sábado, 19 de fevereiro de 2011

Bailarina ao vento


BAILARINA AO VENTO

*MMendes


Escapas pelos vãos de meus dedos,

solta, livre como folha brincando,

bailarina, rodopiando ao vento.

Meus olhos de longe te seguem,

para nunca perdê-la de vista,

sempre preparado para acolher-te,

quando o redemoinho passar.

Nem notas o tempo fechado,

as rajadas e rumores da tempestade.

Brincas inconsequente de voar,

como corrias de mim quando pequena.

Meu coração desesperado para,

fitando teus arroubos de menina.

Sem palavras a vida segue em branco,

enquanto meu amor sofre silencioso.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A MONTANHA

A MONTANHA

*MMendes

Chegar próximo aos cinqüenta anos de idade é para mim como chegar ao cume da montanha. Tanto posso contemplar o caminho de vinda, quanto o vale e o horizonte que se perde a frente. Dá vontade de agradecer cada passo consumado, cada gramínea, cada galho e raiz que me amparou no caminho escorregadio e pedregoso. Como é bom chegar aqui em cima e descansar um pouco, esboçando um sorriso de conquista. A fadiga das pernas e dos braços é como recompensa pela vitória. Olhando abaixo posso ver uma legião de caminheiros como eu, em romaria, desenvolvendo jornada ao encontro das coisas mais altas. Conquistar a montanha é a ambição de todos, embora vejo que muitos desistem no meio do caminho.

Estar aqui é estar mais próximo das coisas de Deus. Aqui em cima o ar puro da montanha alimenta a alma, a brisa refresca e alivia as dores. Dá vontade de parar, montar um acampamento, fazer uma fogueira e passar a noite enamorado da lua. Olhando para o céu vemos como a montanha é pequena. Para alcançar as estrelas não basta caminhar e subir é preciso voar, para além das nuvens de algodão.

Quando anoitece as luzes da cidade cintilam como as estrelas, misturando o céu o a terra. Dá sensação de flutuarmos no espaço. Os carros transitando pela estrada lembram estrelas cadentes riscando a escuridão.

Retiram-se as estrelas, a noite cede à alvorada. Um nevoeiro denso envolve o pé da montanha. Dá impressão que a montanha foi elevada ao céu. Parece possível caminhar sobre as nuvens. O sol surge no fim da linha do destino, esforçando-se para ver a lua de relance. Sua luz é plena, o calor dissipa o nevoeiro. A montanha volta para a terra. Posso ver a encosta, o caminho de descida e o vale verdejante de rios espraiados.

É preciso descer, há novas coisas para aprender, novos amores no ar. Acredito que será como se a vida andasse na contra-mão do tempo, girando seus ponteiros no sentido reverso. Subi a montanha com a ambição de me tornar um homem. Agora desço a montanha na esperança de me reencontrar criança, rir de qualquer coisa, riso solto, rir da vida. Brincar muito, brincar até cansar e, no final do dia, como quando eu era criança, dormir um sono profundo no colo e nos braços da mãe terra.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

ELVIRA

ELVIRA
* Por MMendes

Esta poesia dedico à minha mãe, que está com Alzheimer


Vim ao mundo, esperava ser teu.
Cheguei na hora, te surpreendi.
Carecia de amor, não era do meu.
Naquela hora senti que te perdi.

Faltava-lhe do pai o grande amor,
um vazio que não pude preencher.
Ao contrário, causei grande pavor,
o destino me fez com ele parecer.

O tempo passou, a vida levou.
Tentei conquistá-la, não consegui.
Quase morreu, você definhou,
mas ficou perto, como sempre pedi.

Peguei tua mão, beijei tua face,
fitei teus olhos, você nem notou.
Te acalentei, num doce enlace,
Cantei prá você, sequer escutou.

É cedo! Disse eu. Você levantou.
silenciosa se foi, lábios carmim.
adeus meu amor, saudade ficou,
sepultou contigo, parte de mim.

sábado, 6 de novembro de 2010

JOSUÍTA

JOSUÍTA
*Por MMendes

Que tristeza sentimos Josuíta,
quando nos perdemos um do outro.
Não soltemos mais as mãos.
Agarrados resistimos, suplicamos,
unidos como corrente,
corrente de oração.

Tenho medo do escuro,
também temo a solidão.
Não me deixem aqui sozinho,
neste momento de aflição.
Quando um se vai, nasce a certeza,
de que todos, então, se vão.

GORJEIO LÍRICO

GORJEIO LÍRICO
*Por MMendes
A solidão não é tristeza, é ilusão,
ilusão de estarmos à só, sozinho.
A vida nunca é só, mas multidão,
inúmeras vidas num só caminho.

Canta como canarinho desperto,
na cumieira do telhado da casa,
fazendo brotar flores num deserto,
depois voa pelo céu, abrindo asas.

Voa passarinho para o céu infinito,
para muito além do sonho visível,
onde repousam a lenda e o mito,
de que ser feliz é muito possível.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

CONFLITO DE GERAÇÕES


CONFLITO DE GERAÇÕES

Por Guilherme Benvenuto Mendes

Cecília estava decidida. Iria à festa de Veneza, aonde todos os jovens da cidade se encontravam. Fazia bastante calor e as luzes do salão enchiam de cor a noite escura. Cecília colocou um salto bem alto, passou um batom vermelho, soltou os cabelos. Colocou um belo vestido roxo, sensual, apertado e com um decote arrepiante. Ela iria arrasar, se não fosse por um problema: ela já tinha mais de 60 anos.

Ao chegar na festa, endireitou a coluna, curvada pelos anos, caprichou no rebolado, verificou se a dentadura estava bem presa e entrou com toda a pompa. Com um olhar de lince, prejudicado pela catarata, caçou um grupo de jovens. Iria se enturmar e provar ainda ser jovem.

- E ai galera, “firmoze”? Festa “supimpa” heim?

Alguns jovens riram, outros acharam ridículo. Um rapaz resolveu dar uma lição na velhinha. Convidou-a para dançar. Era uma típica música de “funk”. Ele iniciou com todo o molejo. Cecília tentou copiar. Entre um requebrado e outro ela ora tirava a coluna do lugar, ora colocava-a de volta. Terminou sentada no chão. Atirou os saltos para longe por já não aguentar mais.

- Volta pro asilo vovó. Você é ridícula. Se liga!

Decepcionada consigo mesma, ela senta em uma mesa e pede ao garçom um copo de “vodka” para tomar junto com seu remédio para labirintite. Ela acaba por cochilar e é acordada por várias risadas. Amargurada olha para si mesma e se sente ridícula. Um senhor calvo, de terno colorido se aproxima dela:

- Ao que me parece entramos na mesma furada. Vamos resolver isso juntos? Aceita uma contradança?

Em meio ao som ensurdecedor, uma algazarra musical de estourar os tímpanos de um surdo, os jovens se esfregavam nas moças enquanto elas vulgarmente insinuavam suas formas femininas. Os dois ocupam o centro do salão e dançaram uma tradicional valsa. Ignoram o ritmo da música, as risadas e os comentários. Enquanto dançam, ele canta em seus ouvidos “que c´est triste venise”, “quando as pessoas não se amam mais”.

Satisfeitos consigo mesmos, passam a achar os jovens ridículos. Embriagados, em uma dança de puro erotismo, sem amor. Sentiram saudades da época em que haviam valores e o amor estava no ar. Saem do salão felizes por serem que são e por terem vivido em sua época.


MENDIGOS DA VIDA


MENDIGOS DA VIDA

* Por MMendes

Num outro dia, passando por um acampamento de sem-terras indígenas, do outro lado da estrada vi umas crianças jogando futebol. Meninos e meninas brincavam correndo atrás da bola, num campo de terra improvisado. Quem poderia imaginar essa situação? Os índios que já foram os possuidores de todo o continente, hoje mendigam um pedaço de terra.

Distanciei-me um pouco daquele lugar. Mais a frente uma voz sussurrou em meu ouvido:

- Lembre-se das crianças! Pensei naquelas crianças kaiowas jogando futebol no campo de terra, correndo com os pés descalços.

- Lembre-se das crianças! Ouvi novamente. Pensei nas crianças que conhecia: os filhos do vizinho, meus sobrinhos e nos filhos de meus amigos.

- Lembre-se das crianças! O interlocutor utilizava a frase como mantra. Dessa vez mergulhei mais fundo. Lembrei que eu já fui uma criança e que todos os que vivem e já viveram são ou foram crianças um dia.

- Elas não querem ir para casa, porque estão brincando com o espírito que paira sobre as águas.

Nesse exato momento, uma imagem projetou-se sobre minha tela mental e vi uma névoa branca sobre um grande lago de águas densas e profundas. As crianças corriam ao redor do lago, gargalhando e atirando coisas na água. Estava anoitecendo e não queriam voltar para casa. As mães as chamavam insistentemente, mas as crianças não se importavam. Senti medo de que caísse a noite e elas não soubessem o caminho de volta. Então meu interlocutor continuou:

- A humanidade é como uma criança, ingênua, irresponsável, brincando com a vida. O lago é a origem e fonte da vida. O espírito que paira sobre as águas é a vida tão singular no universo. A voz da mãe clamando os filhos de volta é a natureza chamando o homem para que reconheça o planeta como sua casa. É preciso ouvir seus apelos, voltar para casa, crescer e tornar-se responsável. A noite se aproxima e ameaça toda a existência.

- Eu já lhe disse que vida é movimento (*leia o conto a vida é movimento). Você se recorda? Aquele estado mental me permitiu alcançar uma compreensão sobre a vida como nunca aconteceu antes. Eu vi a terra e as placas tectônicas movendo-se sobre o magma incandescente. Eu vi a terra viva! E a voz continuou:

- O planeta é um ser vivo. O espírito da vida habita seu interior desde a criação. Já se manifestou com muita força na consciência de muitos seres terrenos. Assim como não reconhecem a terra como um ser vivo, não reconhecem aqueles que recebem seu espírito. Assim como destroem a terra, também destruíram aqueles que encarnaram seu espírito. Quando matarem a terra, se tornarão mendigos da vida.

Dito isso, a voz se foi e minha consciência se recolheu novamente, voltando ao estado normal. Bem, já nem sei mais o que é real e nem o que é normal. Naquele estado de consciência expandida alcançamos conhecimentos extraordinários. Mas, afinal, aquela experiência havia sido verdadeira no plano da realidade? Para mim foi real e mudou minha maneira de ver a vida. Nós, habitantes da Terra que hoje produz vida com tanta abundância, haveríamos no futuro próximo de mendigar por água limpa, por florestas, pela sobrevivência?