terça-feira, 3 de julho de 2012

O professor que falava saturnês


O PROFESSOR QUE FALAVA SATURNÊS
Marco A Miranda Mendes




 Sente-se professor! Fique a vontade. Escrivão! Traga um cafezinho para nosso convidado. Aceita um cigarro?
 Pois é professor, temos aqui um pequeno problema. Vozes anônimas nos informaram que você foi visto em reunião com alguns camaradas bolchevistas. E isso é um problema sério na atual conjuntura. Dizia o Delegado do Doi-Codi de Alagoas, colocando os pés sobre a mesa, enquanto acendia um cigarro no escuro porão da delegacia. A luminária esticada por um fio balançava num movimento pendular, a única iluminação do lugar.
Sentado numa cadeira de madeira, no meio da sala, com uma mala de roupas no colo, o professor permanecia calado. Temia que tudo o que dissesse pudesse comprometê-lo, sabia que seu silêncio poderia condená-lo. “Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”... passava o pensamento como letreiro luminoso.
 Você é uma pessoa de sorte professor! Influente... conhece pessoas importantes que vieram interceder em teu favor. Ganhou a sorte grande professor! Mas, decididamente não pode permanecer mais nessa cidade. Pensei... pensei... pensei numa saída. Encontrei uma proposta irrecusável. Dizia o delegado soltando baforadas de seu cigarro.
 Nosso Estado precisa de educadores que contribuam para melhorar as condições de vida da população. O professor bem sabe que Alagoas ocupa o penúltimo lugar na educação, ganhando apenas do Piauí. Também apresenta o pior resultado da saúde. A esquistossomose ataca setenta por cento da nossa população, sem falar no crescente êxodo rural por falta de condições de sobrevivência no campo, além das péssimas condições das estradas comprometendo o escoamento da produção, sobretudo nos períodos chuvosos.
 A educação sempre foi o firme propósito de nosso Governador Lima Filho. Precisamos levar a educação aos confins de nosso Estado, educar nosso povo. Ai eu pensei que o professor poderia ser conduzido até o sertão alagoano, para ministrar aulas no Mobral. Imagine a notícia: Alagoas vence o analfabetismo! Com certeza isso traria investimento e melhora no crédito  junto ao estrangeiro. Dindim no caixa!
 Vamos enviá-lo a uma agradável cidadezinha no fim do sertão alagoano. Um lugarejo denominado “Cavalo Morto”, perto do município de Mata Grande. O que você acha da proposta professor? Perguntou sarcasticamente o delegado, enquanto o escrivão mostrando os dentes, rodava a manivela do “pau-de-arara”.
No dia seguinte, sem escolha, lá estava o professor na boleia de um caminhão FNM azul, que fazia frete para aqueles confins da terra. A viagem durou quase três dias de pernoite na carroceria do caminhão. Quando chegaram a Canapi, barba por fazer, roupa amarrotada, suja, o professor cheirava a bode.
Chegou no dia 19 de março, em meio a comemoração de São José, padroeiro da cidade. O secretário do Prefeito lhe deu acomodações e lugar para o banho. Enquanto o professor descia do caminhão, dois indivíduos, chapéu, terno branco, o vigiavam à distância.
 Achegue-se professor. Estávamos a sua espera. O governador passou um rádio para o prefeito avisando de sua chegada.
A noitezinha, em meio ao foguetório foi convidado a subir ao palanque montado em frente a Igreja matriz. O prefeito aproveitava o aglomerado e o foguetório para fazer um discurso. No meio do discurso o prefeito arenista anunciou a presença do professor:
 Meu povo! O Mobral chegou a nossa cidade. É com muita honra que anuncio a chegada do professor que tanto esperávamos. A educação é a base da prosperidade. Finalmente abriremos as portas de nossa escola para que todos possam aprender ler e escrever.
Os minguados atrativos financeiros para o magistério, a pobreza local e o trabalho de subsistência, não despertavam o interesse na população pela educação. A grande maioria da população era analfabeta. O professor não estava ali pelo dinheiro. Se não fosse a imposição do governo militar, com certeza estaria longe daquele fim-de-mundo.
Depois do discurso, fora do palanque, o prefeito teve uma conversa particular com o mestre:
 Professor! Se ensinar esse povo desenhar o nome considere cumprida sua missão. É um povo acostumado ao trabalho duro do campo, mãos grossas, não levam jeito para o lápis. O negócio deles é o cabo da enxada. Assinando o nome daremos o diploma de alfabetização e se tornarão eleitores. Meus eleitores!
Mas o professor era um homem dedicado, admirador do método de Paulo Freire, tão combatido pelos militares, acusado de tendências comunistas. Estava mesmo disposto a educar aquelas pessoas, levar-lhes o conhecimento, fazer perceberem a exploração em que estavam metidos e, um dia, quiçá, dela se livrassem. Diante do degradante comentário do prefeito o professor preferiu dar um sorriso amarelo e responder com o silêncio, sinal de reprovação.
 Senhor prefeito! Vou me retirar, pois preciso descansar. Amanhã começo a trabalhar. Preciso preparar a escola para receber meus alunos. Tenha uma boa noite.
 Boa noite professor. E cuide bem do meu gado!
Chegado o novo dia, depois de arrumar a escola o professor sentou-se junto à sua mesa  esperando dos adultos para as aulas do Mobral. Caiu a noite, esperou, esperou, esperou e ninguém apareceu.
No dia seguinte voltou a esperar os alunos, mas nada de nada. O desinteresse dos adultos levou o professor a abrir aulas às crianças. Logo no outro dia lá estavam eles, dois únicos aluninhos sentadinhos nas carteiras, olhos brilhantes, pés descalços, roupinha surrada. Criança é bicho curioso, necessita aprender, especular o mundo. O sorriso do professor denunciava seu contentamento. Tinha jeito com criança e logo cativou os meninos. Contou-lhes coisas sobre as estrelas, planetas, o sistema planetário. Terminada a aula as crianças foram embora, admiradas com tantas estórias sobre o universo.
Na manhã que se seguiu, indo para o ministério, viu um aglomerado de crianças em frente à escola. Ao verem-no chegando correram em sua direção, o cercaram pulando e gritando:
 Viva o professor! O melhor contador de estórias do universo. Viva o professor! E que professor não ficaria envaidecido com tanta festa? Fazendo algazarra, correram para a escola. Sentados, balançando os pezinhos no ar pediram:
 Professor conte mais estórias sobre o universo? Conte, vai? A gente quer saber mais.
Aproveitando o interesse das crianças, o professor pediu que se sentassem no chão, em torno de si, formando um círculo.
 Hoje vamos mais longe. Hoje é dia de contos e estórias inventadas sobre o misterioso universo.
Lá no espaço há muitos planetas girando em torno do sol. Tem um planeta com anéis que se chama Saturno.
 E como chamam-se os seres de Saturno professor?
 Chamam-se saturnianos. Falam uma língua estranha, o saturnês.
 E o senhor sabe falar saturnês? Perguntaram os pequeninos.
 Evidentemente! Eu sou mestre em saturnês. Sei ler e escrever!
 Ouvi dizer que um dia os saturnianios invadirão a terra e quem não souber ler e escrever saturnês será devorado.
 Nossa professor! Então ensine a gente a ler e escrever saturnês. Não queremos ser comida de saturnianos não.
Depois de muitas estórias, lá pelo meio dia, a aula chegou ao fim. As crianças saíram animadas para aprender saturnês, impressionadíssimas com as estórias. O professor juntou seus livros. Enquanto fechava a escola, olhava as crianças voltando para casa numa prosa sem fim.
Caiu a noite e o professor se recolheu. De madrugada acordou com um alvoroço em frente ao seu quarto. Ao abrir a janela deparou-se com uma multidão de pessoas, homens e mulheres. Ao elevar o lampião em sua mão, notou que eram os pais das crianças que freqüentavam a escola.
 Professor, você precisa nos salvar. Não queremos ser devorados pelos saturnianos. Queremos aprender a ler e escrever saturnês. Nos ensine pelo amor de Deus.
Os pequeninos comentaram com seus pais sobre as aulas e as estórias do professor. Aquele povo ignorante não soube distinguir a fantasia da realidade e ficaram aterrorizados com a possibilidade dos saturnianos invadirem a terra. O professor até pensou em explicar-lhes que tudo aquilo era um terrível engano, mas a população não lhe deu oportunidade. Carregando tochas na mão os homens praticamente intimaram o professor a ensinar-lhes saturnês. Sem condições de se explicar, acabou por aceitando ensinar-lhes saturnês.
No dia seguinte, a sala do Mobral estava completamente lotada. Os adultos estavam ansiosos pelo ensinamento. Foi então que o professor teve uma idéia genial: ensinar-lhes português dizendo que era saturnês. Afinal, aquele povo não saberia distinguir uma coisa de outra. A partir daí os alunos do Mobral nunca mais faltaram a nenhuma aula e foram sendo alfabetizados dia após dia.
Enquanto isso, na capital corria rumores de que os comunistas invadiriam o Brasil. Que havia uma base russa instalada clandestinamente numa fazenda próximo a Mata Grande, prontos para iniciar uma guerra química. Esse boato deve ter saído da boca dos olheiros do governo militar que estavam em Canapi, observando o professor. Penso que acharam estranho, que de repente, os adultos ficaram tão interessados nas aulas do professor, uma espécie “revolução bolchevista” a eclodir no sertão alagoano. Daí o boato, que levou o governador a deslocar uma equipe de militares para investigar os fatos.
Foi assim que, na mesma semana, algo inusitado aconteceu no distante sertão de alagoas:
 Que barulho é esse que vem do céu, professor?
Correram para a janela e viram um helicópetero com o farol aceso circulando a escola.
 Socorro professor! Socorro professor! Gritavam desesperados os alunos, pensando que eram os saturnianos chegando para devorá-los.
Quando os alunos tomaram coragem e saíram da sala, se depararam com o professor conversando com um grupo de militares vestidos com roupas próprias para uma guerra química. Bota, macacão camuflado e máscara contra gás. Verdadeiramente pareciam mesmo seres extraterrestres. Um dos alunos carregava uma pequena lousa na qual escreveram com dificuldade, “sejam bem vindos ao nosso município“, ostentada de longe.
Depois da conversa com o professor, os militares convencidos do equívoco, decolaram a aeronave e foram embora. Os alunos gritavam aliviados, festejando o professor que lhes ensinou saturnês, salvando-os da desgraça.
A notícia do disco voador de Canapi correu mundo atraindo jornalistas e ufólogos do mundo todo, que vieram entrevistar os moradores:
 A terra há de me comê se eu tive mentindo, mas juro que vi o tá de disco voadô. Girava, girava sem pará. Desceu bem aqui em frente à escola, cumas luiz piscando. De dentro sairo saturnianos, que só num devoraro a gente porque o professô nos livrô.
 Os saturnianos, como era? Tinham zóios enorme, fucim de porco e andava como nóis.
O professor achou aquilo tão engraçado que não quis desmentí-los. Afinal era assim que o povo tinha interpretado os fatos. E quem disse que o governo militar não foi mesmo um governo alienígena, vindo para devorar o povo? Afinal, quantos foram os engolidos pelos porões da ditadura ou arremessados dos helicópteros em alto mar?
Acabou se afeiçoando aquele povo simples e carente, nunca mais quis retornar para a capital. Dali em diante todos os adultos da redondeza se matricularam na escola e também levaram seus filhos. O professor alfabetizou muita gente e mudou a cara daquele povoado.
            

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O quadro do capeta


O QUADRO DO CAPETA
(*) Por Marco A. M. Mendes


Sozinho naquela cidadezinha do interior, Zé Braulino resolveu comprar uma tela e preencher o tempo com uma pintura. Não tinha dons artísticos não, mas sentia-se muito solitário, queria um pouco de companhia. Então, resolveu pintar uma família, ainda que fossem apenas figuras por ele próprio idealizadas, pintadas numa tela. Juntou os trocados, foi até a papelaria mais próxima, retirou o dinheiro embolado do bolso e comprou a tela, bisnagas de tinta e uns pinceis. Empregou ali todas suas economias.
Chegando em casa improvisou um cavalete, alçou a tela sobre ele e espremeu as tintas num prato velho. Sacou um dos pinceis como se fosse um espadachim e mãos a obra. Iniciou a pintura conforme lhe aprouvesse, começando a pintura por um belo menino. Um tanto pálido é verdade, sem o domínio das cores, exagerou no amarelo. Chamou-o de filho.
Vendo que a pintura ficou um tanto pálida, tentou corrigir com novas pinceladas. Sem  destreza do pincel derramou um pouco de tinta preta sobre a tela, respingando sobre o menino. Ficaram parecendo tatuagens. Zé Braulino ficou louco da vida, pois detestava tatuagens. A pintura não havia saído como queria. Contudo, estava determinado a pintar uma família e continuou sua obra. Para tentar corrigir o erro, na tentativa de disfarçar a primeira figura, idealizou pintar outra figura ao lado. Talvez as pessoas não prestassem atenção à primeira figura. Lançando o pincel sobre a tela fez a figura de uma menina, que chamou-a de filha. Essa nova figura não saiu de acordo com seus planos, ficou um tanto desfigurada. A menina não agradou o pintor, por isso levou uma surra de pincel.
Zé Braulino logo partiu para pintar uma terceira figura, a qual chamou de mulher. Afinal, já tinha dois filhos e eles não poderiam ficar sem uma mãe. Como havia de se esperar de um pintor improvisado, não afeto à arte da pintura, carregou demais no vermelho. Fez o rosto da mulher parecer uma pimenta. Como um espadachim enfurecido sacou outro pincel do bolso e lançou as cerdas contra a tela. Travou um medonho duelo com a mulher. Desse duelo respingou tinta por toda a sala, sujando sua roupa e até os móveis que estavam por perto. Até o cachorro que dormia sossegado ali perto saiu colorido. Procurava amoldá-la, reformá-la, para que ficasse tal qual era seu desejo. Mas, sua falta de habilidade com o pincel delineava uma figura surreal. Os respingos muticoloridos e traços indesejados mancharam e riscaram toda a tela. Curiosamente os respingos improvisados modelaram uma figura pequena e sorridente no canto esquerdo, que ao final Zé Braulino chamou de filhote. Batizou o quadro com o nome de “Família” e o pendurou nos fundos da casa, pois se envergonhava de tudo o que havia feito e queria esconder o quadro.
Deprimido com sua obra, embriagou-se. Num momento de fúria, na tentativa de destruir sua criação, ameaçou a tela com fogo, que ficou toda chamuscada. Passada a bebedeira resolveu vendê-la. Foi até a feira da praça central e ali a ofereceu por qualquer preço.
Nesse mesmo dia, passava pela praça um senhor pomposo, fraque e cartola. Zé Braulino não sabia, mas era o demônio disfarçado. Olhando aquela tela e o estado deplorável de Zé Braulino, ofereceu-lhe uma vaca em troca do quadro. Zé Braulino aceitou na hora, pois seria uma maneira de resgatar um pouco do dinheiro investido no material utilizado. Antes tivesse trocado o quadro por feijões mágicos, mas não foi assim.
A vaca era velha, não dava leite, logo adoeceu e morreu. Zé Braulino caiu em desgraça. Mulambento, percorria as ruas da cidade pedindo esmolas. Certo dia, revirando o cesto de lixo, encontrou um jornal que lhe chamou a atenção. Ficou surpreso quando viu a notícia de que seu quadro foi reconhecido arte contemporâneo de ponta. Tal qual Monalisa, as pessoas do quadro tinham um sorriso sinistro, um misto de choro e sofrimento, ora parecendo rir da sorte do pintor, ora parecendo chorar a desgraça do abandono. O ardiloso diabo sabia o valor do quadro desde o momento em que lançou os olhos. Pagou uma bagatela pela “Família” e agora tinha uma fortuna em suas mãos, enquanto Zé Braulino morria à mingua.
Desesperado Zé Braulino ajuizou uma ação contra o demônio na tentativa de desfazer a venda. O Juiz da causa era rigoroso e não gostou nenhum pouco do fato de Zé Braulino ter maltratado e abandonado a “Família”. Zé Braulino percebeu a enrascada em que se meteu e aceitou um acordo. Obrigou-se a comparecer todos os dias no museu do capeta para espanar o pó da “Família”, em troca de um lugar para dormir e um prato de comida.
O velhaco demônio, além de ficar com a “Família”, ainda se apoderou da alma de Zé Braulino, aprisionando-o num contrato que vigoraria por toda a eternidade. Esse é o destino de quem maltrata e abandona sua família e, ainda por cima, deixa-se levar pelo ardil do capeta.



segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Mais só que só

MAIS SÓ QUE SÓ

Quando me abandonei,
Fui assim sem dizer adeus.
Nenhum recado deixei.
Para onde? Nem eu sei.

Quando me abandonei,
Fui para não mais voltar.
Não suportava a relação,
não podia mais esperar.

Quando me abandonei,
Eu me sentia muito só.
Fui e não deixei notícias,
ficando mais só que só.

Não cheguei a lugar algum,
vagando por sobre as horas,
no movimento dos ponteiros,
quando vejo estou de volta.

domingo, 24 de julho de 2011

Pai e Filha

PAI E FILHA
*MMendes

Estou contigo, no recôndito da tua tristeza.
Estou aqui, na espera paciente que embeleza
a alegria que partilharemos juntos, depois.
Estou contigo, no sublime perfume de tua pele.
Estou presente, como brisa que acaricia teu rosto,
secando as lágrimas, tantas já derramadas.
Estou aqui, bem aqui, ao alcance de um pensamento.
Em meus braços poderás descansar confiante.
Se não puderes andar, irei ao teu encontro.
Se nada disser, eu o saberei nas batidas do teu coração,
no som de passos pesarosos ou no silêncio eloqüente.
Estou contigo, unido só como pai e filha podem estar,
sofrendo, chorando, lutando e vencendo contigo.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

TATUAGEM NA ALMA


TATUAGEM NA ALMA

Em minh'alma está tatuado teu nome,
para eu nunca possa aparte-me de ti.
Fotografei tua face em minha memória,
nunca esquecerei de seu doce sorriso.

Conto os anos da vida em segundos,
para saborear cada momento vivido.
Aprendi a somar, multiplicar e dividir.
Subtrair? Só as diferenças entre nós.

Nunca irei sem deixar-te meu coração,
nem ficarei sem pedir-te que me leves.
Quando formos partir que seja juntos,
um mesmo caminho, o mesmo destino.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

DIA DOS NAMORADOS


DIA DOS NAMORADOS

* Por MMendes

Naquele escurinho premeditado, um casalzinho namorava no interior do veículo. Tentativa de um beijo aqui, de um abraço ali:

- Cuidado com meu cabelo Jorge Antônio. Você está me desarrumando toda!

- Jorge Antônio, amanhã comemora-remos um ano de namoro. Qual vai ser meu presente?

- Já sei. Eu quero uma pulseira de brilhantes de pedras selenitas...não, não, acho melhor um par de brincos de brilhantes marcianos ou seria melhor um belo vestido modelável supercondutor de energia da e-tecidos, para carregar meus “gadgets”? Ah! Jorge Antônio, o que é que eu vou ganhar?

- Amanhã vou acordar cedinho e vou às compras. Já me vejo glamurosa pelas calçadas deslizantes do shopping. Depois vou para o SPA...uma sessão de massagens relaxantes, manicura a laser, determatologia rejuvenescedora, nanolipoaspiração instantânea e, por fim, cabeleireiro com tintura de fios fotográficos. De noite vamos a um bom restante comemorar nosso primeiro ano de namoro. Minhas amigas vão remoer de inveja.

- Ah! Jorge Antônio, não me mate de curiosidade. Qual vai ser o meu presente?

Enquanto Manoela falava sem parar, Jorge Antônio cruzava os braços olhando para o vazio.

- Jorge Antônio! Você nem prestou atenção ao que eu disse. Deu um beijinho no namorado, abriu a porta, saiu do automóvel de flutuação antigravitacional e subiu a escada rolante de sua casa.

No dia seguinte, logo pela manhã o videofone toca. Manoela atende e fica atônita com a notícia:

- O Jorge Antônio envolveu-se em um acidente? O corpo está no crematório? Pegar os restos viventes? Já estou indo.

Manoela é avisada de um gravíssimo acidente envolvendo seu namorado. Ele teve o corpo mutilado de forma irrecuperável, ou quase. Depois de extraído o código do DNA, seu corpo foi cremado. Diferentemente da cremação de nossa época, em que os parentes recebem uma urna com as cinzas do morto, a moça assistiu a cremação e saiu de lá com o repositório cerebral de seu namorado. O cérebro de Jorge Antônio boiava dentro do repositório, olhos atentos. Pareciam olhos de siri observando mudo a tudo o que se passava.

No tempo de Jorge Antônio a medicina avançou ao ponto de que, mesmo sem um corpo seja possível uma perfeita preservação da mente, até que se produza um novo corpo. Técnicas inovadoras de reprodução clonada de crescimento acelerado permitem que em poucos meses seja produzido um novo corpo, idêntico ao anterior o qual receberá a mente. Enquanto isso, a mente fica armazenada no cérebro acondicionado num repositório cerebral oxigenado, esperando o novo corpo para ser implantada. Para que a mente não caia em estado depressivo, os cientistas extraem os olhos e ouvidos do paciente juntamente com o cérebro, conectados por meio do nervo ótico e auditivo respectivamente. Não fosse essa técnica revolucionária, a mente ficaria vagando numa espécie de limbo, em completa escuridão e solidão, desprovida de todos os sentidos da percepção.

Em 2100 a técnica da preservação da mente será coisa muito comum, mas para os viventes de nossa época atual ver uma coisa dessas é muito bizarro. Poderíamos dizer que a mente imersa no repositório, assemelha-se a um “grande molusco” com antenas, um tipo de caracol sem concha, vivendo dentro de um aquário.

Naquela manhã fatídica, Manoela não pode ir às compras, nem ao SPA ou ao cabeleireiro e, ainda por cima, ganhou o cérebro de Jorge Antônio como presente de um ano de namoro. Mesmo assim, a moça prossegue no cumprimento dos itens planejados. Decide levar o namorado, ou o que sobrou dele, para um jantar romântico.

Depois de horas folheando os vestidos no guarda-roupa tecnológico, escolheu um vestido de grife, um sapato de salto da Louis Future, improvisou o cabelo na impressora pessoal de penteados, maquiou-se, empetecou-se com jóias, tomou o repositório cerebral de Jorge Antônio nos braços e saiu imponente a caminho do restaurante.

Chegando lá foi atendida pelo recepcionista cibernético. Manoela logo foi reconhecida pelo robô, que a identificou pelas ondas positrônicas emitidas pelo “chip” implantado em seu braço direito.

- Seja bem vinda senhoria Manoela. Disse o robô com seu sotaque enlatado. Enfim, o futuro resolverá o problema do atendimento ao cliente. Evoluiremos para descobrir que seremos mais bem atendidos por máquinas que por pessoas. O bom atendimento compensará, de certa forma, o desemprego. Programados para serem amáveis com os clientes, os robôs terão como característica marcante a presteza, a simpatia e a gentileza.

Manoela nem se deu ao trabalho de agradecer o amável serviçal robótico. Afinal, era humana. Ela o considerava um ser inferior, um mero objeto, uma simples máquina. Com certeza ele seria descartado, substituído daí alguns anos por outro mais avançado.

- Tá vendo o que você foi arrumar Jorge Antônio. É incapaz de puxar a cadeira para mim. Deixei de ir ao SPA, ao cabeleireiro e de me produzir por sua culpa. Meu cabelo está péssimo, nem tive tempo de me arrumar direito. Agora fica ai me olhando com esses olhinhos de piedade.

Nesse momento aparece uma das frívolas amigas de Manoela:

- Oi querida, como tem passado?

- Olá Jorge Antônio, fiquei sabendo do acidente. Mas, não se preocupe, em pouco tempo terá um corpinho novo em folha.

- Querida você não sabe da última... e blá, blá, blá, blá, blá, blá. Você viu o cabelo da Matilde, que horror. E mais blá, blá, blá, blá, blá, blá.

Jorge Antônio ficou ali, prisioneiro ouvindo aquele monte de futilidade. Chegou a pensar que seria melhor ter morrido no acidente ou pelo menos perdido as orelhas para não escutar tanta banalidade. Ele queria curtir a noite, falar de amor e fazer planos para o futuro. Procurava uma mulher sincera, amável e amiga, embora em primeiro lugar estivesse a qualidade de perfeita amante. Procurava expressar isso com os olhos e até abanava as orelhas. Todavia, Manoela estava perdida num mundo de luxuria e consumo, não poderia compreendê-lo.

-Tchau querida, nos vemos depois. “Bye bye” Jorge Antônio, até a próxima encarnação.

Enquanto a amiga de Manoela passava, os olhos de Jorge Antônio acompanharam aquele fabuloso rebolado, cadenciado por grossas pernas, sustentado num par de saltos.

- Jorge Antônio, seu cretino. Não tem vergonha? Ficar paquerando minha amiga na minha cara? Tenho vontade de te esganar.

Furiosa, Manoela estrangula a mangueira do oxigenador do repositório cerebral, asfixiando Jorge Antônio. Mudo, com os olhos esbugalhados, pediria socorro se pudesse. A falta de oxigenação provocou um aumento de gases do repositório fazendo subir a pressão. Lançado pelo orifício da válvula de segurança, esguichou um jato aquoso do líquido de conservação do interior do repositório acertando Manoela, que ficou completamente encharcada.

- Seu mal educado. Para mim basta. Eu te odeio seu...seu...seu cérebro machista.

Jogando o guardanapo na mesa, Manoela saiu do restaurante pisando duro, para nunca mais voltar. Estava tudo acabado. É mesmo muito difícil ver o que se passa na alma das pessoas. Jorge Antônio buscava um grande amor. Ficou ali sobre a mesa, mudo, solitário, pensativo. Quase morreu para aprender a lição. Desprovido de seu corpo, prometeu que escolheria sua nova namorada pelas qualidades internas, não só pelos atributos do físico feminino.

Um pouco antes de o restaurante fechar as portas, os funcionários começaram a arrumar mesas e cadeiras. Sem premeditar, um garçom colocou o repositório de Jorge Antônio em frente a outro repositório cerebral, também abandonado numa outra mesa. Na verdade o trabalhador apenas queria organizar o lugar antes de fechar, mas foi como se o destino guiasse seus braços.

Os empregados saíram apagando as luzes e fechando as portas. Na penumbra os dois desconhecidos guardados em seus repositórios ficaram um de frente para o outro. Admiravam-se como almas gêmeas. Passaram a noite entreolhando-se sem nenhuma palavra. Pareciam trocar pensamentos, um mirando o outro, como se quisessem entrar um no outro pela pupila dos olhos. Se alguém pudesse vê-los teria a nítida impressão de verem dois seres apaixonados, uma paixão platônica.

No dia seguinte, o dono do restaurante mandou devolver cada repositório à sua respectiva família. Passado alguns meses, Jorge Antônio ganhou seu novo corpo clonado. Restabeleceu-se por completo e retomou sua vida. Contudo, o olhar da misteriosa companhia ficou guardado em sua memória. Não sabia quem ela era ou onde morava. Ele caminhava pelas ruas da cidade procurando aquele olhar nos olhos das pessoas que cruzavam seu caminho, na esperança de um dia reencontrar sua cara metade.

sábado, 4 de junho de 2011

A MOSCA E A ARANHA

A MOSCA E A ARANHA


Por MMendes







Saindo em disparada rumo às nuvens, recolheu as asas deixando que a gravidade drenasse lentamente seu movimento até que parou completamente no ar, deu uma guinada e começou a cair vagarosamente, como uma cabeça de martelo lançada ao ar. Quase pareceu que se espatifaria no chão, mas no momento certo, habilidosamente abriu suas asas, recuperou o vôo desenvolvendo elegantemente uma curva no espaço. Em seguida manobrou em “looping” desenhando três círculos perfeitos, manobra acrobática que deixaria qualquer um completamente desorientado, mas não ela, a fabulosa mosca.

E lá vai novamente conduzindo seu corpo ao estol de maneira assimétrica. Guinava para o lado gerando uma trajetória em parafuso, como um avião abatido em combate. Mas, ao contrário, o inseto voador nivelou-se ao solo, ganhou altura e desapareceu no horizonte daquela tarde avermelhada de primavera.

Apaixonada por aviação passava horas e horas admirando as acrobacias dos cadetes. Expectadora assídua, pousava todos os dias sobre a mesma folha de uma palmeira no jardim da Força Aérea. Sem que a mosca notasse, não muito longe, uma aranha a espreitava todos os dias, fitando-a veementemente com seus oito olhos bem abertos. Determinado dia, antes da chegada da mosca, a aranha teceu uma fina teia, quase invisível, no exato lugar onde a mosca pousaria.

No dia seguinte, no horário de sempre, lá vinha a mosca desenvolvendo um vôo de costas, seguido de um rolamento lateral em torno do eixo longitudinal do corpo. Quando estava para pousar, sentiu prender-se no ar. Era como se uma mão invisível a tivesse capturado. Bateu as asas, esperneou, contorceu-se, mas nada de escapar. Havia sido apanhada pela teia.

Os movimentos da mosca balançaram a teia e o aracnídeo que aguardava num canto, iniciou uma lenta caminhada. Pé ante pé, desviava-se dos pingos de cola que pontilhavam cada fio de sua armadilha. A mosca apavorada observava cada movimento de sua predadora. Sem poder escapar pensou: “-É derradeiramente meu fim”. A aranha era enorme perto da pequena mosca.

Chegando bem perto, com seus olhos iridescentes como bolhas de sabão, fitou a pobrezinha por um instante. Tomou a mosca em seus tentáculos cabeludos e começou enrolá-la, prendendo-a num novelo de seda. Depois amarrou o casulo firmemente num dos cantos da teia, saindo vagarosamente.

A mosca completamente imobilizada pensou: “-Me amarrou para devorar-me mais tarde. Quem sabe na hora do almoço? Eu que amo tanto a liberdade do céu, vou acabar morrendo aqui, presa, amarrada, inerte. Que triste fim para uma mosca aviadora”, lamentava. Chegou a hora do almoço, passou a hora do jantar, caiu a noite e nada da aranha aparecer. A mosca não cochilou um só momento, com medo de ser devorada dormindo.

Chegou o dia seguinte, pouco antes dos aviões iniciarem a decolagem, a aranha reapareceu, levantou seus tentáculos apanhando o casulo. Nesse momento a mosca gritou: “-É agora, guardou-me para o café da manhã. Socorro, socorro!”. Misteriosamente a aranha carregou delicadamente o casulo até um local de privilegiada vista das acrobacias aéreas. Em seguida retirou-se. Com o coração acelerado, a mosca quase nem conseguiu prestar atenção aos aviões. Depois de um tempo a aranha voltou, recolheu o casulo e prendeu-o novamente no mesmo lugar de antes, retirando-se em seguida.

A mosca não compreendia quais eram as intenções da aranha e não sabia o que pensar: “-O que pretende a aranha? Comer-me enquanto me distraio com os aviões? Ela quer sugar meu néctar enquanto me alegro? Será que o néctar da gente é mais gostoso quando estamos alegres?”. Entardeceu, passou a noite e nada da aranha aparecer. A mosca prisioneira estava entristecida com sua sorte. No dia seguinte, antes da decolagem dos aviões, surge novamente a dominadora, repetindo tudo o que havia feito antes. Mas o inseto prisioneiro sequer prestava atenção aos aviões, cabisbaixo, aborrecido. A vida perdera o sentido.Depois de um tempo, a aranha recolheu o casulo novamente, repetindo todo o ritual. No quarto dia tudo igual.

Em completa solidão e profunda melancolia a mosca pensava na morte e todas as conquistas de vida deixadas para trás, a fama, o chapeuzinho de aviador, os lugares que não conheceu, os prazeres que não viveu.

- Quem sabe ao menos um sopro de vida subirá às alturas, deixando meu corpo sucumbir no fundo da terra, ou na barriga da aranha? Tudo é vaidade, tudo é vaidade - Lamentava a mosca. Nunca havia pensado na morte. A vida havia sido prazerosa demais, por isso nunca sentiu necessidade de uma oração sequer, uma conversa com Deus. Mas, naquela hora sentia-se impelida e ensaiou uma pequena oração, embora sem aquela retórica toda.

- Oh meu Deus, não me importo de morrer, mas se for possível, eu prefiro não estar por perto quando isso ocorrer.

Por que somos todos assim? Passamos a vida construindo um império e no instante final percebemos que só temos um castelo de areia? Corremos atrás da fama, da posição social e da riqueza e no final descobrimos que acumulamos apenas vaidade dissipada pelo hálito da morte?

No quinto dia, esperando que a aranha aparecesse no momento da decolagem dos aviões, a aranha não veio: “- Tem alguma coisa estranha no ar. Cadê a aranha?”. Antes mesmo de consumar seus pensamentos, sentiu um bafo quente na nuca e inesperadamente seu corpo girou de forma violenta. Parou olho a olho com a aranha que lhe deu um enorme beijo na boca.

- Meu amor! Clamou a aranha aos prantos. - Te amo desde o primeiro momento que o vi. Quis vê-lo e abraçá-lo todos os dias de minha vida. Temia que um dia me abandonasse, nunca mais aparecesse, despedaçando meu coração. Mas agora compreendi, prender-te foi um grande erro. Se não fores feliz, igualmente eu não serei, pois esse é o destino daqueles que amam. Os verdadeiros amantes compartilham as alegrias e as tristezas. Sei que para ti a felicidade esta em voar livremente pelo céu e que não serias feliz aqui.

Aos prantos a aranha começou a desatar as linhas do novelo libertando a mosca boquiaberta. Livre, saiu em vôo disparado dando mil e uma cambalhotas e rodopios pelo ar, enquanto a aranha derramava lágrimas de amor que decoravam teia. A mosca nunca mais voltou. Mas, a aranha não sofreu, apenas amou e amou muito. Aprendeu que amar não é sinônimo de prisão, o verdadeiro amor é libertador.