terça-feira, 26 de maio de 2009

O PROCESSO ASSOMBRADO

O PROCESSO ASSOMBRADO
Por MMendes

Ao chegar na cidadezinha parou para abastecer o veículo. Enquanto o frentista enchia o tanque, viu um empregado numa condição de risco. Trabalhava perto do poste de alta tensão.

- Mário, deixe de moleza. Termine logo esse serviço. – Dizia o barrigudo empregador logo embaixo, esbravejando ordens ao empregado que arriscava a vida.

- Não tenho nada com isso. Sou neutro e só me pronuncio depois de provocado. - Pensava o motorista, quase que indiferente.

Depois de abastecer saiu conduzindo o veículo até o destino.

- Ele chegou! Está descendo do carro.

- Ajam naturalmente para que ele não desconfie de nada. – Diziam aquelas duas figuras espiando pela fresta da janela.

Lá fora, depois de viajar quatro horas por uma estradinha que parecia levar ao fim do mundo, o sujeito descia do carro que acabava de estacionar. A rua estava deserta, o tempo estava nublado e o vento soprava “uivante” as folhas secas da rua. Abriu a porta do carro e ao pisar no chão daquele lugarejo, sentiu um arrepio e um pressentimento de mau agouro. Tomou a mala de couro às mãos e caminhou para o foro. Era o juiz substituto Sabino Teixeira que chegava para ocupar o lugar do titular aposentado.

- Cruz credo que lugar sinistro. – Disse o juiz benzendo-se com o sinal da cruz, ao notar que o prédio do foro era vizinho do cemitério. Em frente à entrada juntou os pés e iniciou a marcha com o pé direito.

Logo na entrada foi recebido pelo diretor da secretaria. Um homem assustador. Pálido, olheira azulada, olhos irritados, vestia roupa preta e gravata vermelha. Parecia um personagem de filme de terror.

- Seja muito bem vindo, doutor. Estávamos a sua espera. Mostrarei seus aposentos. O lugarejo era tão decadente que não havia hotel digno para o juiz se hospedar. Por isso, arrumaram seus aposentos no prédio do foro. Um modesto quarto apartamento.

Já era tardinha e as audiências começariam apenas no dia seguinte. O juiz pediu à secretária que separasse os processos da pauta. A secretária, velha e enrugada, era uma servidora às vésperas da aposentadoria. “– Ou da morte”, pensou o juiz.

Olhou os processos um por um. Notou que faltava um deles. Pediu para ver os autos quando a secretária e o diretor gritaram ao mesmo tempo:

- Não coloque as mãos nesse processo! - O juiz deu um pulo de susto.

- Vocês quase me matam do coração! Por que não posso ver esse processo? – Perguntou com a voz trêmula e olhos arregalados.

- É um processo de espólio contra espólio. - Desculpou-se o diretor, alertando o juiz para a maldição que se encerrava naqueles autos.

- Esse processo ficou esquecido dentro dos arquivos da Vara. O caso é tão antigo que todos os que passaram pelo processo morreram. O autor da ação, um empregado de nome Mário, morreu eletrocutado num terrível acidente de trabalho. Proposta a ação pela inventariante, o empregador morreu num acidente dias depois da citação, em circunstâncias misteriosas. O juiz que aqui estava à época, acreditava tratar-se de uma maldição. Temeroso foi incapaz de dar andamento ao processo. O processo é tão antigo que os próprios inventariantes e os advogados que patrocinavam a causa também morreram. O caso está paralisado há vinte anos sem solução.

- Credo! Eu que sou só um juiz substituto quero distância desse processo. Que o próximo titular resolva essa abacaxi. – Disse o juiz limpando as mãos no paletó.

Encerrado o expediente, o diretor e a secretária fechavam o prédio. O juiz recolhia-se aos seus aposentos.

- Doutor, ia quase me esquecendo. Só temos luz até as dez da noite. Alertou o diretor.

- Como luz até as dez da noite?

- Aqui é assim. Depois dessa hora desligam o gerador da cidade. Deixei um maço de velas no criado perto de sua cama. Tenha uma boa noite - Disse o diretor antes de sair.

Sem que o juiz soubesse, por um descuido, na pressa de ir embora, a secretária de audiência inseriu o processo assombrado na pauta de audiência e sem qualquer explicação, misteriosamente agendada para a meia-noite. O juiz andou apressadamente até o quarto e fechou a porta.

- Ainda por cima essa porta não tem chave. – Resmungou amedrontado.

Apressou-se deitar e logo dormiu. Às dez badaladas do sino da matriz a luz se apagou. Lá por vota das 23h30 o juiz acordou com passos pelo corredor. Abriu seus olhos arregalados e cobriu-se com o lençol até a altura do nariz.

- Quem é? – Perguntou com a voz um tanto trêmula.

Não houve resposta, mas os passos continuaram seguidos de gemidos, ruídos de correntes, rangidos e bater de portas. Lembrou-se das velas e acendeu uma. Nesse instante alguém bate à porta com três pancadas.

- Está na hora. Está na hora. Está na hora. Se não abrir eu vou entrar. Não agüento mais esperar.
- Disse uma voz desconhecida.

Levantou-se vestindo ceroulas e calçando os chinelos. Temia que se ficasse embaixo dos lençóis coisa pior poderia acontecer. Ainda que trêmulo, resolveu enfrentar o medo e ver o que se passava.

- Que...quem é você? O...o que vo..você quer? - Gaguejou o juiz.

O magistrado olhou o relógio de pulso e era justamente meia-noite. Abriu uma frestinha da porta e viu um vulto escuro no corredor. Fazia sinal que o seguisse. Abriu a porta e levantando a vela, medrosamente seguiu o vulto. A assombração poderia atentar contra sua vida caso contrariada, pensava ele.

Foi conduzido diretamente à sala de audiência. Chegando lá viu a sala repleta de fantasmas. Suas pernas tremiam, seu coração estava paralisado. A parafina quente da vela queimava sua mão e ele mal sentia. Estava apavorado. Sua vontade era sair correndo dali. Mas ir para onde? O lugarejo ficava no meio do sertão. Estava isolado. O único acesso à estrada era pela balsa, que só começaria funcionar no dia seguinte.

Uma assombração encapuzada apontou para o magistrado. Sentiu um frio na espinha e suas pernas congelaram. Não conseguiu dar um passo sequer. Os fantasmas avançaram sobre o juiz forçando-o a ocupar seu lugar. Colocou a vela sobre a mesa, o único lume do ambiente. O fantasma encapuzado assentou-se ao lado esquerdo da mesa e seguiu dizendo:

- Ele nunca me forneceu equipamentos de segurança. Minha jornada era muito extensa. No final do dia estava desgastado e já nem conseguia prestar atenção no serviço, expondo-me ainda mais aos riscos. Explicou o espírito com voz fantasmagórica.

- Determinado dia fui obrigado trabalhar próximo aos fios da rede de alta tensão e num pequeno descuido....bizzzzz...morri eletrocutado. Caí torrado ali mesmo. Noutro dia, já havia um outro empregado em meu lugar. Fui descartado como se descarta uma fatia de pão queimado na torradeira.
- Depois de morto vi minha mulher e meus filhos passarem fome e necessidade. Mendigaram ajuda ao patrão, mas ele nem deu bola. Os expulsou do escritório e disse que procurassem seus direitos. Assim deram início ao processo de reparação de danos.

- Diante de tanta crueldade não consegui ascender ao plano do além, ficando ligado ao processo até que fosse solucionado. Estou aqui aguardando que a justiça seja feita. - Disse a assombração do trabalhador que exalava odor queimado.

Quando terminou sua fala, um outro fantasma do lado direito da mesa prosseguiu dizendo:

- Eu fui egoísta e avarento. Sou o responsável pela morte desse empregado desencarnado. Depois de sua morte eu mesmo fui vítima de outro acidente. Eu deveria ter investido na redução dos riscos do ambiente de trabalho. Excelência, tudo o que o empregado disse é verdade. Eu confesso. Tive uma vida miserável, só pensava em lucro, não me preocupei com a vida dos empregados. - Declarou o de cujus.

- Só depois de morto é que pude perceber que toda a riqueza de nada me valia. Estou arrependido e meu desejo é reparar o mal feito. Estou preso ao processo até que justiça seja feita. Disse o fantasma do patrão.

Aquela audiência mais parecia uma sessão espírita. Ali estavam os fantasmas do empregado, do empregador, dos inventariantes e dos advogados que morreram aguardando a morosa solução. Vendo nos olhos dos presentes uma aflição pela decisão, o medo cedeu lugar ao sentimento de justiça. O magistrado lembrou do dia anterior, quando viu um empregado também de nome Mário trabalhando em condições semelhantes.

- Terá sido uma coincidência, um aviso ou visão de uma história que se repete todos os dias esperando que a Justiça caia do céu sobre nós, vivos ou mortos? Refletiu o juiz absorto nos próprios pensamentos.

Enchendo-se de coragem e sentimento de dever, vestiu sua toga negra como que forjada para a ocasião. Diante da confissão do empregador, proferiu a sentença que todos desejavam. Reparou o mal feito e com justiça determinou o amparo a família do empregado que por vinte anos viveu em estado de penúria. No mesmo instante as almas da sala se libertaram. Começaram a brilhar e desapareceram sob o olhar do juiz.

O magistrado respirou aliviado, acreditando que tudo havia acabado. Ledo engano. No instante seguinte ouviu um vozerio que vinha do cemitério ao lado. Abriu a janela com cautela e teve uma terrível visão. Os mortos levantavam-se dos túmulos e vinham em sua direção cercando o prédio.
- Justiça! Justiça! - Gritavam os cadáveres enfurecidos.

O juiz corria de um lado para o outro trancando todas as entradas. Mas, os mortos forçavam as portas e janelas. Quando passou pela mesa viu uma pilha de processos. Teve uma intuição:
- Esses processos...Seriam dos cadáveres lá fora? - Disse o juiz sussurrando.

Olhou as datas dos protocolos de distribuição e notou que eram muito antigas. Sem pestanejar sentou-se à frente da máquina de escrever e apressou-se julgar todos os processos que encontrou nos arquivos da Vara. À medida que aumentavam as decisões, os gritos diminuíam em proporção inversa. Proferida a última sentença fez-se um silêncio mortal, como que anunciando a chegada dos primeiros raios de sol.

Quando o diretor e a secretária chegaram, o juiz já estava vestindo seu terno cinza. Antes que o juiz falasse qualquer coisa, o diretor o cumprimentou estendendo a mão direita:

- Excelência, nós viemos agradecer e nos despedir. Também somos responsáveis pela morosidade dos processos. Tratávamos os processos como se fossem apenas um monte de papel, sem perceber que atrás da capa dos autos havia sofrimento de pessoas clamando por justiça. Por isso fomos amaldiçoados, tal qual os outros. Não poderíamos ascender ao plano espiritual até que os processos fossem solucionados. A justiça nos libertou e agora podemos seguir nosso caminho em paz. – Disseram.

Depois disso, saíram pela porta da frente e foram caminhando pela rua até sumirem de vista. Quando voltou os olhos para dentro viu um prédio abandonado, cheio de papeis pelo chão, paredes emboloradas e o teto repleto de teia de aranha. Não havia mais nada a ser feito naquele local. Não havia uma viva alma na cidade.

Colocou a mala no carro e foi embora, deixando o lugarejo para trás. Jurou celeridade processual em frente ao cemitério e que não deixaria nenhum processo esperando tanto tempo sem julgamento, especialmente processos que envolvam espólio.

O juiz aprendeu que não há vida sem justiça. Apesar de ter libertado as almas penadas, ficou com a sensação de que justiça tardia não é justiça, mas sim injustiça manifesta.

domingo, 24 de maio de 2009

EFEITO INDESEJADO

Por MMendes

Eugênio Picolo, era um gaúcho imenso. Pesava quase 200 Kg. Não podia morar em prédio algum, pois não cabia no elevador. Já tinha tentado de tudo para emagrecer, mas seu ponto fraco era o churrasco. Era um churrasqueiro de primeira. Adorava carnes gordas e suculentas, mas detestava qualquer tipo de vegetal. Sua aversão por vegetais sempre prejudicava o regime de emagrecimento. Acho que era capaz de comer um boi inteiro em cada refeição, mas nenhuma folhinha de alface sequer.

A mulher estava desacorçoada. Já pensava em separação. Picolo há muito não enxergava nem a ponta dos pés, quanto mais amarrar os sapatos. E para tomar banho, um martírio. A esposa era obrigada a ajudá-lo no banho. Gastava um sabonete inteiro para ensaboar aquele homenzarrão.
Ela também era um tanto gordinha, mas nada comparado com Picolo. Também para acompanhar o marido, não havia dieta que sobrevivesse. O marido adorava a esposa, que carinhosamente chamava de gorduchinha. Certo dia, a mulher ouviu dizer que um psiquiatra especialista em hipinose era capaz de convencer uma pessoa de qualquer coisa. Não teve dúvida, marcou uma consulta e lançou um desafio ao médico:

- Doutor eu imploro. Se conseguir que meu marido deixe o gosto pelo churrasco eu lhe pago qualquer quantia.

O psiquiatra aceitou o desafio e pediu o prazo de um mês. Retornando para casa obrigou o marido a marca uma consulta, sob pena de pedir a separação. Picolo era apaixonado pela esposa, tal qual gostava de churrasco. Ficou entre a cruz e o espeto de churrasco. Mas a mulher, além de tudo, amarrava seus sapatos, coisa que o churrasco não fazia. Preferiu escolher ficar com a mulher, mas lá com seus botões pensava que poderia estar fazendo a escolha errada. Mesmo assim foi ao psiquiatra.

- Boa tarde doutor. - Disse Pícolo ao passar espremido na porta do consultório.

O médico psiquiatra espantado, nunca havia visto um homem daquele tamanho.

- Diga meu senhor, o que o traz? - Perguntou o psiquiatra, embora já conhecesse a resposta.

- Quero que o doutor me ajude a emagrecer. Ou é isso ou minha mulher me largará. Eu não saberia viver sem minha gorduchinha.

- Muito bem. Minha melhor técnica é a do hipnotismo. Deite-se no divã. - Enquanto isso o psiquiatra diminuiu a luminosidade da sala e regulou o ar condicionado para que o ambiente ficasse mais agradável.

Depois de algum tempo de relaxamento e indução, Picolo estava completamente hipnotizado. O psiquiatra mostrou-lhe um espeto de costela gorda, pediu que provasse e induziu Picolo a achar que era um pé de alface. O paciente fez uma cara de nojo e cuspiu tudo na mesma hora. Depois deu uma picanha medalhão emoldurada de um naco de gordura tostada. Quando Picolo colocou na boca o doutor induziu o paciente a pensar que era um pedaço de cenoura. Este cuspiu tudo para fora, com a maior cara de nojo, como havia feito antes.

Em seguida o médico tomou um pé de alface nas mãos e pediu que Picolo experimentasse, induzindo o paciente a achar que era um costela gorda e suculenta. O paciente hipnotizado devorou o pé de alface com a maior satisfação. Tão logo terminou a deglutição, ofereceu-lhe uma cenoura, afirmando ao paciente que tratava-se de uma picanha a medalhão acrescida de uma capa de gordura bem tostadinha. Picolo devorou a cenoura com cara de muita satisfação.
Terminado o tratamento, o médico fez com que o paciente voltasse ao normal.

- O senhor está curado seu Picolo. Pode voltar para casa que seu problema está resolvido.

Picolo não se lembrava de nada, mas sentia-se diferente. Não sabia explicar o que havia mudado. No caminho para casa a primeira coisa que pensou foi fazer um churrasco. Passou no mercado comprou carvão, sal grosso e os demais itens. Chegou em cumprimentou a mulher. Sorridente acendeu a churrasqueira. Enquanto preparava os espetos a mulher perguntou:

- Você foi ao médico como havíamos combinado?

- Fui, evidentemente. - Disse ele enfiando um pé de alface no espeto que acabava de limpar.

- E o que ele disse? - Perguntou a mulher.

- Ora, disse que eu estou curado. - Afirmou espetando uma cenoura em outro.

A mulher estava espantada com aquela situação, mas ficou em silêncio. Daquele dia em diante Picolo assava vegetais acreditando piamente que os espetos eram de carne. O psiquiata o tornou um churrasqueiro vegetariano. Com o passar do tempo, Picolo foi emagrecendo, emagrecendo até que ficou com seus 98 Kg. Estava disposto, vigoroso. Admirava-se de poder ver a ponta dos pés, há muito escondido debaixo da enorme barriga, que agora não existia mais.

Todavia, seu casamento começou entrar em crise. Já não se entendia muito bem com sua mulher. Ao contrário de antes, só a chamava de gordinha na hora da discussão. Gorduchinha era agora um apelido pejorativo. Os conflitos foram tantos que Picolo, neste ponto homem elegante e magérrimo, resolveu separar-se da esposa e arrumou uma namorada esguia.

A mulher retornou ao psiquiatra para saber o que havia dado errado. E depois de explicar-lhe o problema, o psiquiatra disse:

- Eu inverti a programação do cérebro de seu marido. Ele pensa que alface é costela bovina, pensa que picanha é cenoura e vice-versa. Mas pelo que está me dizendo, acho que ocorreu um efeito inesperado.

- Penso que seu marido amava tanto ser churrasqueiro e gostava tanto de carne gorda em decorrência do amor que tinha pela senhora. Havia uma relação a mulher “gorduchinha” e o estimulo pela carne gorda. Quando alterei essa programação, inesperadamente ele foi deixando de gostar da senhora. Foi um efeito colateral imprevisto.

- Era bem possível que se a senhora tivesse emagrecido, como efeito decorrente, isso induziria seu marido a emagrecer também.

A mulher saiu do consultório arrasada. Aprendeu uma grande lição. Devemos aceitar os outros como eles são. O mundo a nossa volta é o reflexo do que somos. Para mudar as coisas e preciso antes transformar nossa própria natureza. Não se muda o comportamento de uma pessoa sem mudar a pessoa como um todo. Somos como um vaso cheio de bolinhas. Não se pode tirar a bolinha do meio sem que todas as outras bolinhas se movimentem num novo arranjo. Picolo emagreceu enfim, e tornou-se uma outra pessoa.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O PÓ DA TERRA

O PÓ DA TERRA
*Por MMendes

As paredes daquela velha igreja estavam impregnadas de história. Doze pilares sustentavam sua abóbada adornada por desenhos magistrais. O ar estava impregnado de um elemento místico. O chão era feito de largas tábuas de jacarandá maciço, todas gravadas com números pirografados. Murilo entrou humilde e seus passos ressoavam pelo chão de madeira que rangia a cada passo. Era como se o chão lançasse murmúrios de uma multidão cadenciados pelo ritmo das passadas.

Quem conhece o costume sabe, embaixo de cada uma daquelas tábuas do chão da igreja, jazia enterrado um fiel que trabalhou e morreu naquela comunidade. Aquele era um solo sagrado, onde se guardava aqueles que pertenciam a Deus. Murilo conhecia o costume. Seus ancestrais estavam ali, dormentes, aguardando o juízo final. Foi até a igreja porque estava com problemas no casamento. Buscava uma fagulha de luz. Na realidade acho que estava com problemas existenciais por causa da proximidade dos quarenta anos. Em momentos como esse, nos sentimos entre a vida e a morte. Aquela velha igreja era o ambiente apropriado. A própria representação do limbo.

O sacrário ficava ao lado da nave central. Uma pequena sala iluminada por uma tênue fonte de luz. Sobre uma mesa de madeira que ficava na entrada, estavam depositados um crânio humano e uma ampulheta lembrando a efemeridade da vida terrena em contraponto com o sagrado que é eterno. Os povos antigos encaravam a morte com naturalidade e símbolos como esses não causavam temor, nem espanto ou ojeriza. Hodiernamente tememos a morte. Amedrontados sempre fugimos do assunto. Pensamos que esse dia nunca irá chegar. Com isso nos tornamos pródigos e esbanjamos a vida toda. Acreditando que viveremos para sempre destruímos valores eternos a ponto de comprometermos a própria vida do planeta. Para os antigos daquela comunidade, a morte era o complemento, a coroação da vida. Havia um profundo respeito aos mortos, quase um culto aos ancestrais.

Depois de percorrer a nave central da igreja e fazer a reverência costumeira, Murilo caminhou para a sala do sacrário e ajoelhou-se em oração. Sentia-se frágil e perdido. Brotou vontade de rezar a oração Ave Maria. Foi a primeira oração que aprendeu com sua avó Isolda, quando ainda era bem pequeno. Achava-se pequenino. Quem sabe, justamente por isso buscou consolo naquela oração de criança. Rezava desesperadamente a oração, uma após a outra, sem qualquer método ou propósito.

A medida que foi rezando, esvaziava-se de si pedindo luz. De repente um acontecimento insólito. Sem saber explicar como aconteceu, foi transportado para um lugar totalmente escuro. Uma escuridão diferente, como se um nevoeiro negro o envolvesse. Distante via apenas uma pequena estrelinha que se movia em sua direção. Quando a luz chegou mais perto, percebeu que era Nossa Senhora. Estava de costas, podia ver o manto azul celeste. Estava iluminada da cintura para cima. Não podia ver seus pés, apenas percebia que ela se movia lentamente em sua direção. Quando chegou a uma pequena distância virou-se. Suas mãos em forma de cuia seguravam delicadamente alguma coisa, tal qual como segura-se água.

Quando chegou bem perto, Murilo olhou naquelas delicadas mãozinhas para saber o que elas carregavam. Não havia nada, apenas luz. Maria carregava cuidadosamente uma porção de luz. Olhou para Murilo e continuou até que suas mãos penetraram seu peito. Continuou caminhando, enquanto entrava literalmente dentro do corpo de Murilo. Parecia que buscava guardar ali dentro, a porção de luz cuidadosamente carregada, até que desapareceu por completo.

Como acordasse de um sonho, estava de volta à sala do sacrário. Parecia ter sido um sonho, mas era viva a sensação de ter curvado o pescoço para olhar nas mãos de Maria. Envolvido naquela emoção ficou em dúvida quanto à realidade vivenciada. Mas era real. Teve uma visão. A luz que tanto pediu veio pelas mãos de Maria, intercessora dos homens. Ela havia colhido essa luz da própria fonte que jorra no meio do paraíso. Caminhava de costas para que seus olhos não ficassem cegos pela escuridão que envolvia Murilo.

Depois de um tempo Murilo levantou-se e caminhou para fora. Ao caminhar sobre o solo sagrado da Igreja, uma voz sussurrou em seu ouvido direito: “- Tu és pó e ao pó tornarás”.

Não, não era uma maldição. Era uma benção. Era um chamado de Deus para que Murilo abandonasse a idéia de separação, superasse seus conflitos e voltasse para sua família. A luz recebida de Maria abria-lhe os olhos, os mortos do assoalho sussurravam abrindo os ouvidos. Tal como o pó torna ao pó, havia entendido que deveria voltar àqueles a quem pertencia. O marido à mulher, o pai aos filhos.Lá fora o sol castigava os olhos, dissipando de vez a escuridão. Murilo levou a mão direita sobre os olhos como proteção. Seus olhos estavam desacostumados à luz. E assim voltou para casa caminhando sobre os cascalhos da rua. Cada pedra parecia nova, como renovado estava seu espírito.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A LUTA DE SAMUEL

*Por MMendes

A comunidade se preparava para a festa da Páscoa judaica. Samuel acordou muito cedo para preparar a banca na feira ao redor do Templo. Jardão, seu patrão, era um homem muito severo. Samuel necessitava do serviço para dar de sustento à família. Era um operário submisso, tinha medo de ser demitido. As estrelas ainda estavam no céu quando Samuel tomou um minguado quebra-torto, colocou parte da mercadoria sobre o lombo do burro e amarrou as cabras numa cordinha. Enquanto puxava o animal e as cabras, caminhava em silêncio passo a passo, com suas velhas sandálias de tiras de couro.

Ao chegar ao seu ponto junto ao Templo, fez a reverência de sempre e começou a arrumar a banca. Samuel vendia animais para o sacrifício judaico e ganhava uma miserável comissão pelas vendas. Trabalhava arduamente quinze horas por dia. Jardão exigia que gritasse o dia inteiro, oferecendo a mercadoria a um preço escorchante. Os judeus sentiam-se obrigados a fazer o sacrifício, temendo que Deus não perdoasse seus pecados e, com isso, fossem amaldiçoados. Por isso aceitavam pagar o preço absurdo exigido pelos vendilhões do Templo. No final do dia Samuel já não tinha mais voz, mas a canastra de Jardão estava abarrotada de moedas.

Era quatro da tarde e Samuel não tinha almoçado. Sem forças quase não parava em pé, quando Jardão começou a empurrá-lo aos insultos e constantes ameaças de demissão. Samuel caiu ao chão. Jardão armava-lhe um chute nos flancos, quando de repente, um homem chamado Jesus surgiu do nada, impediu o golpe e empurrou Jardão. Em seguida deu a mão direita a Samuel e disse:

- Levanta-se.- Sem que se apercebesse, naquele momento operava-se um dos milagres que não foram escritos na Bíblia. Jesus ressuscitava em Samuel a consciência de que era merecedor respeito, consciência essa, morta desde o momento em que abandou a luta por uma vida digna. O empregado acreditava que o maltrato do patrão era uma cláusula implícita do acordo de trabalho. Assim aceitava aquelas humilhações como prerrogativa do patrão. Mas, o milagre de Jesus iria revogar essa cláusula definitivamente.

Depois que Samuel estava em pé, Jesus e Jardão começaram a discutir. Jesus dizia:
- Você não tem compaixão desse empregado? Se continuar a explorar o povo e a tratar seus empregados como animais, você será condenado pela Justiça Divina. Seus bens serão expropriados e, então, blasfemará contra Deus.

Sem dar atenção às advertências, Jardão enfrentou o protetor de seu operário com uma chibata feita de cordas. Porém, Jesus foi mais hábil e tomou a arma de sua mão. Em seguida, açoitou Jardão, bem como outros patrões que a ele se aliaram e igualmente maltratavam os trabalhadores. Jesus gritava:

- Vocês converteram a casa de meu pai num covil de ladrões e exploradores.

Irado Jesus foi segurado por um amigo de nome Simão, que pedia que se acalmasse. Samuel ficou admirado como Jesus enfrentou seu patrão, exigindo tratamento digno aos trabalhadores. Depois disso, os amigos daquele valente homem o levaram para fora dos muros do Templo.
Samuel encorajou-se e daquele dia em diante passou a se reunir em segredo com um grupo de operários. Encorajavam-se mutuamente a enfrentar seus patrões exigindo condições dignas de trabalho, melhores salários e redução de jornada de trabalho. E assim decidiram fazer uma greve geral, às vésperas da Páscoa, quando o comércio era mais promissor.

Naquele grupo havia um espião de nome Josué. Numa quinta-feira antes da Páscoa, Josué foi ter com Jardão. Traiu Samuel em troca de dez moedas de ouro. Jardão se reuniu com os outros comerciantes e, a fim de desencorajarem os demais trabalhadores, decidiram armar uma cilada para Samuel. Seguindo o plano, Josué avisou um zelote que havia um grupo de inconfidentes, afirmando que Samuel queria com ele se reunir. Os zelotes eram um grupo de revolucionários que buscavam atentar contra o Império Romano. O zelote viu a oportunidade de montar um levante e aceitou o convite.

Quando compareceu disfarçado até a banca onde trabalhava Samuel, a milícia o apanhou e também prendeu Samuel. Ambos foram acusados de conspirar contra a economia local e contra os romanos. Foram presos, julgados no mesmo dia e condenados a crucificação. A execução da pena se deu no dia seguinte.

Quando Samuel já estava na cruz, percebeu que ao lado estava Jesus, o homem que o havia protegido contra Jardão. Nesse momento disse com sofreguidão:

- Senhor, é um homem justo. Com certeza, assim como eu, padece nessa cruz porque defendeu os humildes e lutou por um mundo melhor. Lembre-se de mim quando chegar minha hora.

Jesus respondeu-lhe:

- Samuel, eu te prometo. Ainda hoje você estará no paraíso comigo.

Apesar da agonia, Samuel sorriu. Aquele homem ao seu lado foi o único que teve a coragem de enfrentar seu patrão, o tratou com respeito e inspirou a lutar por sua dignidade. Parecia saber que, assim como o direito é fruto de uma dolorosa conquista, só ingressa no paraíso aquele defende seus ideais até a morte.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A MÁQUINA

A MÁQUINA
Por MMendes

Metido numa camisa de força seu corpo contorcia e corcoveava, o homem berrava:

- Soltem-me, chamem um advogado. Exijo um julgamento justo.

Quatro homens de branco tentavam segurá-lo firmemente. Dois o seguravam pelos pés e outros pelo tronco. Seus olhos arregalavam-se e sua boca espumava. Com muita dificuldade foi conduzido para dentro da viatura, que saiu em disparada com as sirenes ligadas.

- Essa prisão é ilegal. Onde está o mandado de prisão? Quero meu advogado. - Gritava o homem insistentemente até que lhe aplicaram um sossega leão. Ele apagou completamente. Quando acordou estava dentro da sala plenária do Tribunal. A sessão estava em andamento.

- Trouxemos o fujão de volta. - Disseram os homens de branco ao presidente daquela corte e retiraram-se do recinto.

O preso era um dos juízes de uma das varas daquela jurisdição. Havia fugido na tentativa de livrar-se do incomensurável volume de trabalho. Um verdadeiro Monte Everest de processos com sentenças e despachos atrasados. O ritmo de trabalho estava além de suas limitações humanas, não conseguia se amoldar às duras condições de trabalho.

O serviço acometido ao juiz era uma loucura, na literal acepção da palavra. Dezenas de audiências, dezenas de sentenças e centenas de despachos por dia. Estava obrigado a cumprir os exíguos prazos processuais e considerando o volume de serviço, não dava conta. Por isso tentou fugir em vão daquela jurisdição. Foi apanhado e agora seria submetido ao julgamento sumário de um processo administrativo.

A corte estava reunida, o processo devidamente instruído, o juiz teria julgamento imediato. Os desembargadores cochichavam entre si, enlouquecidos por uma severa punição ao infrator. De repente o presidente desferiu um golpe de malhete sobre a mesa e deu o veredicto:

- O réu foi considerado culpado de ineficiência. Os números do boletim estatístico revelam que sua produção foi insuficiente, acabando por comprometer o andamento da Máquina Judiciária. Condeno-o a julgar imediatamente todos os processos pendentes e colocar o serviço em ordem no prazo improrrogável de cinco dias.

Todavia, os membros da corte sabiam que seria impossível realizar o serviço dentro do prazo, considerando a capacidade de produção do condenado. Mas, ali estava envolvido o interesse público, o custo judiciário e aplicava-se a regra de que o interesse privado sucumbe ao interesse do Estado. Dessa forma decidiram tomar medidas para garantir a eficácia da condenação e melhorar a eficiência daquele organismo preguiçoso.

Determinaram ao meirinho que abrisse sua boca à força e ministrasse uma dose cavalar de um forte estimulante. Para garantir a fixação do juiz à jurisdição, evitando que fugisse novamente, ataram seus pés a uma corrente presa a uma bola de ferro. Retiraram a camisa de força, mas o amarraram sentado sobre uma cadeira. Para garantir que não dormiria, apesar do estimulante, ligaram um sistema de eletro-choque, caso vacilasse.

Os demais juízes de primeiro grau foram convocados para assistir a sessão e cada qual se comportava de maneira muita estranha. Um coçava a cabeça, outro dava gargalhada, outro chorava. Havia um que parecia ter o olhar perdido, indiferente a tudo aquilo, enquanto outro sentado gemia de pavor, encolhido abraçando as pernas.

Em seguida o levaram até a mesa munida de um computador, recoberta de pilhas e pilhas de processos. O estimulante começava fazer efeito. Os dedos do juiz digitavam com tanta velocidade que se podia ver fumaça saindo do teclado. As veias de suas mãos ficaram volumosas com o fluxo de sangue. O juiz tornava-se ofegante. Sua temperatura corporal aumentou provocando uma abundante sudorese que lhe escorria à face e molhava a roupa. Ainda assim, o meirinho lhe dava uns choques vez em quando, ordenando que aumentasse a velocidade.

O secretário do pleno debitava do boletim estatístico uma a uma as inúmeras decisões proferidas. A cada número o plenário e a platéia gritavam enlouquecidos:

- Mais um, mais um, mais um.

Depois de exatas 120 horas contínuas, o trabalho estava terminado. Sem qualquer energia vital o juiz faleceu sobre a mesa. As primeiras falanges dos dedos sumiram desgastadas pela frenética digitação. Os tendões e as articulações das mãos estavam em frangalhos. Os olhos estavam adornados por uma negra olheira. Nesse momento irrompe o recinto o médico psiquiatra daquele Tribunal:

- Seus loucos. O que vocês fizeram a esse pobre coitado? - Disse o médico apressando-se a prestar socorro, cujo paciente infelizmente jazia estirado no chão. O médico chamou por socorro e os enfermeiros de branco retornaram. Incontinente foram empurrando os desembargadores e os demais juizes em direção a uma porta que dava para um grande patio, afastando-os do morto.
Auxiliado pelos enfermeiros, o médico coloca o corpo numa padiola e dirigiram-se à viatura da ambulância, que estava no patio. Ao passarem com o defunto entre os juizes e desembargadores, registraram as reações mais imprevisíveis.

- Eu sou deus. - Gritava o presidente freneticamente.

- Eu quero números, quero números, quero números. - Repetia o corregedor sem parar.

- Eu sou a lei. - Berrava um dos juizes, ao lado de outros que diziam ser o Estado, a verdade, Napoleão, Jesus Cristo e por ai adiante.

A ambulância passava silenciosamente entre a multidão dirigindo-se ao portão de saída. Já não havia pressa, o homem estava morto.

O porteiro verificando tratar-se do médico psiquiatra, abre os portões. Deu passagem à ambulância que seguiu por uma estradinha a se perder de vista. Olhando para trás podia-se ver uma imensa construção cercada de um muro alto e branco, fechado por imensos portões de ferro. Sobre o portão podia-se ler: “Manicômio Judiciário”.

Aquele manicômio foi especialmente construído para abrigar os funcionários do Poder Judiciário que, por uma ou outra razão, perderam a razão e andavam perdidos nos labirintos da loucura. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

sábado, 18 de abril de 2009

COMEÇANDO O LIVRO PELO FIM

COMEÇANDO O LIVRO PELO FIM
Por MMendes

Anos atrás três amigos quarentões bem sucedidos se encontravam numa mesa de bar para a tradicional conversa de boteco. Depois de alguns chopps a mais perguntaram-se acerca do que fariam quando chegasse o dia da aposentadoria. Um afirmou que iria praticar ociosidade e curtir a vida com viagens, aproveitando o tempo que lhe restaria. Outro disse que mudaria radicalmente de profissão e recomeçaria tudo novamente. O terceiro amigo, que se chamava Giuliano Kepler, para espanto geral, afirmou com uma cara marota que sonhava em ser “lover boy”, um garoto de programa.
“Lover boy” depois dos 60 anos? Vai gastar toda a aposentadoria em medicamentos para impotência e estimulante sexual. Ironizaram os amigos, caindo na gargalhada.
Giuliano riu-se também, achando graça da idéia, embora la no fundo do coração alimentasse uma vontade reprimida de romper com a rotina de sua vida. Apesar de ser um profissional bem sucedido do alto escalão do governo, sua vida pessoal era um tanto conturbada. Acumulava um casamento desfeito, muitos namoros mal sucedidos e não tinha filhos. Era uma pessoa tímida e formal. Podia-se ver isso em seu vestuário, na maneira erudita de falar, no corte de cabelo e no comportamento convencional. Era uma personalidade rígida, totalmente incompatível com o que se espera de um garoto de programa.
Apesar de não ter o menor dom para a pretensa profissão, sem saber o por quê, Giuliano alimentava mesmo essa fantasia. Penso que na verdade, sentia-se infeliz e incompleto. Com tal transgressão buscava escapar da prisão emocional em que se meteu. Para isso era preciso romper com os muros que o cercavam. Era preciso uma revolução em sua forma de ser. Sua alma clamava por socorro:
Oh! Quem poderá me socorrer? Em sua fantasia, logo saltava à frente o herói dos heróis. Irreverente e extrovertido. Alguém capaz de dar um sentido à sua vida vazia, de preenchê-la de novidades e alegria. De arrancar aos gritos, o delirante amor da mulheres. O super “lover boy”.
O tempo passou e finalmente chegou o dia da aposentadoria. Parecendo seguir um ritual secreto, Giuliano foi até o shopping. Comprou umas roupas transadas. Ternos e gravatas nunca mais. Voltou para seu apartamento e foi até o guarda-roupas. Arrancou com força todas as roupas que lembravam o passado, embolou tudo com os vários sapados de cromo alemão, colocou tudo num saco preto e dali para a lixeira. Depois, voltou-se para o guarda-roupas quase vazio. Passou a dependurar as novíssimas peças que comprou no shopping. Um misterioso sorriso desenhava-se em seus lábios e um fulgor lampejava nos olhos. Seu closed seria, dali em diante, um espécie de batcaverna. Ali o misterioso personagem, que naquele instante incorporava, sairia a se esgueirar pelos motéis e pelas camas das moçoilas e senhoras, a procura de aventura, amor e sexo.
Pouco depois entrou na internet, acessou a página do maior jornal da cidade e plantou um anunciou:”- Prazer e sexo animal. Ligue para Super Lover Boy”, deixando para contato tão somente o número do novo celular que acabara de adquirir, nada mais. No fechar da tarde do dia seguinte, nada ainda. Nenhuma ligação. De tempos em tempos Giuliano olhava o celular para saber se não havia alguma chamada perdida. Estava ansioso.
De repente, seu celular tocou. Um frio percorreu sua espinha de cima para baixo, terminando numa leve pontada na região lombo-sacral. Seu coração disparou. Respirou fundo três vezes temendo um ataque cardíaco porque seu colesterol andava meio alto e a pressão arterial meio desajustada. Suas pernas ficaram tão bambas que chegou a sentir dor nos ossos do joelho. O tremor de suas mãos, lembrando mal de parkinson, quase não permitia que apertasse a tecla “accept” do celular. Esses sintomas se justificavam porque era um homem de 65 anos de idade, recém aposentado. Mas, afinal de contas, o futuro estava ali em suas mãos, pronto para entrar e mudar sua vida. Segurou firme e atendeu o celular dizendo:
“- Lover Boy pronto para o prazer, a sua disposição.”
Do outro lado da linha, uma voz sensual. Parecia mais o miado de uma gata no cio, sussurrando, pedindo sexo. Giuliano não conseguia se conter. Finalmente haveria de fugir dos muros da prisão em que se encontrava e a chave da porta do cárcere estava ali, do outro lado da linha. Aquela voz sensual, ainda sem nome, lhe deu um endereço e pediu urgência na entrega da mercadoria. Sem perder tempo, tomou banho, colocou uma daquelas roupas transadas, perfumou-se. Por causa do costume, penteou cuidadosamente o cabelo até que nenhum fio estivesse fora do lugar. Olhando-se no espelho viu seu passado refletido. Num ato de fúria descabelou-se apressadamente. Os cabelos foram assentados com as próprias mãos. Afinal, era um homem irreverente de agora em diante, nada de pentear cabelos. Ah! Evidentemente tomou aquele comprimidinho estimulante sexual para ajudar e garantir que não falharia na hora “H”.
Enquanto dirigia seu carro a caminho do encontro, Giuliano sonhava com a cliente de voz tão sensual:
Seria uma atendente de tele sexo? Que bobagem a minha. Pensou ele.
Deve ser uma gatinha toda queimadinha de sol, com aquelas marquinhas brancas de biquini. Ou seria uma loiraça de pele e pelos absolutamente alvos? Quem sabe uma morena quente e transada, cheia de curvas delirantes? Permitiu-se ir tão longe em pensamento, que quase sentia-se cansado só de pensar.
Do outro lado da cidade, num apartamento de classe média, uma mulher de quase 60 anos, ligeiramente pintada, vestia um babydoll preto. Fazendo conjunto, uma tanguinha tipo fio dental exibia umas plumas sobre o Monte de Vênus e as várias celulites de suas nádegas. Uma cinta liga apertava suas coxas brancas e flácidas, marcada de discretos vasinhos de varizes. Seu babydoll esvoaçante mostrava a barriga saliente. Era Cleideonora, a misteriosa cliente de Giuliano que se aprontava para o encontro. Ela também alimentava sonhos de encontrar um amante jovem para aplacar sua solidão. Em sua imaginação idealizava o Lover Boy um moço viçoso e sedutor. Dono de um corpo moreno latino, com tatuagem estampada no braço musculoso, cheio de amor para dar. Aquela era a primeira vez que contratava um garoto de programa. Seu marido havia falecido quando muito jovem. Desgostosa da vida, sem filhos, aquietou-se em seu apartamento até a velhice chegar. Naquele dia estava decidida a mudar de vida e recuperar o tempo perdido.
Chegada a hora marcada, toca a campainha do apartamento de Cleideonora. Apressou-se ansiosa em dar umas esborrifadas de perfume sobre a cama e correu para atender a porta:
Quem é? Perguntou ela.
Seu Lover Boy. Respondeu ele.
Parecendo ouvir um concerto de violinos, ajeitou o busto, fez uma pose sensual e com olhar matreiro abriu vagarosamente a porta. Giuliano e Cleideonora ficaram frente a frente. Foi uma decepção mútua, estampada no semblante dos dois amantes. Os violinos que Cleideonora ouvia tocaram notas desarmoniozas e dissonantes, soltas numa desafinada melodia, cujo som foi se apagando para dar lugar à indignação:
Você é o Super Lover Boy? Você está mais para velho bode do que para Lover Boy. Pode ir embora, estou cancelando o pedido.
Encarando definitivamente o personagem, Giuliano asseverou:
Desfeito o negócio? Não quero nem saber. Atendi seu chamado e fiz o deslocamento, exijo o pagamento integral, sua velha caloteira.
Assim começou uma discussão ali na porta do apartamento. Com medo da vizinhança, Cleideonora sussurra fazendo sinal para que o Lover Boy entrasse no apartamento. Queria a discussão longe dos ouvidos dos vizinhos. Uma vez lá dentro, lançaram ofensas reciprocas até que Cleideonora perdeu a razão e partiu para cima de Giuliano na tentativa de arranhá-lo. Ela sofria de labirintite e perdeu o equilíbrio. Caiu sobre a mesa lateral da sala derrubando o abajur, que espatifou-se no chão. Na tentativa de esquivar-se do arranhão, Giuliano tropeçou no tapete e caiu sobre o sofá que tombou. Lover Boy foi arremessado e saiu rolando pelo chão.
Cleideonora não conseguia manter-se em pé. Precisava de seu remédio da labirintite. Giuliano deu mal jeito na coluna e andava com dificuldade. A pedido de Cleideonora ,Giuliano foi até a cozinha pegar o remédio de labirintite e um copo d´água. Depois ajudou-a a sentar-se na poltrona do sofá. Enquanto isso Giuliano tomou um analgésico anti-inflamatório, depois que Cleideonora agradecida, lhe prescreveu o medicamento.
Enquanto se recuperavam daquela batalha, Cleideonora perguntou qual o motivo dele tornar-se um garoto de programa? Então ele contou sua triste história e disse que aquele era seu primeiro dia de trabalho nessa nova atividade. Do mesmo modo ele perguntou qual a razão dela seguir essa vida de desfrutes? Ela também contou sua história triste. Disse que aquela era a primeira vez que havia solicitado esse tipo de serviço.
Ficaram horas conversando, mal perceberam o tempo passar. Ambos descobriram que além de uma triste história, tinham muitas outras coisas em comum. Com isso se enamoraram. Deitaram-se na cama de casal e passaram a noite juntos, abraçadinhos, apenas olhando-se nos olhos, parecendo que um cuidava do outro. Dormiram embalados pelo silêncio eloqüente daquela noite inesquecível. Tanto se reconheceram um no outro que resolveram morar juntos.
Giuliano e Cleideonora descobriram que o amor desabrocha também na terceira idade. Na verdade não há idade nem para amar nem para recomeçar, pois cada dia que nasce é um novo recomeço e uma nova oportunidade para amar. Descobrir o amor na terceira idade é como ler um livro começando pelo fim, surpreendendo-se com o início da estória.

domingo, 29 de março de 2009

ALZHEIMER

ALZHEIMER
* Por MMendes

Olhando aquele corpo moribundo de boca murcha e desdentada, tentando morder a própria língua, não há como imaginar que já foi cobiçado pelos homens e invejado pelas mulheres. O brilho de seus olhos azuis flamejantes é a única expressão de comunicação. Não anda, não fala, não gesticula, não se alimenta sozinha. Parece que sua alma está deixando o corpo aos poucos. Seu punho fechado e os músculos do antebraço contraídos, parecem ter-se agarrado à vida com medo dela se desprender. Seus pés possuem movimentos involuntários, como que flutuando no ar. Foram amarrados à cama, talvez na tentativa de mantê-la presa à terra.

A enfermeira senta-se a beira de sua cama e lê um trecho de um livro qualquer. Mas, o olhar de Elza se perde no infinito, como quem está com o pensamento muito longe. Talvez buscando uma saída do labirinto em que se encontra, feito pelos corredores de vazios criados pelo desfibrar de sua rede neural. De vez em quando parece encontrar uma saída fazendo foco em alguém. Nesse momento seus olhos fazem água, sua boca treme e um murmúrio rouco rompe a garganta, como se pedisse socorro. Instantes depois, perde novamente a sintonia como que abduzida para o vazio de sua mente.

Seu olhar perpassa os corpos das pessoas, menos o da enfermeira e do marido. Estabelecem conversa pela flutuação do brilho dos olhos. É como um código morse de luzes intermitentes que só eles entendem. Penso que seja um código de amor que só os enamorados conseguem decifrar. O marido cuida de seu corpo, como os embalsamadores preparavam os corpos dos faraós para a eternidade, na esperança de que, depois de terem vencido a morte, retornassem a vida em algum momento. Pede que a enfermeira pinte cuidadosamente suas unhas de vermelho e que deixe suas sobrancelhas finas e arqueadas, retirando o excesso de pelos, como Elza gostava. Também não descuida de mudar sua posição no colchão de água, para que não forme escaras. Ao menor sinal de febre ou expressão de dor, socorre-se do médico da família que a visita semanalmente.

As memórias de Elza se vão como luzes de apartamentos de um edifício apagando-se uma após a outra, até que fique em total escuridão. A evolução da doença sugere que esse apagão segue uma ordem. No início o paciente esquece algumas palavras ou deixa pensamentos inacabados. Passa a esquecer fatos antigos e recentes. A medida em vai progredindo, o portador do mal de Alzheimer se esquece do tempo, se esquece de falar, se esquece dos familiares e por fim, se esquece de comer, de beber, de ir ao banheiro e no final, de viver.

Os médicos dizem que ainda não se descobriu a causa da doença e portanto não tem tratamento. Acho que Elza contraiu essa doença da própria história e do próprio tempo. A vida de cada um de nós é como um neurônio da história e poucas pessoas conseguem ser lembradas. A maioria morre e não deixa nenhum lembrança ou marca. Ao morrer toda aquela vida se apaga, tal qual ocorre no cérebro de Elza por causa do Alzheimer. Quem se lembra quem foi seu antepassado da 10a. geração? E da 5a. geração? Um grande número de pessoas não sabe nada sobre seus avós, quem foram, de onde vieram, o que fizeram. O povo não guarda na memória as mazelas dos políticos. Também os heróis e os artistas descansam esquecidos. Somos um povo sem memória, somos uma nação com Alzheimer.

A vida é um elo entre extremos. Nascimento e morte, bem e mal, certo e errado. Como a vida não se posiciona nos extremos, mas antes é o elo entre eles, tudo que é ruim tem um lado bom e o que é bom, revela seu lado ruim.

Quando detinha alguma capacidade motora, um dos primeiros testes em que reprovou foi o de desenhar um relógio. Se esquecia de colocar os ponteiros. Isso significa que a consciência de Elza perdia noção de tempo. Sem passado, nem presente e nem futuro, presa no limbo entre o infinito primordial e o terminal. Antes da doença era metódica, muito responsável e cheia de obrigações. Acordava logo de manhãzinha pegava seu material de trabalho e ia para a escola dar aulas. Tinha uma carga horária extensa, umas 15 horas de trabalho por dia. Só parava tarde da noite. Para quem não tinha tempo para nada, o tempo agora não tem mais ponteiros. Elza que sempre foi uma pessoa apegada a compromissos, finalmente se livrou deles.

Quando, ainda, sabia falar, já havia se esquecido da relação de parentesco. Uma vez foi perguntada que parentesco teria com sua irmã Marleide. Não se lembrava. Procuraram relembrá-la, então ela disse: “- Ah! É minha irmã!”. Logo em seguida questionaram sobre o parentesco com o marido e ela disse: “-É meu irmão também”. Elza era filha de pais separados e nutria uma profunda mágoa do pai por causa da separação. Finalmente a doença a fez esquecer do parentesco e com isso, acho eu, apagou suas mágoas para sempre. Evidentemente, devido a natureza da doença, no lugar da mágoa ficou um vazio que não foi preenchido. Também haviam desaparecido as paixões carnais subsistindo, entretanto, o mais puro amor pelo marido, que era fraternal.

Elza vive presa numa fração de tempo infinito. Podemos ver em seu olhar o desejo de viver e a luta que trava contra a morte. A única janela acesa no edifício cerebral de Elza é a janela do amor. O amor é a pedra fundamental onde é edificado tudo o que somos e, por isso, é a última coisa a se apagar no cérebro humano.

Benedito Spinosa, filósofo holandês, ensina que o “homem livre não pensa em nada a não ser na morte; e a sua sabedoria é uma meditação não sobre a morte, mas sobre a vida”. Pensar a morte, por mais paradoxal que seja, é o que dá sentido à vida. Aquele que encara a morte, corre para a vida. Elza descobriu, enfim, o sentido da vida.