segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O dono das almas

O DONO DAS ALMAS

* Por MMendes


Ninguém poderia sequer imaginar que aquele homenzinho era tão perigoso. Agitado, raciocínio confuso e fala complicada. Sua conversa não tinha meio, apenas início e fim. Transpirava Maquiavel, “os fins justificam os meios”. Talvez por isso aquela fundamentação desarrazoada, sem nexo. O fim de seus atos era claro e evidente, perseguir qualquer um que o contrariasse.

Sua auto-estima estava muito além de sua real estatura. Assumir o cargo foi como regar a semente do mal plantada em seu coração. Desde então o mal só cresceu. Não poupava grávidas nem enfermos. Temido desde faxineiros até juízes, seu poder atravessava os limites do inferno.

Quando a porta de sua sala se abria, sentia-se um cheiro de enxofre e via-se uma névoa densa deslizar pela fresta. Ele estava ali. A prova disso era o corre-corre de seus servos, que iam e vinham desesperados a preparar-lhe caprichos absurdos. Era o dono daquelas almas, das quais dispunha a bel prazer. Depois de possuir as almas, as guardava nas garrafas da estante de sua sala. As bebia literalmente para saciar a sede. Tinha uma coleção de garrafas, cada uma contendo uma alma dominada, engarrafada para ser consumida aos poucos, até o fim. Quando a bebida acabava, descartava a garrava e era morte na certa.

O que ele não sabia e que sua secretaria Maria, o havia enganado. Antes de entregar-se, Maria tomou um copo de um poderoso veneno. Às portas da morte vomitou sua alma na garrafa, fechou com a rolha e depositou nas mãos do seu senhor. Tão obsecado por almas, não pôde perceber que havia recebido uma alma agonizante.

O dono das almas estava frustrado porque não conseguia possuir e beber uma alma em especial, a alma de Munir. Cercou, tramou, espezinhou, puniu, tentou seduzi-lo. Munir sofreu, mas nunca se entregou. O esforço para tomar aquela alma consumiu sua energia. Recompunha-se bebendo àquelas engarrafadas disponíveis.

Munir não podia esconder-se, sabia que o dono das almas estava determinado a conseguir a sua. Certo dia, os servos zumbis do dono das almas conduziram Munir à sala do senhor, numa tentativa de violentá-lo e arrancar sua alma à força. Estando a sós por uns minutos, Munir sentou-se em frente à mesa de onde podia contemplar a coleção de garrafas. Notou que estranhamente uma delas era mais escura que as outras. Era a garrafa da alma de Maria.

Sobre a rolha depositava-se um resíduo esbranquiçado. Encostou o dedo naquela substância e levou à ponta da língua. Seu corpo estremeceu, sentiu tamanha dor como se a morte tentasse rasgar suas entranhas. O coração puro de Munir sentiu a alma de Maria clamando por justiça.

Quando o senhor das almas entrou com seu cínico sorriso, estava acompanhado de seus asseclas e carrascos. Sabia que se não entregasse sua alma, seria duramente torturado. Disse Munir que entregaria a alma, mas como último pedido, queria experimentar o gosto de uma alma engarrafada. Propôs um brinde e escolheu a garrafa de Maria. O acordo foi aceito e o dono das almas serviu dois cálices. Os cálices de cristal tocaram-se produzindo um som límpido e agudo. Em seguida foram levados concomitantemente à boca, mas Munir segurou seu cálice alguns milímetros dos lábios, pois já sabia que um só gole seria seu fim. O senhor das almas o contrário, tornou a bebida num só trago.

A alma agonizante de Maria envenenou o senhor das almas, que sufocado caminhou cambaleante derrubando as coisas de sobre a mesa, caindo contorcendo-se e gritando como louco. Morreu com os olhos esbugalhados. Após seu último suspiro, fluíram as almas ingeridas de sua boca aberta, libertas uma a uma, menos a de Maria que morreu levando consigo a vida do facínora.

O sacrifício de Maria libertou e salvou os condenados, inclusive Munir que assistiu tudo aquilo em pé, sem mover-se. As almas libertas retornaram para os corpos dos servos zumbis que retomaram a vida usurpada. Depois de cremar o senhor das almas, enterraram o corpo de Maria num caixão de vidro, no interior de um mausoléu. Seu corpo nunca se decompôs, reverenciado pelo povo daquele lugar como corpo santo incorruptível. Todo ano, na data do aniversário de sua morte, romeiros do mundo inteiro vinham visitá-la depositando flores sobre seu caixão. Curiosamente nem as flores eram capazes de se decompor. Ao contrário, criavam raízes e com o tempo aquele local transformou-se num imenso jardim. Mas, no solo onde jogaram as cinzas do dono das almas, nada mais cresceu por mil anos.

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