segunda-feira, 14 de março de 2016

Pablito pão e vinho


PABLITO PÃO E VINHO

*MMendes

- Essa não é a nossa igreja, né vovô?

- Sim, estamos numa outra igreja. Por que está perguntando Pablito?

- É que o papai do céu está muito escuro lá em cima. Eu não consigo ver o seu dodói. Disse o menino.

Vovô e Pablito foram à missa numa outra igreja. Atrás do altar havia um Cristo crucificado esculpido em madeira escura. Realmente não dava para ver claramente os ferimentos. Na outra igreja que Pablito frequentava havia uma imagem em gesso onde os ferimentos eram muito mais vivos. A imagem do Cristo crucificado é mesmo chocante. Impressiona por mostrar como nós humanos podemos ser malvados e muito cruéis. Então o vovô levou Pablito mais perto do altar onde ele pode conferir os ferimentos.

- Quem fez isso com o papai do céu? Perguntou a criança.

- Foi o homem? Respondeu vovô.

- Onde está esse homem vovô? Inquiriu o menino indignado.

Sem saber como responder aquela pergunta tão profunda e complexa vovô resolver resumir:

- O homem que fez isso está no mundo.

- No mundo? A palavra mundo não fez muito sentido para Pablito. Então vovô resolver resumir mais um pouco.

- No mundo, isso é, ele está lá fora. No mundo. Entendeu?

Nesse momento Pablito olhou para um homem que estava encostado no batente da porta de entrada e perguntou:

- Foi aquele homem ali? A coisa estava ficando complicada para o vovô.

- Não querido! As pessoas que estão aqui e também aquele homem que está na porta não mataram Jesus. O homem que fez isso está lá fora da igreja, mas não se sabe quem ele é e nem onde ele está. Só o reconhecemos quando vemos ele praticando sua maldade. Disse vovô tentando descompactar em vão o resumo.

- Vovô, eu preciso encontrar quem fez isso com Ele!

Todo coração puro de criança quer tirar o Cristo da cruz, saciar sua fome e sua sede. Há meu amiguinho, quando descobrir que o inimigo é interior poderá encontrá-lo. E quando com ele tiver aquela conversa difícil, perdoe-o, pois assim poderá perdoar-se também. Perdoando-se mutuamente, você e teu inimigo convertido poderão tirar os cravos das mãos e dos pés do Cristo e cuidar de suas feridas.

terça-feira, 8 de março de 2016

Pablito, o contador de estórias

PABLITO, O CONTADOR DE ESTÓRIAS

*Por MMendes

Pablito nasceu escutando as estórias do vovô. O menino é um grande desafio à imaginação. Contos da Carochinha? Qual nada. Está mais para Pablito mil e uma noites. Pede estórias mil. O problema é que não são estórias já contadas, gosta daquelas inventadas. O menino dá o tema e toca o vovô sair correndo atrás de ideias para tecê-las na imaginação e contar uma estória inédita. Sabe, daquelas que nunca foram contadas? Pois é, essas mesmo!

- Vovô, conta a da menininha que tinha medo do Bicho Papão. Agora conta a historinha do cavalinho que tinha medo do dragão. Vai seguindo um rosário de temas com um elemento comum, o medo. Exige estórias ilustradas com palavras, gestos, sons e muito, mas muito medo. Contudo, no final tem que terminar com “e foram felizes para sempre”. Se as estórias forem água com açúcar, logo interrompe e pede outra. Tem que ser cheia de energia, vibrante. A sorte é que o vovô também cresceu ouvindo estórias de seu avô Aleixo. Por isso aprendeu improvisar bastante e explorar a imaginação de seu neto.

Na sexta-feira Pablito retornou eufórico da escola. Saiu correndo com um livrinho nas mãos.

- Vovô, olha só o que eu ganhei! Um livrinho de estorinha. A professora explicou ao vovô que todos os alunos haviam recebido um livrinho e na segunda-feira um deles seria sorteado para narrar aos coleguinhas.

Assim que chegou em casa, mal deixou a mochila num canto, lançou mão do livrinho e convidou o vovô para contar-lhe a estória. Era uma bela estória escrita com rimas, contando como era o dia na Fazenda Bem-Te-Vi. Era mais ou menos assim, só que muito mais rimada: O sol iluminando o chão da estrada, enquanto o galo garnizé com seu quiquiriqui despertava a bicharada. Os pintinhos correndo pelo terreiro, ciscando atrás de bichinhos. Depois daquela algazarra, nenhum bicho dormia mais, cada qual no seu idioma passando horas e horas numa conversa fiada. O porco oinc, oinc! A cabra bé bé e a vaca com seu mú mú não arredava o pé. A pata choca com seus patinhos na lagoa, nadavam numa boa. A Dona Tiana tirando o leite, Rosinha recolhendo os ovos para fazer bolos, tortas para o deleite ….  “- e brigadeiros”, gritava Pablito toda vez que chegava nesse ponto. Não estava escrito brigadeiro, mas o fato é que ele adora essa guloseima. Também tinha o Zeca e seu cavalo Pé de Vento indo até a cidade, que da rotina de todo dia, era um acontecimento.  [Desculpem as rimas, mas não resisti].

Estudou o livrinho muitas vezes, na sexta-feira e no sábado. Pablito não dava trégua, queria devorar o livro. Pegava seus bichinhos de plástico, a vaca, o porco, a cabra, o cavalo, o galo Carijó e a Galinha Pintadinha e no teatro da imaginação era o diretor de cada cena. No domingo a mamãe e a vovó também leram com ele o livrinho.

Quando chegou a segunda-feira a ansiedade do menino era tamanha que levantou de primeira, vestiu-se sem reclamar. Tomou sua mamadeira, pegou a mochila, subiu no carro sozinho e sentou na cadeirinha, enquanto a vovó admirada colocava o cinto de segurança no menino. E lá se foram para a escola cumprir sua primeira tarefa.

No final da aula daquele dia, a professora chamou a vovó e elogiou o menino. Disse que havia contado a estória com tanto entusiasmo que os amigos adoraram. Saiu-se muito bem na  primeira lição. No outro dia, a mãe de uma amiguinha chamando a vovó de lado, disse que sua filha havia elogiado muito o Pablito. Que em casa ela contou para todos a estorinha que ouvira do coleguinha na classe, mas lastimou que o avô morava distante e não podia ensinar-lhe as estórias como o vovô do Pablito ensinava.

Nascia naquele dia mais um contador de estórias. Quando as estórias passam de avô para avô, felizes mesmo são os netos, até mesmo porque quando esses netos tornam-se avôs e avós, ao contar as estórias para seus netos, sabem da raiz de onde vieram e sentem-se mais repletos.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Pablito, édipo filho.


PABLITO, ÉDIPO FILHO.

*Por MMendes.

Naquele domingo Pablito quase não ficou com a mamãe. De manhãzinha foi à missa com os avós maternos. Depois do almoço passou boa parte da tarde com o pai. No início da noite sua mãe se despediu do menino com um abraço e entrou no carro da amiga. Foram jantar fora. Pablito ficou com as mãozinhas grudadas nas barras da grade da rua olhando-a partir. Depois de alguns instantes começou a andar de um lado para o outro no jardim esbravejando:

- Tô com ciúmes da minha mãe. Ela saiu com a Maju e não me levou para jantar. Vou mandar um tricerátopes devorar ela. Vou subir num pássaro gigante e vou atrás dela. Eu vou virar um super-herói e vou voando. Colocava os braços para trás como um super-herói segurando a capa e corria pelo jardim como se estivesse voando pelo céu.

Estava inconformado com a saída da mãe. Então o vovô foi até ele e disse:

- É melhor você ligar para sua mãe e falar tudo isso para ela. Pegou o celular e ligou. Quando a mamãe atendeu, Pablito rasgou o verbo. Pronunciava as palavras com tanta energia e velocidade que não era possível entender nada, apenas notar que ele estava muito bravo.

Do outro lado a mamãe respondeu: - Não estou entendendo o que você está falando!

O menino repetiu tudo com a mesma energia e mesma velocidade. Ela respondeu de novo: - Não estou entendendo o que você está falando!

Então ele falou pausadamente: - Estou com ciúmes de você. Você não me levou para jantar!

Mamãe riu-se e disse: - Logo, logo a mamãe volta. Tá bom?

Ao ouvir a voz de sua mãe prometendo voltar desistiu de atacá-la. Imediatamente recolheu o tricerátopes, o pássaro gigante e sua capa de super-herói.

- Tá bom mamãe! Respondeu com uma vozinha doce de criança.

Somos todos assim. Usamos a armadura da raiva para esconder que somos pequenos e carentes. Basta um pequeno gesto de carinho para que toda couraça se transforme em abraço daqueles que dizem: "Nunca mais me deixe aqui sozinho, porque eu sofro sem você".

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Pablito e o padre

PABLITO E O PADRE
* Por Marco Mendes

Pablito era tão pequeno, que podia-se dizer que era um pagão de fato, embora batizado por insistência dos avós, seus padrinhos. Não sabia muita coisa de Deus, tão pouco das obrigações religiosas, rituais e sacramentos. Seu conhecimento mais profundo sobre religião resumia-se em chamar o menino Jesus de "bebê Jesus". Apenas era assim, feliz, alegre, bem humorado.

Certo dia o Padre Oralino, que o havia batizado, foi visitar a família. Ao entrar em casa o menino perguntou ao vovô:

- Quem é esse aí?

- É o padre Oralino. Ele te batizou!

- Oi “padro”, tudo bem? Perguntou o menino. Penso que ele achou que “padro” cairia melhor por ser nome masculino. Com certeza o Pablito não sabia o significado de ser um padre, nem mesmo o que seria um batismo. Embora não reconhecesse qualquer autoridade, seu pequeno coração de criança, livre de preconceitos, mágoas e protocolos, pode recebe-lo simplesmente como um amigo da família.

- Tudo bem e você? Respondeu o sacerdote.

- Eu estou aqui, brincando com meus brinquedos. Daqui a pouco vou sair para visitar minha outra vovó. Em seguida a essa pequena apresentação fez um monte de gracinhas para chamar a atenção.
Em alguns minutos a mamãe apareceu e o chamou, dizendo que o papai estava esperando para irem até a casa da outra avó.

Então Pablito foi até o padre e deu-lhe um abraço e um beijo no rosto. É curioso como as crianças possuem um coração acolhedor. Conheceu o padre naquele dia e o tratou como um velho amigo.

- Tchal “padro” agora tenho que ir.

Ao observar o neto, vovô refletiu. Naquele pequeno gesto de carinho, um simples beijo no rosto, porém um beijo puro e sincero, quanto futuro aguardava para despertar? Quanto de semente de bem e de amor verdadeiro exalaram de seus pequenos lábios? O acolhimento e o carinho com que o Pablito tratou o padre alimentou a esperança de que um dia os homens encontrarão o caminho da concórdia, se reconhecerão irmãos da mesma família humana, as guerras cessarão e finalmente conheceremos a paz.

O rosto do padre não conseguiu esconder a emoção. Com certeza nunca encontrou gesto tão verdadeiro e puro em nenhum dos homens e mulheres de sua paróquia. Como disse o poeta Fernando Pessoa, “mais vale ser criança que querer compreender o mundo”.

Pablito, o matador de dragões

PABLITO, O MATADOR DE DRAGÕES
Por Marco Mendes

Amanheceu o dia e Pablito estava roncando esparramado em sua cama. A vovó acordou cedo, preparou a mochila da escola, separou as peças do uniforme. Sentada à beira da cama do menino, acariciando os cachos do neto o convidou a levantar para ir à escola. Mas ele não se moveu. Então jeitosamente tirou-lhe o pijama e vestiu o uniforme. Mas ele seguia como morto (de sono). Insistiu várias vezes, até que, sem abrir os olhos, ele disse:

- Eu não quero ir à escola hoje, vovó!

Nessa hora o vovô entrou no quarto:

- Como assim não irá à escola hoje? Logo hoje que um dragão ameaçador está sobrevoando sua escola, pronto para atacar sua classe?

O menino arregalou os olhos e sentou-se à cama. Então o vovô continuou:

- Só o corajoso cavaleiro Pablito poderá vencer esse terrível dragão e salvar a escola.
Nessa hora o menino deu um salto da cama e saiu pulando como que cavalgando um majestoso cavalo.

- Pocotó, pocotó, pocotó. Então vamos logo para a escola vovó. Eu vou matar o dragão com uma pedrada na cabeça.

E assim foi corajosamente alegre para mais um dia de aula, vencer todos os dragões imaginários e salvar o castelo. Afinal, não são justamente os sonhos e as fantasias que nos fazem enfrentar a dura realidade que é a vida?

Vendo aquela pureza de criança, o coração do vovô vibrou de contentamento:

- Ah meu Dom Quixote, meu netinho querido. Não deixe jamais que te roubem a capacidade de imaginar e sonhar, nem a coragem de lutar, pois são essas virtudes os pilares da felicidade e a força para enfrentar os desafios da vida.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A viagem a alma


A VIAGEM DA ALMA
*MMendes

A noite chegou
o sono bateu
meus olhos fecharam
tudo se apagou.
Minha alma aproveitou 
para viajar e partiu:
- Adiós.
- Goodbye. 
- Arrivederci.
- Au revoir.
- Auf wiedersehen.
- Adeus. 
- Namaste.
- Sayonara.
Me disse ela 
antes de sair. 
onde ela irá essa noite,
não posso nem imaginar.
Será que amanhã 
ela voltará?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O pão da alegria



O PÃO DA ALEGRIA
*MMendes
De que vale o pão
se o desânimo 
roubou o prazer 
em trabalhar? 
Mais importante que o pão 
é tudo aquilo que nos anima, 
nos leva a semear,
plantar e colher, 
por o pão na mesa
sorrir, viver e amar.
Nem só de pão vive o homem
mas antes, de toda palavra 
que nos vem alegrar.
Seja alegre e leve vida
em tudo aquilo que tocar.
Assim descobrirá
o sentido da vida
que é viver com alegria,
com aquilo que se é,
com aquilo que se tem
cercado daqueles 
que te amam 
simplesmente por te amar.