quinta-feira, 28 de abril de 2011

BOM DIA AMIGO

BOM DIA AMIGO


*Por Marco Mendes


Num dia desses em que nos sentimos vazios de amor e abandonados, decidi caminhar num parque próximo de casa. Tirei o terno e a gravata, vesti um velho tênis, bermuda e camiseta, coloquei um boné e sai de casa em busca de alguma coisa, um motivo qualquer. Era de manhã, o dia estava claro, repleto de nuvens brancas de outono pastando como carneiros no céu.


Com a alma em frangalhos ingressei no parque pelos portões laterais que dão para um belo lago. Iniciei a caminhada no sentido anti-horário, contrário ao fluxo de pessoas que por ali caminhavam. Eu estava mesmo do avesso, do contra, sem chão e sem céu. As primeiras pessoas que cruzaram meu caminho, duas mulheres idosas, lançaram um breve cumprimento matinal:


- Bom dia!


Eu respondi ao cumprimento por educação, mas minha vontade era de continuar mudo e cego, focado em meus problemas inexprimíveis. Sem interromper a marcha prossegui reflexivo, quando logo mais adiante um senhor também lançou seu cumprimento:


- Bom dia!


Respondi por impulso e continuei em frente com passos rápidos. Durante os quase cinco mil metros percorridos pela pista, cercada de uma mata exuberante, repleta de espécimes de animais nativos, tucanos, araras e capivaras, todas as pessoas que passaram por mim me desejaram “bom dia”, mas mesmo assim sentia o dia péssimo.


No final da caminhada, acho que melhor oxigenado pelo sangue que circulava fluentemente pelo meu corpo, uma voz interior interrogou-me:


- Sente-se só meu amado? Cumprimentei-o tantas vezes? Vi palavras saindo de sua boca, mas de sua alma nenhuma expressão.


Senti um calafrio nesse momento. Haveria algo ou alguém que era comum a tudo aquilo que me rodeava, um ser único e indivisível que estivesse em todas as pessoas ao mesmo tempo, unipresente, capaz de travar uma conversa comigo? Deus falou comigo? Não sei dizer se era o Deus da Vida ou meu lado divino, mas alguma coisa me tocou profundamente naquele dia.


Caminho nesse parque todos os dias, algumas pessoas me cumprimentam, mas nunca havia acontecido de todas as pessoas que encontrei terem me cumprimentado com um “bom dia”. Um sentimento de paz e acalento preencheu meu vazio. Afinal percebi que não estava só, apenas me sentia só. Renovado, como quem acabou de tomar um banho morno depois de um trabalho fatigante, gritei bem alto sobre as águas do lago do parque:


- Bom dia a tudo que me rodeia, a todos os que me cumprimentaram!


Voltei outras tantas vezes ao parque, mas nunca mais aconteceu aquilo, de todas as pessoas que cruzei me cumprimentarem. Mas não importa, eu sei que nunca estou sozinho. Daquele dia em diante, por onde passo, uso meu coração e minha boca para agradecer a vida, desejando a cada pessoa que encontro, um bom dia.

O MENINO QUE DESAFIOU A MORTE


O MENINO QUE DESAFIOU A MORTE
*por MMendes


- Vamos, vamos. Hora de ir para a cama.
- Ah mãe! Me deixa jogar um pouco mais de videogame. Eu tô no meio de uma batalha.
- Não senhor. É hora de ir para cama. Amanhã tem aula cedo. Desligue já esse videogame.
  Com cara de contrariado o menino desliga o videogame e corre para o quarto, enquanto sua mãe corre atrás, numa de brincadeira de mãe e filho. Às gargalhadas o menino se joga sobre a cama e a mãe lhe envolve em beijos e abraços. A mãe arruma a coberta sobre o filho, lhe dá um beijo de boa noite e apaga a luz. Antes de fechar a porta o menino lança uma pergunta, retendo a mãe mais um pouquinho:
- Mãe, por que você me pôs o nome de Guilherme?
A mãe dá meia volta e retira um velho livro de capa dura esverdeada do velho baú. Senta-se a beira da cama, acende o abajur do criado-mudo e inicia uma leitura ao filho de olhos brilhantes.
- Há muito tempo atrás, a Morte mandou um recado de invasão à aldeia de uns camponeses. Na aldeia só estavam os velhos e as crianças, os mais jovens estavam no campo trabalhando. Os aldeões ficaram apavorados. Como poderiam resistir à Morte e seu exército?
Apressaram trancar janelas e portas, na tentativa desesperada de que a Morte fosse embora. Os anciões reuniram-se amedrontados para discutir a situação, enquanto um menino escutava a conversa dos velhos:
- O que faremos se a morte chegar e quiser levar a todos? O que será de nós? Como poderemos resistir se somos apenas velhos cansados e crianças indefesas?
Vendo a aflição dos adultos, o menino correu para casa e pegou uma pesada espada que ficava guardada no quarto de seu pai. A espada era um bem de família, que pertenceu aos pais de seus pais. O menino quase não agüentou o peso da arma, mas corajosamente foi para o meio da aldeia esperar a Morte chegar.
Pela fresta da porta do casebre, seus avôs bradavam para que o menino voltasse a se esconder como os outros. Mas ele estava decidido enfrentar a poderosa adversária. Logo ouviu o bater dos cascos dos cavalos e o viu um poeirão vermelho que se levantava ao longe. A morte chegou montada num imponente cavalo negro, seguida de seus guerreiros.
Ainda sobre a cavalgadura, a morte riu-se ao ver o menino no meio da aldeia deserta.
- Vejam meus guerreiros. Teremos enfim uma grande batalha. Os covardes aldeões mandaram seu melhor guerreiro para nos enfrentar! Ironizava a morte.
O menino era inexperiente, mas inspirado pelas brincadeiras de lutas com os amigos, levantou a pesada espada e posicionou-se para a luta. Sem piedade a morte ordenou que seu guerreiro de nome Rondo, matasse o menino. O sanguinário desceu do cavalo armado de um sabre afiado. Lançou um golpe que decepou o braço direito da criança, que caiu ao chão. O guerreiro se aproximou e olhou dentro dos olhos do pequeno:
- Vou te esmagar seu verme. Atirou-se sobre a criança que naquele instante levantou sua espada com a mão esquerda, transpassando o coração do inimigo. Rondo grunhiu e caiu morto.
Mesmo sem um braço, o menino levantou-se segurando a espada e preparou-se novamente para o combate. Admirada, a Morte deu ordem para que seu melhor guerreiro atacasse a criança. Avançou Escanis, um brutamontes de um olho só, munido de um porrete de madeira. Num só golpe arrancou a perna direita do menino, que novamente caiu quase morto. O gigante guerreiro ergueu seu porrete para o golpe final, quando seus avôs acorreram se posicionando entre ele e o neto. Com um só movimento Escanis arremessou os velhos para longe. Isso deu tempo para que o menino retirasse um estilingue do bolso. Segurando a tacadeira com a boca, lançou uma pedra certeira no meio do olho do adversário. Completamente cego, Escanis cambaleou para trás caindo no precipício de um despenhadeiro.
A Morte ficou admirada da valentia do menino. Então, resolveu dar uma trégua aos moradores daquele lugar. Deu meia volta e bateu em retirada. Avisados da contenda, os pais do menino chegaram ao local, tomando o filho mutilado nos braços, praticamente morto. Lamentavam e abraçavam o corpo lavado por lágrimas.
Por milagre o menino abriu os olhos e reconheceu seus pais. A mãe, vendo o filho mutilado, arrancou seu próprio braço e o deu ao filho:
- Filho, você salvou a aldeia. Tome meu braço, que lhe será muito mais útil do que a mim.
Os pais vendo o filho mutilado arrancou sua própria perna e a deu ao filho:
- Filho, você é um herói de todo o povoado. Tome minha perna que lhe será muito mais útil do que a mim.
Recomposto o menino se ergueu. Todos o carregaram cantando louvores de felicidade. Erigiram uma grande estátua em sua homenagem e o batizaram de Guilherme, que significa protetor.
O menino ouviu atentamente a história sob o aconchego dos cobertores. A mãe arrematou fechando o livro:
- Esse velho livro está em nossa família há gerações, contando essa linda história de nossos antepassados. Essa é a razão de ter te chamado Guilherme.
- Filho, hoje trava suas batalhas no videogame. Quando chegar a hora dos reais desafios, não esqueça que conserva em seu sangue a coragem e valentia do menino que enfrentou a morte. Devemos combater tudo o que nos leva à morte.
- A vida vale a pena pela simples caminhada. Nunca se desespere em meio às sombrias aflições de sua vida, pois a água límpida e fecunda cai de negras nuvens. Não te preocupes com o combate, nem com a dor da luta, porque a verdadeira tragédia é quando os homens têm medo da luz. Lute sempre em favor da vida, munido da poderosa espada que é a simples vontade de viver.
Beijou a face do filho, que fechou os olhos e viajou corajosamente para a terra dos sonhos, seguro de que nada há para temer quando se quer viver.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A MAGIA ESTÁ NO AR

A MAGIA ESTÁ NO AR






(*Por Guilherme Mendes)

Uma explosão emocionante de aplausos. A magia está no ar. Os artistas emprestam seus corpos para compor a mais bela emoção. Inesquescível: lágrimas, gritos, dança, amores; tudo de uma vez em um sentimento único, indefinível.... Mas logo a peça termina. As cortinas se fecham. A música se propaga e se perde no ar. Os aplausos cessam. A platéia se retira aos poucos. As luzes se apagam. Resta apenas eu em pé no escuro, sozinho. Os artistas e a platéia retomam as suas vidas, a magia fica na memória. E eu? Fico aguardando como se a qualquer momento as cortinas fossem se abrir, os artistas fossem voltar e a platéia sentar em seus lugares junto de toda a euforia e agitação. Mas não voltam. Cada peça é unica por si só. Os atos se iniciam, se desenvolvem e tem seu desfecho. O erro? confundir a vida com o teatro, fazer do palco o seu caminho e dos artistas a sua história. Se sentir saudades realmente for um erro, prefiro viver errando por amar a esse teatro, do que simplesmente virar as costas e retomar a vida. Pois a vida também é uma peça unica, com inicio, desenvolvimento e desfecho. E quando a minha peça acabar, não quero que a platéia simplesmente vire as costas e retome a vida, mas quero que o meu teatro seja incorporado no teatro de cada um que o presenciou. A magia não volta. Mas fica na lembrança, e das lembranças vive um homem.