sexta-feira, 28 de setembro de 2018

PABLITO, o cupido

PABLITO, o cupido.
*Marco Mendes


Pablito é filho único e, em algumas situações, carece de companhia para suas brincadeiras. Isso fez com que Pablito se aproximasse do titio que, em face dessa grande amizade, passa horas jogando videogame com o sobrinho. Certa vez, enfatizando isso Pablito afirmou com bom humor:

- "De todos eu gosto mais do tio Guilherme, mas pêssego ninguém supera". Criança tem cada uma.

Em outra ocasião, Pablito desabafou:

- Eu não quero que o titio se case nunca!

- Por que Pablito?

- Se ele casar ele vai morar em outra casa e eu não vou mais jogar videogame no quarto dele.

Mas, passados uns minutos Pablito repensou o assunto:

- Pensando bem, vovó, seria até bom que o titio se casasse. Assim ele poderia ter um filho que seria meu amigo.

Recentemente Pablito descobriu que o titio arrumou uma namorada, mas queria ter certeza se era namorada mesmo.

Então começou a fazer um rol de perguntas ao titio:

- Titio aquela moça que você está saindo é sua namorada?

- Sim Pablito, é minha namorada.

- E o que você fica fazendo com ela?

- Eu fico assistindo filme, jogando videogame, conversando.

- E o que mais? Então o titio sorriu e fez silêncio.

- E o que mais? Me diga?

- Você beija ela na boca também?

Fico aqui pensando com meus botões: Acho que Pablito está torcendo por um novo amigo.

PABLITO, a cura do amor ferido

PABLITO, a cura do amor ferido.
*Marco Mendes


Ao entrar no carro de volta da escola, vovó perguntou ao Pablito o que havia aprendido naquele dia. O menino respondeu:

- Descobri que o abraço e o beijo são a cura do amor!

- Você aprendeu isso na escola?

- Não vovó, eu estava lá no “play” e foi minha cabeça que pensou isso.

Os seres humanos possuem dimensões invisíveis que quando feridas apagam todos os sentidos, inclusive o da vida. Perdemos a capacidade de ver as cores, de ouvir o canto da felicidade, de sentir a própria alma, de inalar o perfume da alegria. As manhãs, as tardes e as noites perdem seus encantos. Desaprendemos a contar os dias à espera da chegada da felicidade. Nos esvaziamos dos outros, ficamos a só. E quando o espírito padece, o corpo adoece. Então necessitamos de cura. E quão grande é a procissão a pedir a cura do corpo e da alma, canta Roberto Carlos.

“Quando o amor está ausente, a nossa vitalidade hiberna.O amor é o verdadeiro despertador dos sentidos”, disse Padre José Tolentino Mendonça em seu livro 'A Mística do Instante'.

Mário Quintana diz que “o amor é quando a gente mora um no outro”, e com certeza entramos nessa morada pelo abraço e pelo beijo. “Me abrace, que no abraço mais do que em palavras, as pessoas se gostam”, professa Clarice Lispector. O beijo nunca é apenas um beijo... George Sand, importante novelista francês do século 19 dizia que "o beijo é uma forma de diálogo”.

As crianças possuem mesmo livre entrada no Reino dos Céus. Aí está a razão da vovó ter ficado tão admirada da descoberta do netinho. Tão jovenzinho, ao lado de grandes poetas, pensadores e espiritualistas, Pablito já conhece o poder de cura do abraço e o beijo.

Acho que a volta do Salvador vai ser assim, aos poucos, quase imperceptível, de dentro para fora, fluindo do espirito humano para o mundo, da palavra bendita para a vida. Assim como o brotar manso e suave de uma sementinha que desabrocha no coração das crianças, a salvação do amor ferido neste mundo virá pela cura calma e serena do beijo e do abraço.

PABLITO, meu vovô está de volta

PABLITO, meu vovô está de volta

*Marco Mendes

O vovô trabalha em uma cidade distante de sua residência e só retorna para casa no final de semana. Ao retornar, todas as vezes sem exceção, Pablito está esperando com um largo sorriso à porta da garagem. Mal espera vovô desligar o carro sai correndo e pula em seu colo, lhe dá um grande abraço e diz:

- Vovô eu te amo.

A frase “eu te amo” foi a primeira frase que vovô ensinou ao netinho quando ele ainda balbuciava. Essa frase se consolidou em sua boca junto com outra: “Você é o melhor vovô do mundo”. Os laços que unem netinho e vovô transformam aquele abraço no verdadeiro abraço da paz: “Chegastes! Foste embora minha saudade, agora posso viver em paz”; “Estou de volta, teu abraço resolveu todos os meus conflitos e meu espírito está em paz”, parecem dizer um ao outro.

Muitas vezes, depois que vovô saía em viagem, o netinho ficava com muita saudade que até chorava.

“Quando gastamos tempo demais a viajar, tornamo-nos estrangeiros no nosso próprio país”, afirmou o filósofo René Descartes. Vovô passa tanto tempo viajando que quase se sente um estrangeiro em sua própria casa. Somados os dias de viagem, podemos dizer que nesses últimos cinco anos vovô viveu três anos de infinita saudade do netinho. É muito tempo longe do netinho. “Um único ser nos falta, e fica tudo deserto”, disse o poeta francês Alphonse de Lamartine. Mas, todas as vezes o abraço de Pablito fazia o vovô sentir-se acolhido em sua própria casa. A saudade é doída, mas o encontro é consolador.

Depois de anos viajando, finalmente vovô foi transferido de volta para a cidade onde a família mora com o netinho. Quando a vovó disse isso ao menino, ele exclamou:

- Vovó, sabe o que isso significa? Que a gente não vai sentir tanta falta dele mais!

“Esperei por tanto tempo, esse tempo agora acabou. Demorou mas fez sentido, fez sentido que chegou”, canta Nando Reis.

O coração do vovô está em festa porque volta para casa com alguém à sua espera. Vovô e netinho, as duas metades agora estão completas.

PABLITO, o tempo é relativo

PABLITO, o tempo é relativo.
*MMendes



O vovô saiu segunda-feira para trabalhar em Dourados e o netinho ficou em Campo Grande. Pablito ficou tanta saudade que até chorou. Na quinta-feira o vovô avisou a vovó que estava retornando.

- Tá saindo agora! Quantas horas o vovô vai demorar para chegar nesse país? Exclamou Pablito.

A viagem de Dourados a Campo Grande demora umas três horas. Quando o vovô chegou o netinho estava esperando na garagem.

- Vovô, você demorou um século. Eu fiquei com saudade!

Quando estamos com saudade o tempo não passa. Aqueles quatro dias longe do vovô pareciam uma eternidade. Acho que a saudade é uma coisa capaz de parar os ponteiros do relógio. Embora o menino não soubesse muito contar o tempo, sua pontualidade era de espera. “Se você não se atrasar demais, posso te esperar por toda a minha vida”, reza o escritor britânico Oscar Wilde.

Com pressa o netinho correu para o colo do vovô e abraçou seu pescoço. Ficou algum tempo com a cabeça recostada em seu peito, enquanto vovô o envolvia com seus braços e o enchia de beijos. Ah, quanta saudade! “Cheguei a uns dois minutos e já te amei mais de um milhão de vezes”, pareciam dizer um ao outro. O tempo é de fato relativo. Cada dia é por si só uma vida inteira, dizia Sêneca.

Ficar longe das pessoas que amamos nos deixa com quase nada. Mas, o simples reencontro nos faz sentir repletos de tudo. “Não chore nas despedidas, pois elas constituem formalidades obrigatórias para que se possa viver uma das mais singulares emoções da vida: O reencontro”, disse o piloto Richard Bach. E como é bom te reencontrar meu netinho. Obrigado por sempre me esperar, porque um dia qualquer, desses tantos que já se foram, eu vou voltar. Desse dia em diante, por todos os minutos de minha vida te reencontrarei.

*P.S. Esse dia enfim chegou, para que saibas, meu netinho, que sempre direi a verdade e o que prometo eu cumprirei!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

PABLITO, os últimos serão os primeiros


PABLITO, os últimos serão os primeiros.

*Por Marco Mendes


Depois de ouvir uma leitura de uma passagem da Bíblia, Pablito questionou o vovô:

- Por que os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros?

O menino parecia confuso, porque essa assertiva quebrava a lógica do merecimento, apresentando-se como uma injustiça ao vencedor.

Diante de profunda questão filosófica vovô silenciou. Era preciso estudar e meditar. Vovô precisava não só de uma resposta, mas que a resposta fosse clara e simples, a ponto de Pablito pudesse compreender. Seria possível que a pergunta fosse tão elevada a ponto do espírito de uma criança não poder alcançar a resposta? Vovô se lembrou de um provérbio que diz “O sábio ouvirá e crescerá em conhecimento, e o entendido adquirirá sábios conselhos”.

A pergunta de Pablito nos remete à forma de como nos relacionamos uns com os outros. Se o outro é visto como um concorrente, sou competitivo. Se o outro é visto como um aliado, sou cooperativo. Há um enorme abismo social num mundo bipolar dividido entre os primeiros e os últimos. Poucos são os vencedores abastados e muitos os vencidos desprovidos de quase tudo.

A assertiva contida na pergunta de Pablito propõe que a grande vitória da humanidade é acabar com as desigualdades sociais, cooperando uns com os outros para que os excluídos possam superar as barreiras, sejam elas sociais, morais, econômicas, físicas ou intelectuais, construindo uma ponte que nos leve a um mundo mais inclusivo, igual e fraterno.

Acho que é isso meu querido netinho. Devemos nos cuidar para que nosso egoísmo e nossos próprios interesses não sejam os primeiros a subir no pódio, deixando por último as outras pessoas e todo o resto da Criação. No final somos todos iguais em tempos diferentes, pertencemos e dividimos a vida no mesmo planeta.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Pablito, a força da oração


PABLITO, a força da oração
* Por Marco Mendes


- Vovô, essa noite eu não dormi bem.

- É mesmo querido! Por que?

- Eu não escutei você rezar, vovô.

Todas as noites vovô fica com Pablito no quarto até que ele adormeça. Enquanto o menino mama, vovô reza por todos, inclusive por ele.

Nessa noite Pablito adormeceu assistindo televisão e o vovô o levou para seu quarto. Vovô fez sim suas orações, mas como Pablito estava dormindo, não escutou.

Muitos podem não crer na força de uma oração, mas a oração original que brota do coração gera força suficiente para mudar o destino do mundo. E como o mundo precisa da energia de uma oração, muito mais do que a energia das batalhas. “Aqueles que oram fazem mais pelo mundo que aqueles que lutam; e se o mundo vai de mal a pior, é porque existem mais batalhas do que orações", disse o oficial norte-americano George S. Patton.

Pela oração alcançamos os ouvidos de Deus sussurrando uma prece pela abertura na alma, buscando alcançar o intangível para realizar o impossível. Nem as lágrimas, nem as velas acesas, nem as flores sobre o altar possuem a força de uma pequena oração, pois só a oração é capaz de transcender e chegar ao trono de Deus.

Nunca abandone a oração porque não consegue orar, pois é justamente nos momentos em que as palavras nos faltam e nos sentimos sem forças, debilitados, fracos é que são feitas as verdadeiras orações. Deus ouve até o silêncio de nosso coração.

Pelo jeito as orações do vovô fazem bem ao Pablito. Quando a oração penetra o coração humano quebra o véu que separa a Terra e o céu, aí sentimos o poder da presença de Deus e tudo o que era impossível pode acontecer.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Pablito, a quase invisível gratidão


PABLITO, a quase invisível gratidão.

*Por Marco Mendes

Sempre que Pablito vai à missa fica ansioso esperando o momento depois da comunhão, quando os acólitos distribuem pãezinhos às crianças. As crianças a princípio deveriam atender ao apelo de ficarem em fila, mas nem sempre isso acontece.

Pablito sempre obedece uma fila imaginária e fica esperando até que alguém lhe ofereça o pão.

O pãozinho tem um formato espiralado. De posse dele, repetindo uma brincadeira do vovô, o menino brinca e sorri colocando o dedinho por baixo como se o pãozinho fosse um caracol. Depois oferece um pedaço para o vovô e para a vovó.

No último domingo quem serviu os pãezinhos foi uma conhecida da mamãe de Pablito. Ela comentou que ele foi a única criança a dizer “obrigado” quando recebeu o pãozinho.

Atitudes quase invisíveis como o ato de agradecer é que dão formato a todas as coisas visíveis, pois o mundo é um reflexo daquilo que é invisível. Palavras e atitudes constroem pessoas e coletividades, que por sua vez dão vida à realidade que nos cerca.

O caráter de uma pessoa grata revela que ela é fiel e por isso nunca nos abandonará. Uma pessoa grata é uma pessoa em quem se pode confiar.

Atualmente agradecer é uma atitude quase em desuso, um valor à margem da nossa cultura moderna. Talvez porque o orgulho tenha sufocado também a humildade. A gratidão é o único tesouro dos humildes, que com gratidão pagam a todos que lhes servem. Como disse Charles Chaplin, nesse mundo conturbado e louco em que vivemos, necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Pois sem isso, a vida se torna violenta e tudo se perderá.

Pablito, embora pequenino, sabe que o pão é sagrado, porque é fruto de um conjunto de esforço daqueles preparam o solo, plantam, colhem, trabalham os grãos, assam a massa e o repartem para o bem de todos. Que a entrega de todo esse serviço se paga com o agradecimento.

Meu netinho ali na missa demonstrava uma quase invisível gratidão, invisível aos olhos apressados de muitos homens e mulheres que já não se lembram de ensinar os filhos a esperarem a vez e agradecer aquilo que recebem. Mas não passou desapercebida por uma mocinha, que com olhos ternos, viu numa fração de segundos, a eternidade da grandeza do valor da gratidão.

O Reino de Deus é assim pequenino como o sussurro tímido de agradecimento de uma criança, que cresce no coração da gente e nos enche de amor e esperança.