quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A Aliança Secreta

A Aliança Secreta

By Marco Mendes

Dizem que, com o passar dos anos, a vista cansa. Talvez seja verdade apenas para quem nunca aprendeu a olhar. O tempo não embaça os olhos; ele os desloca. Aos poucos, deixamos de fixar o chão imediato e começamos a perceber o entorno, o ritmo das estações, o que cresce sem pedir licença.

Criar um filho é receber um broto nas mãos. Os pais se inclinam sobre ele com cuidado e temor. Observam cada folha nova, cada inclinação inesperada, tentando adivinhar que árvore surgirá dali. Perguntam-se se haverá sombra, se os frutos serão bons, se o vento será forte demais. É um zelo urgente, atento, quase aflito — e necessário.

Os avós olham o mesmo broto de outro modo. Não porque amem menos, mas porque já viram muitas primaveras falharem e outras tantas surpreenderem. Sabem que nenhuma árvore cresce por força de vontade e que não se comanda o tempo. Aprenderam que o essencial não está em vigiar cada galho, mas em cuidar das raízes. Se elas forem profundas, o resto encontra seu caminho.

É aí que nasce a Aliança Secreta. Ela não é feita de conselhos nem de regras, mas de presença. Quando o neto olha para o avô, não vê quem controla horários ou impõe limites. Vê alguém que já abandonou a pressa. Alguém que se senta à sombra e observa. Os avós, por sua vez, assistem aos netos descobrirem o mundo como quem revê um filme amado: não querem interferir na cena, apenas acompanhar o brilho nos olhos de quem vê pela primeira vez.

Nesse pacto silencioso, as normas se afrouxam. O chocolate antes do jantar vira celebração, não transgressão. Os avós sabem que a vida é curta demais para economizar nos “sins”. Enquanto os pais se ocupam do agora — do tronco que precisa se firmar —, os avós cuidam do depois, nutrindo aquilo que sustenta sem aparecer.

Por muito tempo, todos nós acreditamos ser raiz, broto e árvore. Pensamos crescer por nós mesmos, como se fôssemos o próprio tronco que se ergue. Não percebemos que crescemos com a árvore, apoiados nela, elevados lentamente por sua força silenciosa. Vivíamos ali, protegidos, como quem ainda não distingue onde termina o abrigo e onde começa o próprio corpo.

Só ao final, quando o olhar alcança mais longe e o tempo abranda, compreendemos. Nunca fomos apenas árvores. Desde o início, éramos ovos num ninho pousado sobre o broto. Crescemos enquanto ele crescia, sem saber. E agora, lá no alto, descobrimos o que sempre fomos: passarinhos. O vento está mais perto, o céu se abre. Lá embaixo, os pais seguem cuidando de um pequeno broto, acreditando formar uma árvore. Os avós sorriem. Guardam o segredo. Sabem que é preciso cuidar das raízes e da árvore — apenas para que, um dia, possamos lembrar: vivemos sobre elas, mas fomos feitos para voar.


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