa tranquilo. É nessa hora que a criança, que nos enriquece por dentro, sonha tranquila na praia, brincando de marinheiro.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O CÉU ERA UM INFERNO


Por MMendes

Era tarde da noite. Aquele juiz havia trabalhado o dia inteiro. Foram várias audiências, inúmeros processos despachados, atendeu advogados. Tinha olhar exausto. Sob a luz da luminária analisava detalhadamente um dos processos que estavam sobre a mesa.
Esse serviço de julgar os casos, analisar os processos é mesmo demorado. Não se resume apenas a redigir a sentença. É preciso ater-se aos autos, desenrolar o conteúdo das petições, nem sempre de fácil leitura. Observar cada um dos documentos, sopesar os fatos, os depoimentos das testemunhas,consultar livros em busca de respostas. Só depois de muito esforço, uma fagulha acende as idéias e o direito começa a clarear e movimentar a balança. Vai sendo prolatada a sentença com o peso da caneta do poder, abrandado pelo coração humano do julgador, para que não seja nem mais nem menos, apenas o justo.

O serviço da jurisdição era grande. A máquina judicial movia-se com dificuldade e naquele dia o combustível do juiz estava acabando. Era preciso reabastecer-se com um bom sono. Aquele magistrado de meia idade era honesto e responsável, não queria deixar o serviço para o outro dia. Por um instante desanimou e amaldiçoou a vida. Falou lá com seus botões:

- Prefiro morrer a continuar vivendo carregando o fardo desses processos sobre os ombros.

Sem se aperceber, reclinou a cabeça nos braços cruzados sobre a mesa e cerrou os olhos apagando a luz da sala. A realidade foi se distanciando, os ruídos iam diminuindo, como se o sono tivesse a capacidade de girar o botão do volume do ouvido. E assim, aquele homem conseguiu cruzar a fronteira entre a realidade e o sonho. Cruzar essa linha é como ultrapassar uma cortina e caminhar com passos perdidos na ante-sala de um novo mundo, deixando a realidade cada vez mais para trás. Nos aprofundamos numa nevoa escura como a noite, até que uma luz virtual se acende paulatinamente, revelando o maravilho mundo dos sonhos.

Chegando lá, o magistrado viu um dia ensolarado. Um cenário surreal digno de um artista. Jardins a se perder de vista, anjos voando por um céu de várias cores, um verdadeiro arco-iris. Logo que foi chegando, dois anjos vieram recebê-lo dizendo:

- Seja bem vindo! Nosso Senhor o espera.

Lá na linha do horizonte podia-se ver uma enorme construção, um palácio majestoso com algumas colunas delineando o pórtico principal, onde lia-se: “A Justiça é Triunfante”.
Cruzando a porta principal viu anjos trabalhando. Almas recém chegadas aguardavam atendimento. Umas apoiavam os cotovelos sobre um balcão, outras sentadas, esperavam apregoamento. Curiosamente havia alguns anjos decaídos, vestidos de terno preto e gravata vermelha. Conversavam com as almas recém-chegadas dando orientações de como proceder diante do Dele.

Depois de passar por inúmeras portas e cruzar diversos corredores, o magistrado deparou-se com uma grande porta branca com uma placa indicativa:”Gabinete de Deus”. Estava um tanto apreensivo. Afinal, estaria frente a frente com o supremo juiz da mais alta côrte. Aquele que tem a decisão final sobre todas as coisas, da qual não cabe qualquer recurso, seja terreno ou espiritual.

O gabinete possuía uma mesa cheia de processos. Eram tantos processos que Deus se escondia atrás do monte. Ao chegar, Deus levantou-se abrindo um largo sorriso de contentamento, estendeu os braços para recepcionar-lo, dizendo:

- Que bom que chegou. Aguardava ansioso. Sei que é um homem honesto, justo e bom de coração. Há milhares de anos não tenho férias e os processos só aumentaram. A cada conflito, morticídio e pestilências na terra, um caos se instaura no fórum do céu. Não há pauta para tantos casos e a máquina judiciária celeste está emperrada. Preciso de ajuda. Por isso te convoquei como auxiliar, a fim de que eu possa gozar de um merecido descanso.

Depois de proferir as explicações, abriu uma porta do anexo ao gabinete. Havia corredores de prateleiras sem fim, abarrotadas de processos. Eram os processos da humanidade que pendiam de análise e julgamento. O coração do magistrado terreno congelou. Um arrepio percorreu-lhe a espinha dorsal e o suor frio escorreu de sua testa. Suas mãos estavam trêmulas. Repentinamente, seus olhos em fuga rasgaram o véu do mundo dos sonhos e o juiz acordou ofegante. “- Era apenas um sonho ou melhor, um pesadelo.” Não eram tantos processos que estavam sob sua responsabilidade. E assim, suspirando aliviado, continuou seu trabalho até o fim.

A CONCILIAÇÃO


Por MMendes

Iniciada a audiência, foram apregoadas as partes. Adentraram a autora e o reclamado, que sentaram-se à mesa passando a fitar o Juiz. O juiz passou a relatar o litígio, tornando pública a querela.

A autora, alegando estar trabalhando para o reclamado, pretendia ver declarado o vínculo empregatício com o pagamento das verbas contratuais. O réu, um desafortunado farmacêutico, contestava rubrica por rubrica. O juiz percebeu que os litigantes não se olhavam e cada qual permanecia impávido, vazios de emoção.

Buscando a conciliação, perguntou às partes se havia possibilidade de acordo. Foi então, que para sua surpresa, soube que eram mãe e filho. Asseverou à mãe:

- Como podes litigar com tua própria carne, levando teu filho às barras de um Tribunal?

Ao mesmo tempo, voltando-se para o filho disse:

- O que esperas? Perguntes logo à tua mãe o que que ela quer para por fim ao litígio. Afinal de contas, deves a ela a própria vida.

Continuou o Juiz:

- Como podeis esperar de mim a composição, se a semente da discórdia provém de vossos corações?

O filho atendendo aos apelos do juiz, perguntou à mãe o que ela queria para por fim ao litígio. A mãe com sua fisionomia carrancuda, não fitava nem o filho nem o juiz.

Antevendo as dificuldades que a causa lhe traria, com sua voz ponderada e serena, aproveitando o silêncio das partes, foi astuciosamente dizendo:

- Tu filho e reclamado, não percebes qual a verdadeira intenção de tua mãe?
Percebas tu, que ela quer na realidade somente um momento para dialogar contigo. Para que reconheças no fundo do teu coração, a ajuda que te deu em teus negócios, sem nada exigir.
Que tu, ocupado demais com teus negócios, a tratava apenas como uma simples empregada, esquecendo-te de despender o afeto que costumavas dar na infância.

O Juiz era insistente em sua proposta conciliatória e prosseguia:

- Na realidade, ela não pretende a declaração do vínculo empregatício, mas dar-te apenas uma lição, das quais somente o sábio e verdadeiro amor de uma mãe poderia ministrar.

O juiz sabia que, no fundo, essa não era a realidade aparente, mas conhecendo profundamente os mistérios do coração humano, intuía o porquê da discórdia entre mãe e filho, incitando o acordo entre as partes. Continuava o juiz:

- Vindicou ver-se reconhecida empregada para lembrar-te de que a tratas como uma mera operária, esquecendo-te de com ela dialogar, abraçá-la, beijá-la na face, gestos do carinho de um verdadeiro filho. Eu chego a imaginar que dinheiro mesmo ela nada quer. Sempre esteve ao teu lado, confortada pelo próprio amor maternal. De nada mais precisa, a não ser ter o filho de volta.

Neste instante, os olhos da mãe e do filho voltaram-se atentamente para o juiz, que apercebendo-se disso, disse ao filho:

- Levanta-te de tua cadeira e corras abraçar tua mãe.

As incisivas do juiz arranhavam profundamente a consciência dos litigantes. Envolvido com as palavras do magistrado, o filho levantou-se de sua cadeira e dirigiu-se ao outro lado da mesa, buscando o colo da mãe, que como verdadeira e boa mãe, o abraçou vigorosamente.

O discurso obtivera êxito e a reclamante e o reclamado compuseram-se, nos termos da proposta do magistrado. A mãe recebendo o filho de volta e o filho obrigando-se a não mais esquecer-se de dar amor à mãe.

Naquele mesmo momento, assinaram o termo de acordo, e, por uma coincidência do destino, a caneta por eles utilizada era de tinta vermelha, quiçá simbolizando o sangue de seus corações.
Esta estória lembra-nos das inúmeras querelas submetidas à Justiça do Trabalho. Lembra-nos, ao mesmo tempo, que todos nós somos irmãos, filhos de um mesmo Pai Criador, sem distinção de classe social.

Em nossa estória, a mãe simboliza os inúmeros empregados que figuram nas reclamatórias que assolam nosso país. O filho representa os empregadores chamados à Justiça obreira. Serve para refletirmos que o empregado sem o empregador não tem trabalho e o empregador sem o trabalhador é improdutivo. São na escala produtiva, um só corpo, uma só carne.

A verdadeira intenção da mãe em ser reconhecida pelo filho, chama-nos a atenção de que o trabalhador almeja antes de tudo, que seu trabalho seja reconhecido como expressão de solidariedade não de inferioridade. O reconhecimento do direito a uma igualdade proporcional que lhe confira na divisão dos bens necessários á vida, lazer, descanso, trabalho, moradia, educação e alimentação.

O juiz simbolizando Deus, é o instrumento de conciliação dos povos, que não se deixa iludir pelas aparências, mas enxerga os pensamentos mais profundos, lendo-os nas entrelinhas dos corações. Em sua sabedoria, busca a conciliação em primeiro lugar, ensinando aos litigantes o caminho da composição.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

PARTIDA

Por MMendes

Morrer, estar em lugar algum.
Estar além, muito além da vida.
Morrer e estancar, secar, desaparecer.
Tornar poeira espalhada pelo vento.

Morrer, difícil de aceitar, de entender.
Um sentimento indecifrável, intangível,
sentir que não se expressa em palavras,
mas com lágrimas e gemidos.

Perda insuperável de um ser irrecriável,
uma chama que se apaga para sempre,
olhos que se encerram num sono eterno.
Um último suspiro, um alívio de sofrer.

Vida e morte, eternamente amantes,
enrolados no romance de triste desfecho.
A vida sabendo que seria abandonada,
assim mesmo se entrega aos seus braços.

Num choro desesperado a vida se agarra à morte.
Segura suas mãos frias num epílogo de desespero,
a morte está determinada, não há volta, só partida.
Não há tempo para mais nada, nem para despedida.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

CINZAS DO PASSADO

Por MMendes

Não guardamos uma história linear. O consciente registra algumas lembranças separadas umas das outras por inúmeras lacunas. Sob esse ponto de vista ,a vida é um livro de contos independentes.Não mais que fragmentos de memória. Juntamos os cacos das memórias e montamos naquele momento nossa estória, tal qual um diretor que corta cenas do rolo principal e cola os pedaços, os seguimentos, criando o filme de nossas vidas. O "make in off " jogamos no inconsciente.

A primeira vez que me recordo de ter colocado um cigarro na boca, foi aos quatro anos de idade. Brincava com meu irmão na esquina e achamos uma bitucas apagadas no chão. Brincávamos de fumante quando meu pai apareceu do nada. Levamos a maior bronca, jogamos aquelas bitucas bem longe e voltamos ligeiro para casa. Noutra ocasião ,meu tio fumava no quarto com a luz apagada. Para meu entretenimento, brincava com a brasa do cigarro desenhando círculos vermelhos.

Nos recortes da memória, talvez essas sejam as seqüências explicativas do vício. O cigarro era apenas uma brincadeira, umas baforadas de fumaça, até que me tornei dependente da nicotina. O cigarro acompanhava os grandes momentos da vida: a felicidade, a tristeza, o namoro, o barzinho, as reuniões, viagens.

Depois de uns oito anos resolvi parar. A mesma mídia que propagava o gosto pelo cigarro, agora o combatia. Em 1982 eu trabalhava no banco. Era proibido fumar no recinto e já havia um fumódromo. Campanhas anti-tabagistas mostravam uma carinha triste de um lado, fumando um cigarro, do outro, uma cara alegre com uma margarida na boca. Bolei um plano. Fumaria dois cigarros por dia, um às três horas da tarde e outro às oito horas da noite. Não fumaria de manhã porque era o horário que cigarro causava mais malefício.

No primeiro dia, a fissura. Quando foi chegando a hora do primeiro cigarro o tempo praticamente congelou, os segundos eram horas e as horas eram milênios. Cinco minutos antes da três coloquei o cigarro entre os dedos e fiquei com o isqueiro na outra mão, com o pulso em posição de ver as horas. Trinta segundos, vinte segundos, dez segundos e fogo. A primeira tragada consumiu o cigarro até o meio, enchi os pulmões de fumaça e prendi a respiração. Quando soltei o ar, quase não saiu fumaça. Ah! Que alívio! É que meu organismo estava precisando muito daquela poluição para sentir-se vivo. Não é incrível nossa capacidade de adaptação? Tempos atrás encontraram um jacaré vivendo nas águas do Rio Tietê !

Quando achei que estava no ponto de largar, voltei a fumar desesperadamente. Estava na praia com meus cunhados, de férias . Choveu vinte dias sem parar e passávamos o tempo jogando baralho, fumando e bebendo. Comprei um pacote de cigarros e fumei o primeiro maço em menos de uma hora.

Quando temos tudo o que queremos, acabamos enjoando e querendo coisas diferentes. Acho que foi por isso que, tempos depois, guardei meu maço numa gaveta do criado-mudo. Disse para mim mesmo que o maço estava ali, ao alcance da mão. Se quisesse poderia fumar todos os cigarros de uma só vez. Não fumei mais e aqueles cigarros foram amarelados pelo tempo. Anos depois coloquei fogo neles, até que se tornassem cinzas do passado, levadas ao vento.

Aprendi uma grande lição. Não se pode apagar o passado, ele é parte permanente de nossa vida. É por isso que muito de vez em quando, minhas desbotadas memórias, ainda que em cinzas, me fazem sentir uma leve saudade de fumar.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

OLHA SÓ QUEM CHEGOU!


Por MMendes

A vida é uma caixa de surpresas. Deixamos de resolver os verdadeiros problemas, os da alma, ocultados no excesso de comida, bebida, cigarro, consumismo, sensualismo. Mas o cobrador um dia aparece e bate a nossa porta. Nossos olhos se abrem justamente no instante em que chega a hora de cerrá-los definitivamente. Mas o que se passa na cabeça de um homem nesse momento, no último segundo da vida? Roberto descobriu o mistério.

Um corpo franzino fenecia no leito hospitalar. Tubos e sondas entravam por suas vias respiratórias. Sua escassa energia vital era monitorada por diversos instrumentos, como que se esperassem o "bip" final para dizer: "-Se foi"! Era doença ruim, câncer de pulmão, ramificado para diversos órgãos. Era fumante inveterado, quatro ou cinco maços por dia. O ar apesar de abundante, já não conseguia penetrar em seus pulmões. Respirava com dificuldade. Uma olheira azulada delineava seus olhos castanhos, fundos e opacos. Era a expressão da morte.

Mal conseguia movimentar suas mãos. Seus olhos parados contemplavam o instante final. Dizem que nesse momento o filme de nossa vida passa diante dos olhos e rexperimentamos a vida rapidamente. Mas, não foi bem isso que ocorreu. Os parentes estavam no quarto. Uns choravam, outros contavam como a doença evoluiu rapidamente, outros buscavam se aliviar fazendo algum gracejo agradável.

Olhando para o passado, a sensação que temos é que a vida é muito curta. A física ensina que o tempo é relativo, e, é mesmo. O último segundo é um tempo especial, ali tudo corre muito lento e há tempo para tantas coisas, até para recuperar ou fazer tudo aquilo que deixamos para trás. É paradoxal, mas o segundo anterior à morte é derradeira chance de compreender o verdadeiro sentido da vida. E assim, não há quem tenha vivido em vão.

Roberto fitava a cena para gravá-la em sua lápide mental, quando todo o cenário começou esmaecer e as pessoas foram sumindo, apagando-se pouco a pouco, até que desapareceram por completo. Quando se deu conta, Roberto estava sozinho no quarto. Alguém abre a porta e uma doce mulher ingressa no recinto. Vestia roupa branca qual as enfermeiras. Seu rosto era angelical de expressões maternas, gesto suave. Seria um anjo descido do céu? Pensou Roberto. Poderia ser simplesmente efeito da dolamina que lhe aliviava as dores.

A mulher abeirou-se da cama e conversou pausadamente com Roberto:

- Como está se sentindo?

Roberto mal levantava os olhos e sem dizer nada, colocou a mão no peito dolorido. A mulher como que entendendo, disse que faria uma espécie de massagem nos pulmões, para tentar aliviar o sofrimento. Ao iniciar o procedimento, uma energia esquisita percorreu o corpo de Roberto. Um calor terrível dominou seu corpo moribundo, como se tivesse deitado em cima de todos os cigarros acesos que já havia fumado. Um suor diferente escorria pelo corpo, um líquido escuro e espesso. Toda a nicotina que seu organismo absorvera durante a vida, deixava seu corpo num só instante. Sua boca exalava muita fumaça. O quarto ficou todo enevoado, mal se via um palmo a frente. A mulher, delicadamente foi até a parede lateral e levantou a janela de correr. A fumaça se esvaiu pela abertura, tragada rapidamente, limpando todo o ambiente. Uma brisa fresca balançava a fina cortina branca e um aroma de rosas tomou conta do quarto.

A mulher passou por Roberto e sorriu. Dirigiu-se até o banheiro e voltou com uma vasilha com água e um pequeno pedaço de pano. Umedeceu o pano e delicadamente limpou a nicotina que recobria o corpo de Roberto.

A cada deslizar do pano, um alívio. Milagrosamente cada escara e ferimento foram cicatrizando. Sentiu um vigor de moço, abriu um largo sorriso em agradecimento, enquanto seus olhos exclamavam admirável espanto.

Não deu nem tempo de dizer uma só palavra e aquela mulher levantando a mão direita encostou o indicador em sua testa. O corpo de Roberto parecia ter entrado em convulsão e depois paralisou em transe. Agora sim, toda sua vida, todos os momentos passaram por sua tela mental, reavivando as alegrias, felicidades, dores e sofrimentos que experimentara no passado. Curiosamente as lembranças ruins depois de experimentadas apagavam-se da memória, enquanto que as boas lembranças permaneciam vívidas.

Ele estava em êxtase profundo, algo que só experimentou quando era criança, quiçá recém-nascido. Dizem os antigos que o recém-nascido sorri quando vê um anjo. Todo mal estava desfeito... Todo sofrimento apagado... Toda lágrima enxugada. A sensação era de que havia tomado um banho de corpo e alma. Uma energia vibrante pulsava em sua mente e o preenchia. Sua vontade era gritar de alegria. Sentiu desejo de viver eternamente. A vida era maravilhosa.
De tanto exultar cansou-se e com seu corpo franzino acomodou-se no colo materno daquela mulher de branco, adormecendo suavemente em uma posição fetal.

Depois de uns minutos, o médico anunciou pesarosamente:

- Ele descansou em paz.

Roberto tinha um leve sorriso no rosto, o mesmo dos recém-nascidos quando vêem um anjo passar.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

METRÓPOLE

Por MMendes

Sem rosto a cidade é vazia.
Pessoas sem rumo e sem cor.
Calçadas tão frias,
abrigam corpor em dor.

Metrópole escura,
rigidez de pedra dura,
uma lápide sem jardim,
um cemitério sem fim.

A vida corre no tempo,
no metrô a vida se vai.
Um transe de corpos que pendem,
insensíveis, não sofrem, não sentem.

No movimento se vão,
nada ao redor alegra.
Não se sabe de que são,
de carne ou de pedra.

Estou onde não estou,
mente e corpo conflitando,
meu corpo aqui está,
minha mente viajando.

Procuro um rosto na rua,
sentir um perfume no ar,
um brilho de estrela,
uma beleza de luar.

PERGUNTA SEM RESPOSTA

Por MMendes


És um sopro de vento,
uma folha levada ao léu.
A vida é um suspiro do criador,
inspira alegria, ao tempo que expira dor.

O tempo é abatedor,
uma corrida vil,
corre criança sobre a relva
tomba na terra um senil.

Na agonia interpela-se o criador:
- Somos um sopro, temos valor?
- Para onde vamos depois do último instante?
- Viveremos eternamente ou viraremos vapor?

Mas Deus se cala ao vento,
sem repostas, caminhamos sedentos.
Seria Deus invisível,
também surdo aos lamentos?

Na resposta silenciosa,
percebi tua existência.
Deus não fixa morada fora,
a resposta vem de dentro.

RENASCER

Por MMendes

Moço triste,
por que a melancolia?
É triste de nascença ou
sofre de apatia?

O que busca?
O eu?
O seu?
O meu?

Quer ser rei ou
vagabundo?
Sopita na sua preguiça ou
quer mudar o mundo?

O que lhe dá prazer?
A erística,
ou o suor
da construção artística?

Em que acredita?
Em Deus, em Zeus,
nos homens ou
no sofrimento seu?

Quem é você?
Um visionário,
um eremita ou
revolucionário?

Será mesmo novo?
Não será um esboço,
caricatura de moço,
realmente um idoso?

E se a morte não vir,
e a vida passar?
Ficará na janela,
sem nada mudar?

Olha a vida que passa,
o céu, seu azul,
como o azul dos seus olhos.
Esqueça o peso da cruz!

Sai da morte e vem pra vida,
vem sorrir e não morrer.
Vem ser gente com a gente,
ser feliz, vem viver.

FANTASMAGORIA

Por MMendes

Quer um guia de luz,
alguém que te conduz.
Não sou eu,
sou fariseu.

Quer um homem ideal,
alguém de verdade.
Não sou eu,
sou virtual.

Quer uma vida sana,
não posso te dar,
sou filho da morte,
de vida profana.

Quer alguém irreal,
algum anjo, deduz,
sou homem de cruz,
pecador e mortal.

Preciso mais de você,
anjo do meu coração.
Teus olhos em busca de luz,
são meu lume na escuridão.

AMBIGUIDADE

Por MMendes

Vida de duas faces,
opostas e diferentes.
Uma atracada,
outra impele para frente.

Inconciso,
andarilho indeciso.
Um passo é normal,
o outro não é igual.

Meeiro de dois espelhos,
concavo e convexo,
difere,
espelha nos dois um reflexo.

Não há qualquer simetria,
dividindo-se,
um é destro,
o outro canhoto.

Simbiose de mistério,
sofre, chora,
alegra e se ri.
é o próprio impropério.

PERDIDO

Por MMendes

Onde está o norte?
o sonho voa nas asas da morte?
Se a morte mata o sonho,
morrer será nossa sorte?

Onde está o homem que não veio?
Padece na sua cruz?
Onde está a vida prometida?
Onde está Jesus?

Abandonas o sacrifício,
o povo entrega à cruz.
Milhares são os nazarenos,
inocentes como você, Jesus.

Onde está o prego? Onde está a cruz?
Não vejo céu nem inferno,
com olhos não vejo luz.

Onde está Jesus?
Morreu?
Onde está?

Quem responde é Satanás.
- Estou aqui!
- Para onde irás?

Fugir para onde?
Um beco sem saída?
Viver? Morrer?
Veredas da vida.

Destino selado.
uns a entregar Jesus,
outros a cravar o prego,
meu destino é fugir,
daquilo que está ao meu lado.

ADÚLTERIO

Por MMendes

O que preenche, esvazia.
Uma água que mais sede dá.
Transparente,
agora opaco e negro.

Aquilo que brilhou,
caminha nas sombras.
Mais ardil,
abate num covil.

Era quente,
hoje é frio.
Mais senil,
ensinando seu vazio.

Se a vida busca,
não saberei jamais.
Busca por toscas veredas,
nos becos onde não há.

Aprende mais do que sabe,
ensina o que nunca aprendeu.
Não sabe se mente ou sente,
artista demente.

No dia contracena,
encena,
obsceno.
Nunca para o insano.

Sua morte mentirá.
Falseará sua sorte,
sonolento,
nos braços da senhora,
há de fingir reclinar.

JUIZ IDEAL

Por MMendes

Honra, justiça e probidade,
teus pilares, tua vida.
Imbatível como a rocha,
incorruptível como o ouro.

Coração doirado,
encouraçado.
De carne e sangue,
peito de aço.

Labuta na esperança,
advoga pela Justiça,
brada pela vida,
morre pela liberdade.

Pai Brasil de pálidas chamas,
pai desses filhos também.
Os filhos expúrios da Pátria,
são os legítimos que têm.

Os que no seio
se deleitam,
roubam o pão e o mel,
oferecem aos filhos expúrios,
o amargo saber de fel.

Sentimento inconsciente,
traído, trai violento,
impinge, impunha,
desfere o punhal.

Tantas quantas,
nenhum porém fatal.
Mata no homem,
somente o animal.

Purifica com o fogo,
molda no ouro,
a couraça edifica,
revestindo o peito a rogo.

Guerreiro mortal,
não imoral.
Combate sua sorte,
sentimento mal.

Imbatível e sagás,
guerreiro antigo,
que chora dentro do peito,
a morte do inimigo.

MULHER ANIMAL

Por MMendes

De forma furtiva,
cativa e rouba meu coração.
Seu corpo feminino,
faz-me menino,
quando doura-se sob o sol.

Teus olhos intrigantes,
se fazem flamejantes,
quando toca teu corpo ao meu,
numa dança sensual.

Seus gestos abusados,
me fazem paralizados,
admirando teu corpo doirado,
acariciado pela luz do sol.

Mulher sensual,
meio humana, meio aninal,
faz-me depressa, agora,
sem pressa me devora.

DESENCONTROS

Por MMendes

Edifica,
depois modifica.
Revolve, envolve,
mas nada resolve.

Uma mistura estranha,
meio bela, cabelos de fera.
Primeiro aquece e,
logo gela.

Pincela colorido,
depois mancha toda a tela.
Indecisa, inconcisa.
É o verso e o reverso.

Vem e me absorve,
vai e me dissolve.
Adora seu nome.
Me olha, me come.

Com unhas de aço,
me abre,
me rasga,
depois some.

Não sei quem é,
me leva nos braços,
me abate na trama,
me olha no chão.

Seus olhos azuis,
me chamam sem fim.
Seus braços porém,
se cruzam sem mim.

Teu coração pulsa quente,
teu peito aparenta.
Corpo obceno,
de gestão tão frio.

ZÉ DAS MEDALHAS

Por MMendes

Lá vai o Zé das Medalhas,
andando pela rua sozinho,
nem se apercebe das falhas,
movendo as pás do moinho.

Vejam no que se meteu,
vocês não vão acreditar,
todos os amigos vendeu,
para a comenda ganhar.

Não tem só o medalhão,
pois junto com aquela medalha,
lhe entregaram a solidão,
e o nome que o achincalha.

Lá vai o Zé das Medalhas,
com seu polido medalhão.
Vendeu todos os amigos,
devia ser Zé Vendilhão.

Lá vai o Zé das Medalhas,
com seu polido medalhão,
agora que vive sozinho,
devia ser Zé Solidão.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

ALGUÉM CHAMADA ALICE

Por MMendes

No canto da tela do computador,
discutindo em meio a tensão,
num gesto ou gemido de dor,
alguém chamou atenção.

Era Alice, um alguém,
não sabia bem quem,
mas que numa só explosão.
Se tornava o novo sucesso.

Alice parece que disse,
ter vivido uma batalha.
parece não, viveu.
Lutou com bravura, infartou mas venceu.

No país que não é de maravilhas,
maravilhas sonha em poder fazer,
dos cantos toscos da vida,
um lugar melhor de se viver.

AMIGO AUGUSTO

Por MMendes

Hoje estou tão sozinho,
Preso numa tarde silenciosa,
sinto-me um pequeno passarinho
distante da liberdade preciosa.

Sou só olhos de menino,
Um corpo quase sem alma,
o sonho de um peregrino,
que dorme na noite calma.

Meus amigos vão voando,
chamados seguem o norte,
Voando o vôo da liberdade,
carregados nas asas da morte.

Quando chegares no destino,
Augusto, diga ao nosso Criador,
para lembrar-se deste pequenino,
este solitário pássaro sonhador.

AOS GOVERNANTES

Por MMendes


Quem enxerga o futuro,
não tropeça no presente,
olhando por sobre o muro,
admira o sol nascente.

Repousa as calejadas mãos,
Nas coisas santas da vida,
Família, filhos, irmãos,
natureza, o pão e a lida.

Não desperdiça o tempo,
vendendo o que não se compra,
tentando apanhar o vento,
correndo atrás da sombra.

Constrói um belo templo,
Para nele habitar,
todas virtudes humanas,
oferecidas num altar.

Entalha-se a todo custo,
esculpindo um homem novo,
fraternal, sincero e justo,
gente simples do povo.

LADRÃO DE GALINHAS

Por MMendes

José roubou prá comer,
sendo levado à prisão:
- Confesso seu delegado,
roubei um pedaço de pão.

- Ladrão de galinha alheia,
a mim você não tapeia.
- Na prisão você vai ver,
terá tempo de se arrepender.

Calado com fome infernal,
ouvia o delegado agitado.
Não sabia pobre coitado,
que ter fome era imoral.

Preso na cela fria,
pensava José, refletia.
Não pensava noutra coisa,
comer o pão que o delegado comia.
Boa Noite José...

O JUIZ ATORMENTADO


Por MMendes

Num lugar não tão distante,
pensava um juiz preocupado,
em sanear suas finanças,
administrar o ordenado.

Ainda era meio do mês
e o salário tinha acabado.
Reduziu o consumo de vez,
mas o gasto havia dobrado.

Lutaria por reajuste,
Se estivesse estimulado...
O teto era um embuste,
deixou a idéia de lado.

Era um juiz honesto,
daqueles curtidos no sal.
Seu temor manifesto,
era parecer Nicolau.

Um pensamento esquisito
percorreu a sua mente.
De comer não necessito,
juiz é deus, não gente.

Trabalhando noite e dia,
dormia de vez em quando.
Da fome se esquecia,
e o tempo ia passando.

O que o juiz não sabia,
é que ele era humano.
Juiz de barriga vazia,
não subsiste neste plano.

Desnutrido e moribundo,
mil sentenças proferiu,
foi juiz até o dia,
que desta vida partiu.

Esta estória dá o tom:
Os Santos estão no altar,
Dinheiro demais não é bom,
também não pode faltar.

REFLEXÃO DA MANHÃ


Por MMendes

Cuidem bem de vossos corações, para que não se tornem duros e áridos pelo concreto da pura razão. Antagônica, a razão afasta a emoção, lembrando que o amor é irracional.

Não deixeis em casa vossos corações, senão a razão apoderar-se-á de vossos olhos, deixando-vos às escuras, donde passareis a confundir o desempregado ao vagabundo, o moribundo ao bêbado e o pobre ao bandido.

Melhor esquecer vossos olhos em casa, levando convosco o coração, que é capaz de ver nos olhos tristes dos pobres, o calvário de Nosso Senhor.

PERSONAGEM AUTOCRATA

Por MMendes
Ao lado da realidade,
na vida em tomos,
representamos quem somos,
fingida personalidade.

Num roteiro suicida,
Um personagem demente,
Domina toda vida,
do ator insipiente.

Com atrocidade nos mata,
Perseguindo a vitória,
personagem autocrata,
escreve sua estória.

Loucura sem igual.
A criatura repleta,
numa cena anormal,
a vida do artista interpreta.

O ator inconformado,
brada ao personagem:
- Sou eu que te interpreta,
e não interpretado.

Pela cria amordaçado,
É relegado o pedido.
No corpo encarcerado,
de viver está banido.

Na prisão solitária,
quem visita é a tristeza,
que apesar da feiura,
o artista vê beleza.

Do cárcere não há escape,
só mesmo conformação.
Não há lugar para o ator,
na vida de encenação.

Em pensamento fugiu,
pra ver estrelas no céu,
Reparando refletiu,
é pintura painel.

Tudo era irreal,
tanto os homens quanto as flores,
as alegrias e as dores,
partes de um contexto virtual.

Ficou aborrecido,
num canto encolhido
sem saber o que fazer,
sentindo o coração padecer.

Carecia de realidade,
de um amor de verdade,
um abraço, um calor,
de um gosto, um sabor.

Definhado em seu porte,
num final arrepiante,
escrito naquele instante,
um amor acenou-lhe forte.

Parecia real sua sorte,
tinha ela olhar brilhante,
lindo corpo provocante,
e assim foi-se com a morte.

MULHER QUE ME MATA

MMendes

Mora na minh’alma,
olhos negros penetrantes.
Com veneno me acalma,
me da sonhos delirantes.

Buscando acalento,
cambaleio rodopio.
Caio no chão sedento,
ofegando, suando frio.

Não posso ver o teu rosto,
a penunbra m’inebria,
mas sinto na boca teu gosto,
és magra de pele fria.

Teu nome, eu não conheço,
mas teu sopro me arrepia.
Em teus braços eu padeço,
não te encontro n’outro dia.

Tens o hálito da morte,
quando joga pela vida,
nas cartas da minha sorte,
em becos que não há saída.

Um dia irei contigo,
na volúpia do teu amor,
numa morte sem abrigo,
dou meu corpo sem calor.

RAÍZES PROFUNDAS

Por MMendes

Num deserto imensurável,
vive um coração amargurado.
De pétalas pálidas e caule murcho,
lançando raízes em busca d’água.

Caule arriado com desvalidas pétalas,
aprofundando raízes,
nas areias cálidas,
sedento, quase desesperado.

Solo adentro, raízes avançando,
perfura as profundezas d’alma,
que é só secura sem acalento,
desespero que não se acalma.

Sobre areia, o sol causticante,
sob ela, raízes fatigadas
por água que não encontra,
em sua busca incessante.

Quando encontrá-la se embriagará,
pois sua sede é enorme.
Num só trago tomará,
se encharcando a ver se some.

Enquanto isso só raízes,
de caule franzino e moribundo.
Olhando aquele arbusto,
não se imagina quão é profundo.

Sou um arbusto no mundo,
no deserto de minh’alma,
as raízes minhas dores,
cada vez mais profundas.

Minha busca é uma sede,
de água doce serena,
de uma verdade real,
de vida que valha a pena.

O TOQUE DE MIDAS

Por MMendes

Ele me ouve demais,
sem sopesar no pedido,
acolhe tudo que peço,
sem antes ter medido.

Nada posso pedir,
muito mais agradecer,
mas o menor dos pedidos,
ele faz acontecer.

Pensava no passado,
pedindo apenas perdão,
dos meus rancores ouvidos,
o mal que foi atendido.

Sela-me os pensamentos,
só para me prevenir,
não dê ouvidos Pai,
a quem não sabe pedir.

Dom semelhante a Midas,
há algum tempo detenho,
com incrível crueldade,
meu sonho é realidade.

Sonho alimenta’lma,
é esperança divina,
mas a dura realidade,
a ilusão assassina.

DESAMOR

Por MMendes

Cumpres teu papel,
aliás, amarelado.
Teu rosto por sobre um véu,
não sente meu lábio molhado.

O tempo que me põe a sofrer,
Permite que durma ao lado,
nas noites me faz morrer,
me cobre num manto gelado.

Talvez não tenha notado,
há quanto te faço apelos,
que se somam nos anos,
no prata de meus cabelos.

Haverá outra vida?
o outono que aproxima,
é tempo de despedida,
de terra caindo por cima.

Para sempre vou viver,
em memórias do passado,
num livro alguém vai ler:
- Morreu sem ser amado.

A DOR E FELICIDADE

Por MMendes

A dor está em todas as diretrizes,
parece que isso é tudo o que temos.
como então seremos felizes,
se ao viver padecemos?

Algumas pessoas buscam na vida,
de todo sofrimento se esquivar,
deixando que a parte sofrida,
outros venham suportar.

Caminham por sobre as dores,
fugindo de todo revés.
As lágrimas dos sofredores,
refrescando-lhes os pés.

Homens secos, sem fermento,
cegos como aqueles de Emaús,
recusam o próprio sofrimento
como o diabo recusou sua cruz.

Toda vez que recusamos,
nosso sofrimento suportar,
o transferimos para outro,
que dele não poderá escapar.

Na vida nem tudo é remanso,
nada se consegue sem esforço.
Para que uns gozem de descanso,
Outros carregam o mundo no dorso.

Ao olhar algum sofredor,
com fome, com frio ou chorando,
reflitas, não seria tua dor,
que ele está carregando?

Se a emoção brotar subitamente
E sentires o pranto chegar,
Vivas no choro intensamente,
as dores quais buscastes te afastar.

Sofras um pouco com ele,
e uma prêmio lhe será ofertado,
pois a verdadeira felicidade
virá das dores que tiveres suportado.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A GUERRA DAS MULHERES


(*Por: Guilherme Benvenuto Mendes)

Soa o sinal. É dado início a batalha. Um exército com cerca de mil mulheres sedentas de sangue marcham desesperadamente rumo ao seu alvo: os balcões de roupas da liquidação total. Todas possuem um lema em mente, se apoderar da maior quantidade possível de peças e acessórios, custe o que custar, doa a quem doer; afinal, vale tudo no amor, na guerra e nas liquidações de peças femininas. Geralmente as grandes promoções são seguidas de cinco atos: Conquista de território, alianças e formação de blocos, pancadaria, chamar reforços e finalmente o apocalipse.

Ao avistarem as primeiras combatentes chegando, alguns compradores e até os funcionários da loja se colocam em posição estratégica: um se esconde atrás do caixa automático, outro atrás de uma vitrine, dois rapazes ficam próximo a uma exposição de peças de carro, um jovem tenta desesperadamente se pendurar no ventilador, sem sucesso, e um senhor de idade tem um infarto – temos a primeira vítima fatal.

E assim dá-se início ao 1° ato. As mulheres mais magras tiram proveito de sua velocidade e tamanho, e passam furando as legiões de guerrilheiras, chegando primeiro as vitrines e balcões. Inútil, já que as mais gordas desferem-lhes uma investida mortal, arremessando à quilômetros de distancia suas adversárias e assim conquistam seu território, afugentando as mais fracas e se encaixando nos balcões, apanhando para si um punhado de peças.Logo um a um dos balcões ficam cercados de senhoras gordas e enormes que não estão para brincadeira. Formando assim os primeiros monopólios.

Inicia-se o 2° ato. Surgem então três blocos: as monopolizadoras, que tiram proveito de suas conquistas territoriais; as excluídas, que reivindicam um espaço entre as vitrines; e o bloco das mulheres de TPM - tocou, provocou, morreu - que não estão satisfeitas com sua situação e nunca irão estar, desejam simplesmente meter a mão na cara da primeira pessoa que lhes aparecer na frente.

O bloco das excluídas se posiciona estrategicamente. Ficam frente a frente com as monopolizadoras. Momento de grande tensão, não se escuta um ruído sequer na loja. Estão todas aguardando o sinal de ataque, que finalmente é declarado, usando o código de batalha entre as mulheres:

-Ei, pirua, essa roupa é minha! Eu vi primeiro!

O conflito se inicia, começando o 3° ato: a pancadaria. A artilharia age com grande velocidade e dispara uma série de tamancos e sandálias voadoras, que fazem as primeiras vítimas do confronto. Rapidamente a munição se esgota que é quando o conflito direto começa. As mulheres mais gordas usam de sua arma mais letal: “a bundada extra G”, enquanto as mais magras apelam para arranhões e puxões de cabelo. Já o bloco das mulheres de TPM sai batendo em qualquer uma sem nem sequer tomar partido na batalha, estas se autodenominam de bárbaras, com orgulho e muita sede de sangue.

Em meio ao conflito, duas mulheres se destacaram pelo empenho com que batalharam. Uma senhora já de idade, cabelos grisalhos e com rugas, puxava o cabelo de outra mais nova e loira, que lhe retribuía mordendo o braço e arrancando gemidos de dor. Ambas disputavam por um lindo suéter, a mais velha queria dá-lo à filha e a mulher loira por sua vez, à sua mãe. Quando finalmente as duas se olharam, foi que perceberam que não passavam de mãe e filha. Muito envergonhadas as duas se abraçaram entre lágrimas.

Em meio à confusão duas mulheres se sobressaíram como líderes. Uma gorda, monopolizadora, de origem alemã, com temperamento instável e um bigode na cara “à La Charles Chaplin” – que dizia existir uma raça ariana, a das monopolizadoras, que por direito divino deveriam possuir todos os estoques de roupas da loja. Já a outra, era magra e de origem russa, muito repressora e severa – dizia que todas eram iguais e mereciam a mesma quantidade de roupas.

As duas líderes decidem dar uma retomada estratégica, para contabilizar as perdas e reagrupar. Chegou a hora de chamar reforços! Cada uma das mulheres sacam seus celulares, das mais sortidas cores e designers, algumas sacam ate dois ou três celulares ao mesmo tempo. Não demora muito para que quase metade da população feminina da cidade esteja presente. Os blocos retomam as suas posições frente a frente, mulheres de todos os tipos e de todos os lugares estavam ali, algumas com olho roxo, arranhões pelo corpo, cabelo desarrumado, maquiagem borrada, salto quebrado e até aleijadas, mas todos com muita sede de sangue.

Uma freira, que pertencia ao bloco das mulheres de TPM finalmente se acalma, e passado o momento de stress, percebe a situação ridícula da qual fazia parte e decide tomar uma atitude. Ela chama a atenção de todas as mulheres ali presentes e, com um gesto, retira as roupas do corpo e as joga no chão, ficando apenas com a roupa íntima. Então exclama:

-Façamos como São Francisco de Assis! Não nos apeguemos a esse materialismo que nos é imposto, vamos jogar as roupas de nosso corpo fora, junto com essas que nos querem vender e façamos uma grande fogueira!

Como resultado: Ergueram-na em um dos balcões e a crucificaram ali mesmo. Suas ultimas palavras foram: “Jesus se sacrificou para salvar os homens, eu humildemente faço o mesmo!” Ela foi “devorada pelo consumismo.”

5° ato: apocalipse. Einstein certa vez disse: “Não sei como será a 3° Guerra Mundial, mas a 4° será de paus e pedras.” Einstein certamente não conhecia a Guerra das Mulheres. A batalha foi histórica. Gritos, ponta pés, estilhaços de vidro, roupas rasgadas, mulheres inconscientes, crianças chorando e muito mais. Não sobrou nada. Nem mesmo as bombas atômicas de Hiroshima e Nagassaki destruíram tanto como uma manada de mulheres durante uma liquidação. Não houve vencedoras, também não sobrou uma peça de roupa sequer. A liquidação fora um sucesso!

Fora da loja algumas mulheres ainda se recompunham e tentavam guardar suas compras no carro. Umas ajudavam as outras sem se importar a qual bloco elas pertenciam e trocavam algumas peças de roupa entre si. Uma monopolizadora e outra excluída ainda trocavam sorrisos e exclamavam uma para a outra satisfeita com as suas compras:

- A liquidação foi um Máximo, mal posso esperar pela do ano que vem, ela promete ser a maior de todas!