quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A Aliança Secreta

A Aliança Secreta

By Marco Mendes

Dizem que, com o passar dos anos, a vista cansa. Talvez seja verdade apenas para quem nunca aprendeu a olhar. O tempo não embaça os olhos; ele os desloca. Aos poucos, deixamos de fixar o chão imediato e começamos a perceber o entorno, o ritmo das estações, o que cresce sem pedir licença.

Criar um filho é receber um broto nas mãos. Os pais se inclinam sobre ele com cuidado e temor. Observam cada folha nova, cada inclinação inesperada, tentando adivinhar que árvore surgirá dali. Perguntam-se se haverá sombra, se os frutos serão bons, se o vento será forte demais. É um zelo urgente, atento, quase aflito — e necessário.

Os avós olham o mesmo broto de outro modo. Não porque amem menos, mas porque já viram muitas primaveras falharem e outras tantas surpreenderem. Sabem que nenhuma árvore cresce por força de vontade e que não se comanda o tempo. Aprenderam que o essencial não está em vigiar cada galho, mas em cuidar das raízes. Se elas forem profundas, o resto encontra seu caminho.

É aí que nasce a Aliança Secreta. Ela não é feita de conselhos nem de regras, mas de presença. Quando o neto olha para o avô, não vê quem controla horários ou impõe limites. Vê alguém que já abandonou a pressa. Alguém que se senta à sombra e observa. Os avós, por sua vez, assistem aos netos descobrirem o mundo como quem revê um filme amado: não querem interferir na cena, apenas acompanhar o brilho nos olhos de quem vê pela primeira vez.

Nesse pacto silencioso, as normas se afrouxam. O chocolate antes do jantar vira celebração, não transgressão. Os avós sabem que a vida é curta demais para economizar nos “sins”. Enquanto os pais se ocupam do agora — do tronco que precisa se firmar —, os avós cuidam do depois, nutrindo aquilo que sustenta sem aparecer.

Por muito tempo, todos nós acreditamos ser raiz, broto e árvore. Pensamos crescer por nós mesmos, como se fôssemos o próprio tronco que se ergue. Não percebemos que crescemos com a árvore, apoiados nela, elevados lentamente por sua força silenciosa. Vivíamos ali, protegidos, como quem ainda não distingue onde termina o abrigo e onde começa o próprio corpo.

Só ao final, quando o olhar alcança mais longe e o tempo abranda, compreendemos. Nunca fomos apenas árvores. Desde o início, éramos ovos num ninho pousado sobre o broto. Crescemos enquanto ele crescia, sem saber. E agora, lá no alto, descobrimos o que sempre fomos: passarinhos. O vento está mais perto, o céu se abre. Lá embaixo, os pais seguem cuidando de um pequeno broto, acreditando formar uma árvore. Os avós sorriem. Guardam o segredo. Sabem que é preciso cuidar das raízes e da árvore — apenas para que, um dia, possamos lembrar: vivemos sobre elas, mas fomos feitos para voar.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A BAILARINA SONHADORA

ATO I: LUCINHA, A PEQUENA LUZ


Lucinha, a pequena luz que era seu nome, nunca andou. Aos olhos do mundo, ela caminhava, é claro, mas no universo secreto de sua imaginação, que vivia atrás dos seus olhos grandes e curiosos, ela flutuava em jetés e glissades. Em seu mundo fantástico, seu quarto era o palco da Ópera Garnier e a cozinha do Teatro Bolshoi. Não havia degrau ou ladrilho na casa que não servisse como um ponto de equilíbrio para sua próxima pirouette.
Lucinha não precisava de música; o ritmo acelerado da sua própria alegria, o bater do seu coração sonhador, era a orquestra perfeita.
O presente de aniversário de dez anos repousava na cômoda como uma promessa sagrada: suas primeiras sapatilhas de ponta, um rosa pálido, uma mistura do rosado ao céu ao alvorecer, com a névoa da manhã. Ela as calçava com reverência, sentindo a ponta de cetim frio no pé, a fita de seda macia que envolvia os tornozelos. Naqueles segundos, ela não era apenas uma menina. Era a rainha de gelo, o cisne branco, a ninfa da floresta.
Naquele final de tarde, o sol entrava de mansinho pela janela da sala, pintando uma faixa dourada no chão de madeira. Lucinha estava ali, no meio do palco improvisado. Seus braços de menina desenhavam arcos delicados, e o peso invisível de um tutu de lantejoulas brancas a fazia esticar a coluna, empinando o queixo com a dignidade de uma artista. Ela rodopiava e rodopiava, até que o mundo se tornasse uma mancha embaçada de cores, e só existisse a vertigem alegre, o voo. No final de tantos rodopios, atirava-se no sofá com a respiração ofegante, os olhos ardendo de paixão pela vida e um sorriso preso entre a realidade e o sonho.
Porém, de todos os seus rodopios, o daquele dia foi o mais completo. A vertigem alegre durou mais do que o esperado. Ela caiu exausta no sofá. O sono foi mais que um repouso; foi uma travessia. Fechou os olhos e o sono a embalou até o teatro dos sonhos. 

ATO II: O SONHO E O FANTASMA DO BALÉ

O rodopio final de Lucinha a levou para um lugar que não era o sofá. O cheiro familiar de casa sumiu de repente, substituído por uma mistura densa de poeira fina, veludo mofado e o aroma de maquiagem dos bastidores, com um leve toque de incenso e mistério. Ela não estava mais na sala, mas de pé sobre um palco gigantesco e antigo. As luzes da ribalta eram poucas e fracas, e o teatro era uma imensa escuridão forrada de camarotes vazios, como olhos sem pálpebras a observá-la.
As sapatilhas, as mesmas que adormeceram com ela, estavam firmes em seus pés, mas não era mais a menina de dez anos. Seu corpo estava mais esbelto e alongado, os traços mais definidos, e o tutu não era de lantejoulas imaginárias,  mas sim de camadas de tule branco e cintilante, que pareciam capturar a luz fraca e devolvê-la em faíscas delicadas, como se respirasse junto com ela. 
As cortinas se abriram. O espetáculo começava e ela sabia que precisava dançar. 
Foi no meio de um arabesque incerto que ela o viu. Não era o público, pois não havia ninguém no teatro. Era um moço. Não assustador, mas envolto em uma capa escura que parecia parte da própria noite do teatro. Ele estava no fosso da orquestra, subindo lentamente, com o rosto parcialmente escondido. Era o Fantasma do Balé, o dançarino esquecido, cuja alma só encontrava paz no silêncio entre os atos.
Ele estendeu a mão para ela. Era um convite mudo, não de terror, mas de uma profunda e infinita melancolia. Lucinha, acostumada a seguir a música de seu coração, não hesitou. Ela deslizou no palco e aceitou a mão fria daquele homem misterioso que a convidava para dançar. E iniciaram a dança da fuga.
Eles correram. Foi o pas de deux mais apaixonado e desesperado de sua tenra idade. O Fantasma a conduziu por corredores estreitos, escuras escadas em caracol, sempre para longe. Eles saltavam sobre cabos, desviavam de panos de cenário, o som ofegante da respiração de Lucinha ecoando nos tetos altos. Era a dança da vida que ele lhe oferecia, e ela a aceitou com a leveza de quem só conhece o sonho.
Em um salto para alcançar uma janela alta, um portal para a liberdade, Lucinha sentiu um puxão. A fita de seda de sua sapatilha direita se desfez, traiçoeira, e o clack seco da ponta atingindo a pedra foi abafado pela capa do Fantasma. Ela teve um instante de terror e hesitação. Quando tentou abaixar-se para recuperar a sapatilha, ele a puxou com urgência. A sapatilha era apenas um ponto rosa abandonado na escuridão. Eles continuaram, e no próximo giro apressado, tentando equilibrar-se com um pé descalço, pisou numa poça de água, encharcando de água barrenta a outra sapatilha. Não havia mais tempo para lágrimas ou arrependimentos. A fuga tinha que continuar. 
De repente, ao passarem sob um amontoado de tecidos no teto, um objeto pesado despencou. Uma antiga boneca de porcelana, com os olhos pintados e o rosto rachado, caiu diretamente nos braços de Lucinha. O choque do peso a fez cambalear, e, instintivamente, ela abraçou o objeto frágil. Nesse milésimo de segundo de hesitação e cuidado, sua mão escorregou da mão fria do Fantasma. A conexão se quebrou. A música parou. O Fantasma, agora apenas uma sombra solitária, desapareceu no negrume, e Lucinha, com a boneca em seus braços, caiu no silêncio. As cortinas se fecharam e a peça encenada chegava ao fim.

ATO III: O DESPERTAR FINAL

Lucinha acordou de súbito e ainda estava em sua casa. Mas ao sentar-se, percebeu que não era mais a mesma criança que havia adormecido no sofá. Era a mesma moça adulta do sonho. Ela havia dormido tanto tempo que os anos pareciam ter escoado entre aquele último vertiginoso rodopio e o aparente breve despertar.
Levou as mãos ao ventre. Seus dedos encontraram uma cicatriz fina, uma marca que definitivamente não estava ali antes.
Ao lado do sofá, sentada com a compostura de quem espera o trem, estava uma senhora de aparência impecável e enigmática. Seus olhos tinham o brilho de quem viu o mundo de cima, e na mão ela segurava um guarda-chuva de cabo de papagaio. Era Mary, quem havia velado por Lucinha durante todo o tempo enquanto ela dormia e sonhava.
A senhora sorriu espalhando magia pelo ar: “Eu cuidei de você enquanto você bailava em seu sonho, Lucinha. Foi uma longa temporada. Mas, enfim despertou.”
Lucinha olhou para os pés. Um pé estava descalço e no outro, podia sentir o cetim frio da da sapatilha encharcada e gasta. 
Nessa hora um choro de criança invadiu o lugar. Mary levantou-se, abrindo seu guarda-chuva de cabo de papagaio: “Agora, é a sua vez de cuidar. Ele viverá sonhando em brincar. E você, Lucinha, viverá ensinando-o a andar.”
O corpo de Lucinha não tinha mais a leveza do tutu imaginário, mas um peso diferente, uma nova gravidade. Mary acenou, e com um pequeno pulo, o vento a levou para fora da janela, para o céu. Lucinha ficou olhando a silhueta diminuir. A vida real era a grande peça que esperava. 
A menina que rodopiava até perder o fôlego despertava adulta, marcada, transformada. De bailarina, tornara-se coreógrafa: não mais intérprete dos movimentos alheios, mas criadora da vida que precisava guiar. Caminhou com delicadeza até o berço e, ao tomar a criança em seus braços, viu novamente a cortina do palco se abrir novamente, mas desta vez, para a história que ela mesma escreveria, passo a passo, ensinando o filho a rodopiar, dançar, bailar e sonhar, e a entender que alguns sonhos deixam cicatrizes, mas que ele não tivesse medo de despertar e mantivesse sempre acesa a coragem de carregar as cicatrizes e continuar a caminhar.

sexta-feira, 31 de março de 2023

O Milagre


O MILAGRE

By Marco Mendes - 31/03/2023


O pai de Márcio era um viúvo de oitenta e seis anos e estava gravemente doente. Embora sempre tenha apresentado boa saúde, passou a convulsionar várias vezes sem um diagnóstico médico conclusivo.

Márcio morava numa cidade distante e foi avisado pela cuidadora que seu pai estava internado no Hospital Nossa Senhora das Graças. Diante da grave notícia, após desmarcar todos os seus compromissos e executar algumas providências, saiu em viagem para acompanhar de perto o tratamento do pai.

Durante a viagem comentou com sua esposa que fez um pedido à sua avó paterna para que o ajudasse e intercedesse pelo filho debilitado. Sua esposa estava digitando no celular e o corretor ortográfico corrigiu a palavra “progresso” para “Anita”, o nome de sua avó paterna. Foi como um sinal de que suas preces haviam sido atendidas.

Depois de 6 horas de viagem de carro, chegou ao hospital. Seu pai estava semiconsciente, períodos consciente e períodos inconsciente. Em um curto período teve umas quatro convulsões.

A suspeita era de um problema neurológico, que levou o neurologista a prescrever anticonvulsivante. Mas, o remédio não estava dando resultado.

Num momento de consciência, crendo que estava à beira da morte, com muita dificuldade na fala, o pai fez um pedido à Márcio: “Prepare minhas coisas filho, acho que vou para um lugar que não quero ir”.

Mário colocou suas mãos sobre a cabeça de seu pai e em silêncio fez a oração Magnificat, onde Maria mãe de Jesus louva a Deus agradecendo as maravilhas que Deus fez em sua vida. No término da oração, pediu com a força do coração:

- Senhor, faça aqui uma de suas maravilhas.

Nesse mesmo instante o médico cardiologista abriu a porta com alguns equipamentos e passou a analisar o marcapasso que o paciente utilizava. Após alguns minutos percebeu que o marcapasso estava com mal funcionamento. Durante as falhas do marcapasso o coração do paciente parava de bater por alguns segundos, fazendo cair a pressão sanguínea e faltar oxigênio no cérebro, causando como que uma pequena parada cardíaca, expressão de dor, espasmos e perda de consciência momentânea.

O médico reprogramou o marcapasso e no mesmo instante as convulsões cessaram, o semblante do doente mudou para melhor da água para o vinho, revelando que o milagre aconteceu.

Em seu coração, Márcio sabia que não era uma coincidência o médico chegar ao final da oração e em minutos encontrar a cura que há dias não se encontrava. Ainda mais, pelo sinal de que sua avô Anita estava cuidando de seu pai no outro plano da existência.

Com lágrima nos olhos proclamou em sua alma: “Agora eu posso cantar ao lado de Maria, que o Senhor também fez em mim maravilhas”.

Márcio testemunhou extraordinárias coincidências para serem só coincidências. Alguém que nos ama, mesmo que esteja invisível aos olhos, escondido atrás das cortinas do palco do teatro, está cuidando do show da vida. Deus é o escritor da história e Diretor do nosso destino. E melhor, Ele nos ama como ninguém.



quinta-feira, 30 de julho de 2020

A VIDA É BREVE



A vida é breve 

nem me atrevo a piscar 

pois num piscar de olhos 

se vão muitos para lá 

nem me atrevo dizer morrer 

não quero a morte invocar 

deixe-me cá viver 

todos os anos, dias, horas, minutos 

o tempo que me restar

sábado, 23 de março de 2019

PABLITO, o que cabe no meu mundo

PABLITO, o que cabe no meu mundo

By Marco Mendes



Pablito dirigiu uma pergunta a todos os que estavam na varanda da casa do vovô:

- O que não cabe no seu mundo?

- O que não cabe no meu mundo é preguiça! Respondeu ele ao seu próprio questionamento.

- E o que cabe no seu mundo? Perguntou-lhe a vovó.

Então o menino respondeu:

- O que cabe no meu mundo é o amor.

A técnica da pergunta exige que a pergunta seja feita antes de designar-se alguém para a resposta, assim como fez Pablito, para não liberar os outros da necessidade de ouvir a pergunta.

Saber perguntar é uma das habilidades mais importantes, pois as perguntas são as portas estreitas que nos levam a horizontes abertos de novas verdades. Pablito utiliza técnicas de um mestre!

O psicanalista Carl Jung afirmara que “todos nós nascemos originais e morremos cópias”, porque muitos perdem a sua identidade no decorrer de sua jornada. A pergunta de Pablito era profunda, pois queria saber que coisas deixaríamos entram pela porta do nosso mundo e fazer morada em nosso coração. Aos cinco anos de idade o netinho parece saber que determinadas coisas que permitimos entrar em nosso ser têm o poder de destruir-nos, e só estaremos protegidos se o amor fizer morada em nosso coração.

Pablito já aprendeu que onde o amor entra, não sobre espaço para a maldade. Onde reina o amor, só há espaço para a felicidade.

Obrigado Mestre Pablito, por lecionar o amor em cada canto desta casa.

sábado, 26 de janeiro de 2019

PABLITO, tempo não é dinheiro






PABLITO, tempo não é dinheiro

21 de janeiro de 2019

Por Marco Mendes


A Lívia, amiguinha do Pablito veio visitá-lo. Entraram correndo em meu escritório e me provocaram a brincar de pega-pega.

- O vovô não pode brincar agora. Respondi.

- Por que não? perguntou a amiguinha.

- Porque eu estou trabalhando.

- E para que você tem que trabalhar?

- Para ganhar dinheiro! Respondi de maneira rápida.

- Ah, já sei. Deve estar rico! Finalizou a espirituosa menina. Ou seja, tem tanto trabalho que não tem tempo para brincar.

Não sei porque crescemos e desaprendemos a viver a vida. A sabedoria das crianças é a prova de que a simplicidade está na essência de toda sabedoria.

De fato, Lívia tem razão: Tempo não é dinheiro. Na realidade são riquezas distintas. Embora o dinheiro seja importante para os adultos, porém em qualquer idade o tempo é muito mais valioso que o dinheiro. Renato Russo já disse, em outras palavras, que tempo é vida, porque todos os dias quando acordo, percebo que estou um pouco mais pobre, pois não tenho mais o tempo que passou.

Para uma menina colombiana chamada Ana María Noreña, de 12 anos, dinheiro é uma “coisa de interesse para os outros com o qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos”. Sabedoria que nos ensina que a verdadeira amizade não está alicerçada no dinheiro.

Os adultos pensam que para conversar com uma criança devem descer ao nível deles. Mas a verdade é o contrário. Na presença de uma criança devemos nos esforçar para ficar à altura dela.

Adultos que somos, aprendemos que não podemos viver de brincar, apenas. É preciso trabalhar, produzir, auferir dinheiro para subsistir. Sem nos esquecer, contudo, que tudo tem seu tempo. O escritor russo Leon Tolstói disse: “A sabedoria com as coisas da vida não consiste, ao que me parece, em saber o que é preciso fazer, mas em saber o que é preciso fazer antes e o que fazer depois”.

Definitivamente a vida não é só trabalho, não é só ganha pão, não é só feita de obrigações de subsistência. É preciso sobreviver, no sentido de não exaurir todas nossas energias com o trabalho. É necessário permanecer vivo antes e depois do trabalho, para que o tempo não leve nossos dias, antes que possamos brincar, rir muito, confraternizar, amar, evoluir, contemplar a beleza da vida, descobrir e gozar aquilo que a vida tem a nos oferecer.

Obrigado Lívia e Pablo. Quando eu crescer quero ser assim como vocês.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

PABLITO, ALMA NOBRE



PABLITO, ALMA NOBRE 

* Por Marco Mendes 

19/03/2018 

Em pé, aquele pitoquinho de gente abraçou o vovô na altura das pernas:

- Vovô, eu quero agradecer tudo o que você fez e o que você faz por mim. Eu te amo muito e muito. Vou te amar mesmo depois que você morrer.

O amor é mesmo mais forte que a morte. Pois quando morre o ser amado, o amor que sentimos continua vivo!

Fiquei pensando, o que Pablito saberia de fato que eu fiz a ele que mereceria um agradecimento? Como pode um ser tão jovem como Pablito já ter desenvolvido um sentimento tão nobre e elevado como o da gratidão?

Depois de refletir um tanto, cheguei a conclusão de que a força das orações da noite que o vovô e a vovó fazem na presença de Pablito, antes de dormir, nutre naquela alma pequenina com valores de família que recebemos de nossos pais e avós. Nessas orações agradecemos a Deus por tudo o que nos concedeu durante o dia, agradecemos às pessoas estiveram conosco, agradecemos a família, os filhos e o neto.

Como todos os outros valores, se ensina a agradecer com o exemplo, ensinando para as crianças as nossas próprias ações de agradecer. Mas, a verdadeira gratidão não deve ser um mero condicionamento social, um mero protocolo a ser cumprido, meras palavras decoradas: Obrigado! De nada.

A gratidão verdadeira é aquela que nos leva a agradecer tudo. Quem é agradecido tem um sentimento de pertença à toda vida que o cerca, jamais um sentimento de posse ou propriedade. Quanto mais exercitamos a gratidão, maior será seu significado em nós.

De manhazinha, quando a vovó leva Pablito para a escola, vão cumprimentando tudo o que há pela frente: Bom dia sol! Bom dia dona árvore! Bom dia nuvem com cara de camelo (disse Pablito). E cumprimentando a vida vão assim agradecendo por ela. Clarice Lispector parece resumir tudo isso numa frase: “E então eu soube: pertencer é viver”.

A felicidade está ao alcance de todo aquele que se entrega à vida com gratidão, mas foge para longe dos ingratos. Como disse o artista plástico John Miller, "o quão feliz é uma pessoa depende da profundidade de sua gratidão". Se depender disso, Pablito já é uma pessoa feliz. E nós mais felizes ainda, por ter um anjinho desse em nossa casa.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

PABLITO, o cupido

PABLITO, o cupido.
*Marco Mendes


Pablito é filho único e, em algumas situações, carece de companhia para suas brincadeiras. Isso fez com que Pablito se aproximasse do titio que, em face dessa grande amizade, passa horas jogando videogame com o sobrinho. Certa vez, enfatizando isso Pablito afirmou com bom humor:

- "De todos eu gosto mais do tio Guilherme, mas pêssego ninguém supera". Criança tem cada uma.

Em outra ocasião, Pablito desabafou:

- Eu não quero que o titio se case nunca!

- Por que Pablito?

- Se ele casar ele vai morar em outra casa e eu não vou mais jogar videogame no quarto dele.

Mas, passados uns minutos Pablito repensou o assunto:

- Pensando bem, vovó, seria até bom que o titio se casasse. Assim ele poderia ter um filho que seria meu amigo.

Recentemente Pablito descobriu que o titio arrumou uma namorada, mas queria ter certeza se era namorada mesmo.

Então começou a fazer um rol de perguntas ao titio:

- Titio aquela moça que você está saindo é sua namorada?

- Sim Pablito, é minha namorada.

- E o que você fica fazendo com ela?

- Eu fico assistindo filme, jogando videogame, conversando.

- E o que mais? Então o titio sorriu e fez silêncio.

- E o que mais? Me diga?

- Você beija ela na boca também?

Fico aqui pensando com meus botões: Acho que Pablito está torcendo por um novo amigo.

PABLITO, a cura do amor ferido

PABLITO, a cura do amor ferido.
*Marco Mendes


Ao entrar no carro de volta da escola, vovó perguntou ao Pablito o que havia aprendido naquele dia. O menino respondeu:

- Descobri que o abraço e o beijo são a cura do amor!

- Você aprendeu isso na escola?

- Não vovó, eu estava lá no “play” e foi minha cabeça que pensou isso.

Os seres humanos possuem dimensões invisíveis que quando feridas apagam todos os sentidos, inclusive o da vida. Perdemos a capacidade de ver as cores, de ouvir o canto da felicidade, de sentir a própria alma, de inalar o perfume da alegria. As manhãs, as tardes e as noites perdem seus encantos. Desaprendemos a contar os dias à espera da chegada da felicidade. Nos esvaziamos dos outros, ficamos a só. E quando o espírito padece, o corpo adoece. Então necessitamos de cura. E quão grande é a procissão a pedir a cura do corpo e da alma, canta Roberto Carlos.

“Quando o amor está ausente, a nossa vitalidade hiberna.O amor é o verdadeiro despertador dos sentidos”, disse Padre José Tolentino Mendonça em seu livro 'A Mística do Instante'.

Mário Quintana diz que “o amor é quando a gente mora um no outro”, e com certeza entramos nessa morada pelo abraço e pelo beijo. “Me abrace, que no abraço mais do que em palavras, as pessoas se gostam”, professa Clarice Lispector. O beijo nunca é apenas um beijo... George Sand, importante novelista francês do século 19 dizia que "o beijo é uma forma de diálogo”.

As crianças possuem mesmo livre entrada no Reino dos Céus. Aí está a razão da vovó ter ficado tão admirada da descoberta do netinho. Tão jovenzinho, ao lado de grandes poetas, pensadores e espiritualistas, Pablito já conhece o poder de cura do abraço e o beijo.

Acho que a volta do Salvador vai ser assim, aos poucos, quase imperceptível, de dentro para fora, fluindo do espirito humano para o mundo, da palavra bendita para a vida. Assim como o brotar manso e suave de uma sementinha que desabrocha no coração das crianças, a salvação do amor ferido neste mundo virá pela cura calma e serena do beijo e do abraço.

PABLITO, meu vovô está de volta

PABLITO, meu vovô está de volta

*Marco Mendes

O vovô trabalha em uma cidade distante de sua residência e só retorna para casa no final de semana. Ao retornar, todas as vezes sem exceção, Pablito está esperando com um largo sorriso à porta da garagem. Mal espera vovô desligar o carro sai correndo e pula em seu colo, lhe dá um grande abraço e diz:

- Vovô eu te amo.

A frase “eu te amo” foi a primeira frase que vovô ensinou ao netinho quando ele ainda balbuciava. Essa frase se consolidou em sua boca junto com outra: “Você é o melhor vovô do mundo”. Os laços que unem netinho e vovô transformam aquele abraço no verdadeiro abraço da paz: “Chegastes! Foste embora minha saudade, agora posso viver em paz”; “Estou de volta, teu abraço resolveu todos os meus conflitos e meu espírito está em paz”, parecem dizer um ao outro.

Muitas vezes, depois que vovô saía em viagem, o netinho ficava com muita saudade que até chorava.

“Quando gastamos tempo demais a viajar, tornamo-nos estrangeiros no nosso próprio país”, afirmou o filósofo René Descartes. Vovô passa tanto tempo viajando que quase se sente um estrangeiro em sua própria casa. Somados os dias de viagem, podemos dizer que nesses últimos cinco anos vovô viveu três anos de infinita saudade do netinho. É muito tempo longe do netinho. “Um único ser nos falta, e fica tudo deserto”, disse o poeta francês Alphonse de Lamartine. Mas, todas as vezes o abraço de Pablito fazia o vovô sentir-se acolhido em sua própria casa. A saudade é doída, mas o encontro é consolador.

Depois de anos viajando, finalmente vovô foi transferido de volta para a cidade onde a família mora com o netinho. Quando a vovó disse isso ao menino, ele exclamou:

- Vovó, sabe o que isso significa? Que a gente não vai sentir tanta falta dele mais!

“Esperei por tanto tempo, esse tempo agora acabou. Demorou mas fez sentido, fez sentido que chegou”, canta Nando Reis.

O coração do vovô está em festa porque volta para casa com alguém à sua espera. Vovô e netinho, as duas metades agora estão completas.

PABLITO, o tempo é relativo

PABLITO, o tempo é relativo.
*MMendes



O vovô saiu segunda-feira para trabalhar em Dourados e o netinho ficou em Campo Grande. Pablito ficou tanta saudade que até chorou. Na quinta-feira o vovô avisou a vovó que estava retornando.

- Tá saindo agora! Quantas horas o vovô vai demorar para chegar nesse país? Exclamou Pablito.

A viagem de Dourados a Campo Grande demora umas três horas. Quando o vovô chegou o netinho estava esperando na garagem.

- Vovô, você demorou um século. Eu fiquei com saudade!

Quando estamos com saudade o tempo não passa. Aqueles quatro dias longe do vovô pareciam uma eternidade. Acho que a saudade é uma coisa capaz de parar os ponteiros do relógio. Embora o menino não soubesse muito contar o tempo, sua pontualidade era de espera. “Se você não se atrasar demais, posso te esperar por toda a minha vida”, reza o escritor britânico Oscar Wilde.

Com pressa o netinho correu para o colo do vovô e abraçou seu pescoço. Ficou algum tempo com a cabeça recostada em seu peito, enquanto vovô o envolvia com seus braços e o enchia de beijos. Ah, quanta saudade! “Cheguei a uns dois minutos e já te amei mais de um milhão de vezes”, pareciam dizer um ao outro. O tempo é de fato relativo. Cada dia é por si só uma vida inteira, dizia Sêneca.

Ficar longe das pessoas que amamos nos deixa com quase nada. Mas, o simples reencontro nos faz sentir repletos de tudo. “Não chore nas despedidas, pois elas constituem formalidades obrigatórias para que se possa viver uma das mais singulares emoções da vida: O reencontro”, disse o piloto Richard Bach. E como é bom te reencontrar meu netinho. Obrigado por sempre me esperar, porque um dia qualquer, desses tantos que já se foram, eu vou voltar. Desse dia em diante, por todos os minutos de minha vida te reencontrarei.

*P.S. Esse dia enfim chegou, para que saibas, meu netinho, que sempre direi a verdade e o que prometo eu cumprirei!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

PABLITO, os últimos serão os primeiros


PABLITO, os últimos serão os primeiros.

*Por Marco Mendes


Depois de ouvir uma leitura de uma passagem da Bíblia, Pablito questionou o vovô:

- Por que os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros?

O menino parecia confuso, porque essa assertiva quebrava a lógica do merecimento, apresentando-se como uma injustiça ao vencedor.

Diante de profunda questão filosófica vovô silenciou. Era preciso estudar e meditar. Vovô precisava não só de uma resposta, mas que a resposta fosse clara e simples, a ponto de Pablito pudesse compreender. Seria possível que a pergunta fosse tão elevada a ponto do espírito de uma criança não poder alcançar a resposta? Vovô se lembrou de um provérbio que diz “O sábio ouvirá e crescerá em conhecimento, e o entendido adquirirá sábios conselhos”.

A pergunta de Pablito nos remete à forma de como nos relacionamos uns com os outros. Se o outro é visto como um concorrente, sou competitivo. Se o outro é visto como um aliado, sou cooperativo. Há um enorme abismo social num mundo bipolar dividido entre os primeiros e os últimos. Poucos são os vencedores abastados e muitos os vencidos desprovidos de quase tudo.

A assertiva contida na pergunta de Pablito propõe que a grande vitória da humanidade é acabar com as desigualdades sociais, cooperando uns com os outros para que os excluídos possam superar as barreiras, sejam elas sociais, morais, econômicas, físicas ou intelectuais, construindo uma ponte que nos leve a um mundo mais inclusivo, igual e fraterno.

Acho que é isso meu querido netinho. Devemos nos cuidar para que nosso egoísmo e nossos próprios interesses não sejam os primeiros a subir no pódio, deixando por último as outras pessoas e todo o resto da Criação. No final somos todos iguais em tempos diferentes, pertencemos e dividimos a vida no mesmo planeta.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Pablito, a força da oração


PABLITO, a força da oração
* Por Marco Mendes


- Vovô, essa noite eu não dormi bem.

- É mesmo querido! Por que?

- Eu não escutei você rezar, vovô.

Todas as noites vovô fica com Pablito no quarto até que ele adormeça. Enquanto o menino mama, vovô reza por todos, inclusive por ele.

Nessa noite Pablito adormeceu assistindo televisão e o vovô o levou para seu quarto. Vovô fez sim suas orações, mas como Pablito estava dormindo, não escutou.

Muitos podem não crer na força de uma oração, mas a oração original que brota do coração gera força suficiente para mudar o destino do mundo. E como o mundo precisa da energia de uma oração, muito mais do que a energia das batalhas. “Aqueles que oram fazem mais pelo mundo que aqueles que lutam; e se o mundo vai de mal a pior, é porque existem mais batalhas do que orações", disse o oficial norte-americano George S. Patton.

Pela oração alcançamos os ouvidos de Deus sussurrando uma prece pela abertura na alma, buscando alcançar o intangível para realizar o impossível. Nem as lágrimas, nem as velas acesas, nem as flores sobre o altar possuem a força de uma pequena oração, pois só a oração é capaz de transcender e chegar ao trono de Deus.

Nunca abandone a oração porque não consegue orar, pois é justamente nos momentos em que as palavras nos faltam e nos sentimos sem forças, debilitados, fracos é que são feitas as verdadeiras orações. Deus ouve até o silêncio de nosso coração.

Pelo jeito as orações do vovô fazem bem ao Pablito. Quando a oração penetra o coração humano quebra o véu que separa a Terra e o céu, aí sentimos o poder da presença de Deus e tudo o que era impossível pode acontecer.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Pablito, a quase invisível gratidão


PABLITO, a quase invisível gratidão.

*Por Marco Mendes

Sempre que Pablito vai à missa fica ansioso esperando o momento depois da comunhão, quando os acólitos distribuem pãezinhos às crianças. As crianças a princípio deveriam atender ao apelo de ficarem em fila, mas nem sempre isso acontece.

Pablito sempre obedece uma fila imaginária e fica esperando até que alguém lhe ofereça o pão.

O pãozinho tem um formato espiralado. De posse dele, repetindo uma brincadeira do vovô, o menino brinca e sorri colocando o dedinho por baixo como se o pãozinho fosse um caracol. Depois oferece um pedaço para o vovô e para a vovó.

No último domingo quem serviu os pãezinhos foi uma conhecida da mamãe de Pablito. Ela comentou que ele foi a única criança a dizer “obrigado” quando recebeu o pãozinho.

Atitudes quase invisíveis como o ato de agradecer é que dão formato a todas as coisas visíveis, pois o mundo é um reflexo daquilo que é invisível. Palavras e atitudes constroem pessoas e coletividades, que por sua vez dão vida à realidade que nos cerca.

O caráter de uma pessoa grata revela que ela é fiel e por isso nunca nos abandonará. Uma pessoa grata é uma pessoa em quem se pode confiar.

Atualmente agradecer é uma atitude quase em desuso, um valor à margem da nossa cultura moderna. Talvez porque o orgulho tenha sufocado também a humildade. A gratidão é o único tesouro dos humildes, que com gratidão pagam a todos que lhes servem. Como disse Charles Chaplin, nesse mundo conturbado e louco em que vivemos, necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Pois sem isso, a vida se torna violenta e tudo se perderá.

Pablito, embora pequenino, sabe que o pão é sagrado, porque é fruto de um conjunto de esforço daqueles preparam o solo, plantam, colhem, trabalham os grãos, assam a massa e o repartem para o bem de todos. Que a entrega de todo esse serviço se paga com o agradecimento.

Meu netinho ali na missa demonstrava uma quase invisível gratidão, invisível aos olhos apressados de muitos homens e mulheres que já não se lembram de ensinar os filhos a esperarem a vez e agradecer aquilo que recebem. Mas não passou desapercebida por uma mocinha, que com olhos ternos, viu numa fração de segundos, a eternidade da grandeza do valor da gratidão.

O Reino de Deus é assim pequenino como o sussurro tímido de agradecimento de uma criança, que cresce no coração da gente e nos enche de amor e esperança.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Pablito, meu anjo da guarda


PABLITO, meu anjo da guarda

*Por Marco Mendes


- Vovô, estou com sono. Vamos dormir?

Era chegada a noite e Pablito estava abrindo a boca de sono. Subiram as escadas enquanto todos os demais ficaram no andar de baixo assistindo um filme na TV. Vovô trocou o menino, apagou a luz e deitaram-se. Depois de rezarem uma Ave Maria vovô se pôs a explicar ao neto a primeira parte da oração:

- Antes que a mamãe do bebê Jesus soubesse que estava grávida, no escurinho do quarto o anjo Gabriel apareceu para ela e disse que ela ficaria grávida de Jesus. Ele disse à Maria que era uma mulher feliz porque Deus a escolheu para ser a mãe do bebê Jesus. Que esse menino era bendito, porque iria crescer e nos ajudar a encontrar Deus. A oração que acabamos de rezar repete justamente as palavras do anjo Gabriel:

- "Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois sós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre Jesus". O ventre é a barriga da mamãe e o fruto é a criança que está dentro dela esperando para nascer.

Pablito ficou escutando aquelas palavras na penumbra deitadinho ao lado do vovô. Ao final das explicações fez uma inusitada indagação:

- Vovô, e quando minha mãe ficou grávida de mim, também um anjo apareceu para ela?

Aquela pergunta surpreendeu vovô, que respondeu logo em seguida:

- Sim meu querido. Também um anjo apareceu para sua mamãe.

- E quem era ele vovô?

- Esse anjo era eu. Quando eu fiquei sabendo que sua mamãe estava grávida eu a abracei e disse que ela era muito bem-vinda em minha casa, que o bebê que ela carregava na barriga seria muito amado. Esse bebê era você.

Passados uns minutinhos Pablito adormeceu abraçadinho ao vovô. Então vovô sussurrou em seu ouvido:

- O Senhor fez em mim maravilhas e santo é o Seu nome. Bendito és tu, meu netinho, que veio semear amor em nossa casa.

Para quem não sabe, Pablito é filho de uma adolescente chamada Maria, que o concebeu com quinze anos de idade. No dia em que vovô recebeu a notícia seu coração estremeceu. Vovô chorou dois dias por medo do futuro, até que na solidão de sua angústia uma voz lhe disse:

- Assim como Jesus nasceu de uma jovem solteira, eu vôs anuncio seu neto (por intuição vovô sempre soube que seria um menino). Receba-o assim como Jesus foi recebido pelos avós maternos. Ninguém vem ao mundo antes da hora, nem por acaso, senão por permissão e propósito do plano de Deus.

O Papa Francisco afirmou que “mãe não é estado civil. Por isso, não existe mãe solteira”. Era preciso acolher aquela mãe que não estava totalmente preparada para a maternidade. Essa jovem mãe precisava mesmo era de um anjo da guarda. Podemos escolher o que plantar, mas somos obrigados a colher o que semeamos. Há coisas na vida que não podem ser expressas em palavras, apenas em gestos. Então, naquela mesma noite vovô bateu à porta do quarto de Maria.

- Quem é?

- É o pai?

- O que você quer?

- Conversar com você?

Maria abriu uma fresta da porta por onde passava apenas um dos olhos.

- Não podemos conversar por uma fresta. Venha para fora do quarto.

Quando Maria saiu, pôs-se em pé em frente ao pai, baixou a guarda esticando os braços e fechou os olhos esperando o pior.

- Posso te dar um abraço? Disse vovô abrindo os braços. Pai e filha se abraçaram e choraram muito.

- Eu poderia te acusar de muitas coisas nesse momento, mas nada disso mudaria a história que começou a ser escrita para nós. Tudo isso é novidade para mim e também para você. Esse é o momento que você mais precisa de mim e estou aqui com você. Comecemos uma nova história, uma história de amor. Você é bem-vinda em minha casa e seu filho também. Fiquemos juntos e tudo terminará bem. O tempo se encarregará de ajeitar tudo. Então demos tempo ao tempo.

Como diz o Padre Fábio de Melo: “Quando a noite esconde a luz, Deus acende as estrelas”. A primeira frase que Pablito disse ao vovô foi “eu te amo”. E essa é a frase repetida todos as vezes que os dois se encontram, se abraçam e se beijam. E eu sou testemunha de que isso acontece muitas vezes todos os dias.

Pablito, rasgando dinheiro



PABLITO, rasgando dinheiro

*Por Marco Mendes


Pablito faz aulas de natação para criança e se sai muito bem. Dias atrás a professora lançou um desafio de atravessar a piscina sem respirar. Quem conseguisse sentaria no tapete dos campeões. Pablito foi o primeiro a conseguir e agitava-se quando outro concorrente perdendo o fôlego colocava a cabeça para fora e respirava. Quando isso acontecia, sentado no tapete dos campeões, com o punho da mão cerrado, puxava o braço para baixo como quem puxa a corda do apito do trem.

- Yes! Vibrava o menino.

Mas acho que o guri andou meio cansado do esforço exigido pelo esporte. Outro dia não quis ir participar da aula na terça-feira. Quando o vovó chegou de viagem na quinta-feira teve uma conversa carinhosa com neto. Disse o quanto gostaria que ele continuasse na natação. Pablito se comprometeu ir à natação na semana seguinte. Contudo, quando chegou o dia ele se recusou a entrar na piscina novamente.

- Mamãe, eu não quero entrar na piscina. Estou cansado.

A professora insistiu com ele:

- Entre Pablito, venha para a água com seus amiguinhos.

Mas o menino estava decidido a não entrar... talvez nunca mais. Foi quando a mamãe apelou:

- Pablito, o vovô paga sua natação e toda vez que você não quer ir o vovô fica rasgando dinheiro.

Nesse momento o menino saiu correndo em direção a piscina gritando:

- Professora! Professora! Eu vou nadar sim, senão meu avô vai ficar rasgando dinheiro! E tibum.... mergulhou, enquanto as outras mãe ficaram rindo de seu comportamento.

Nascemos com potencial para sermos tudo o que quisermos, mas tornar isso realidade depende de muito esforço. As vezes queremos desistir e é preciso que alguma força interna, um amor maior, nos dê a energia necessária para prosseguir até o fim. Como disse Clarice Lispector "existe um grande, o maior obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma...".

O amor de Pablito pelo vovô foi derradeiro para que o menino vencesse o desânimo e pulasse na piscina. Não sabemos ao certo o que ele pensou que aconteceria se o vovô rasgasse dinheiro, mas com certeza em seu íntimo sabia que isso não era justo com o vovô. Pode ser que lá em seu inconsciente coletivo conhecesse a simbologia da prática das culturas orientais de rasgar as roupas como demonstração de emoções fortes, angústia, tristeza. Dessa forma, se o vovô rasgasse dinheiro isso seria sinal que o vovô ficaria angustiado e triste.

Para alguns o dinheiro pode ser apenas sinal de poder, para outros o dinheiro significa o suor do trabalho. O ex-presidente do Uruguai José Mujica certa vez afirmou que "quando compro algo, ou você compra, não pagamos com dinheiro, pagamos com o tempo de vida que tivemos que gastar para ter aquele dinheiro. Mas tem um detalhe: tudo se compra, menos a vida. A vida se gasta. E é lamentável desperdiçar a vida...". E Pablito não queria que o vovô desperdiçasse sua vida.

Eu penso mais ou menos como Mujica, mas a vida que gasto com meu neto é o melhor investimento que faço com meu trabalho. Investir nas crianças é o caminho para salvação da humanidade. Como bem lembrou o juiz paraibano Onaldo Queiroga: "Esqueçamos as guerras e lutemos por uma criança feliz, pois só assim, erradicaremos uma legião futura de adultos incapazes de praticar a paz".

Pablito, azul é a cor do encontro, do céu e do mar



PABLITO, azul é a cor do encontro, do céu e do mar

*Por Marco Mendes


Numa manhã de céu azul claro e sem nuvens, a caminho da escola Pablito estava a sonhar:

- Vovó, você sabe por que o céu é azul?

- Acho que eu não sei não, Pablito.

- Ah vovó, é porque ele fica pertinho do mar! Você não sabia que o céu encontra o mar?

O encontro do céu e do mar contém um simbolismo tão imenso, mas cabe no coração de Pablito. Acho que é porque o coração do menino é assim como uma janela para a vida, como poetizou Carlos Drummond de Andrade: " o mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar".

Afinal, encontro do azul do céu e do mar será uma cor em si, será uma nostalgia ou uma questão de distância que o coração quer alcançar? E para onde nos leva o azul? Não há outro azul na vida que não seja o azul do céu e o azul do mar. No céu o infinito azul do sonhar, no azul do mar floresce a vida, no encontro dos dois a vontade de viver, sonhar e amar. Amar é assim um elo entre o azul do céu e o azul do mar.

Ah, o coração de criança de Pablito ainda tem tempo de olhar para o azul do céu e sonhar com o mar. O entardecer da vida talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos de consumo e preocupações vãs que nos impedem de sonhar.

Todos nós buscamos fugir das tormentas para além dos horizontes, levados pelo sopro do vento que nos tire de uma vida de terrível calmaria. Pablito tem um coração de marinheiro aventureiro, que sai em busca dos tesouros escondidos, para aqueles que ousam cheios de esperança, transpor os horizontes que nunca estão no mesmo lugar. O coração sabe que para além do horizonte há um porto seguro, onde aguardam os amores deixados e que ansiamos por reencontrar.

Pablito desperta para aventura da vida guiado pelo azul, que leva ao encontro. Caminha ensinando, talvez ouvindo os conselhos do poeta Tim Maia, que nesta vida é preciso buscar sempre algum motivo prá sonhar, ter um sonho todo azul, azul da cor do céu, azul da cor do mar.

Obrigado meu netinho, por me fazer olhar para o céu, sem esquecer de que para alcançá-lo é preciso navegar pelos mares da vida, buscar o encontro do azul que nos leva ao céu quando estamos dispostos a amar.

E para você eu meu querido, dedico essa poesia de Carlos Drummond de Andrade: " Se um dia olhar para o céu e não te ver, é que sou a onda do mar e não consigo te esquecer, sou feliz do teu lado sem do seu lado estar, pois você é isolado no meu modo de pensar, quando estou triste e não tem solução, lembro que você existe e mora no meu coração!"

Pablito, quem roubou o meu amor?


PABLITO, quem roubou o meu amor?

*Por Marco Mendes

- Vovô, por que minha mãe chama meu pai de amor?

- É porque eles são namorados meu querido.

- Nada disso! Minha mãe é minha mãe e meu pai é meu pai.

- E eu e a vovó podemos ser namorados?

- Você e a vovó podem, mas a mamãe e o papai não. Regras são regras!

Fiquei matutando o que esse menino quis dizer com “regras são regras”. Afinal, que regra era essa que impedia a mamãe e o papai de namorarem? Foi ai que caiu a ficha. Pablito arrogava para si o direito de ser o único amor da mamãe. Essa era a sua regra. Por isso questionou o fato da mamãe estar infringindo sua regra chamando o papai de amor. Pablito estava vivenciando o famoso complexo de Édipo.

Segundo a psicanálise, pelo complexo de Édipo forma-se uma relação amorosa entre o menino e a mãe. Mas logo o menino descobre que sua mãe possui um outro amor, o pai. Essa descoberta funciona como uma castração. Faz o menino compreender que não é ele quem define todas as regras e que não pode fazer o que bem entende. A vida, a família e a sociedade impõem regras, limites e padrões que devemos respeitar. É a descoberta da lei. A criança percebe que seus pais não podem dedicar-se somente a ele porque estão inseridos num contexto sociocultural.

Pablito está crescendo e descobrindo que o mundo não gira a sua volta. Que há coisas permitidas outras proibidas e que a vida exige escolhas e muitas renúncias. Não podemos ter tudo que queremos e somos obrigados a eleger prioridades. Mas quem disse que isso é ruim? Como disse a escritora dramaturga Maria Clara Machado “aprendi que amadurecer dói, mas o fruto pode ser bom”.

Meu querido netinho, aqui vai um conselho: “O verdadeiro amor é deixa-la ir, para ver se ela volta” (do filme O lado bom da vida).

segunda-feira, 13 de março de 2017

Pablito, é machismo?



PABLITO, é machismo?

*Por Marco Mendes

- Vovô, por que você deixou a mamãe aqui na escola?

- Ela faz faculdade de psicologia, meu querido Pablito. Respondeu o vovô.

- Ela está estudando para ser psicóloga, né vovô?

- Sim Pablito, ela vai ser formar e ser psicóloga.

- Depois que ela terminar de estudar ela vai trabalhar em casa ou fora de casa? Continuava Pablito

- Acho que vai trabalhar fora de casa. Respondeu ao netinho.

- Ah não! Eu não quero! Eu quero que ela trabalhe em casa. Protestou o menino.

- Mas como ela irá trabalhar em casa? Vovô questionou o netinho.

- No computador, ué!

A mamãe parece que arrumou um problema a ser resolvido. É que ela é defensora do feminismo. Não me entendam mal! Feminismo no sentido oferecer oportunidades de vida e divisão de tarefas dentro e fora da casa, de forma igual para homens e mulheres. E trabalhar fora em igualdade de condições com os homens no mercado de trabalho passa a ser uma dessas defesas. Mas parece que Pablito não está muito contente com essa ideia.

Um dos paradigmas fundamentais a serem quebrados pelo feminismo está justamente ligada ao conceito da maternidade. Maternidade no sentido de uma cultura segundo a qual as mulheres teriam um destino social de serem mães, donas de casa, cuidadoras da família e dos filhos. As feministas afirmam que a luta da mãe feminista é justamente ensinar os filhos homens que quando eles forem pais terão tanta obrigação de cuidar da casa e dos filhos quanto as mães.

O problema se torna complexo ao percebemos que os filhos pequenos estabelecem uma relação diferencial com a mãe. Desde o nascimento os dois estabelecem uma relação íntima e exclusiva, uma comunicação de contato, olhares e sutilezas que só eles sabem decodificar. Os sinais emitidos entre eles dão um significado ao amor que um sente pelo outro. E é por isso que o bebê adora estar pertinho e aninhado a sua mãe, afirma a psicóloga Regiane Glashan.

Sustentar convicções pessoais sempre farão inimigos, especialmente quando ferem os interesses alheios. Mas quando esse inimigo é o próprio filho, então a mãe tem um grande problema. Enquanto a mamãe defende o feminismo em contraposição ao paradigma social conservador da maternidade, Pablito, como um pequeno grande conservador, defende que em razão da maternidade a mamãe deva ficar em casa, ao lado dele! Que bela enrascada a mamãe se meteu.

O vovô acredita que Pablito não está dizendo que mulher deve trabalhar em casa. Está dizendo que ficar longe do contato da mamãe será muito difícil para ele. Por isso quer a mamãe em casa, pertinho dele. Esse é um problema que terão que resolver. O vovô aconselha mamãe e Pablito: Grandes problemas só podem ser resolvidos com um amor maior ainda.

terça-feira, 7 de março de 2017

Pablito, somos todos mortais

PABLITO, SOMOS TODOS MORTAIS

*Por Marco Mendes

Numa tarde de domingo Vovô e Pablito estavam passeando pela praça do bairro, quando o netinho veio com uma pergunta inusitada:

- Vovô, você já está meio velhinho?

- Um pouquinho velho, mas ainda não estou muito velhinho.

- Você vai morrer?

- Meu querido, um dia todos morreremos. Mas não fique preocupado, ainda temos muito que viver.

Fechando os olhinhos com rostinho de sofrimento Pablito abraçou as pernas do vovô e disse:

- Ah vovô, eu não quero que você morra, nunca.

Depois desse dia o netinho estava assistindo a um filme de família de 20 anos atrás e comentou:

- Vovô, por que você está tão diferente nesse filme?

- É porque eu era mais novo Pablito. Eu envelheci um pouco e mudei a aparência.

Para descontrair vovô disse que o netinho também havia mudado desde que nasceu.

- Somos mutantes Pablito, como aqueles do filme X-man.

Enxugando as lagrimas dos olhos com os dedinhos Pablito suplicou:

- Vovô, por favor, não fique diferente não.

- Você está com medo que o vovô fique muito velho? Perguntou ao netinho.

- Sim. Eu não quero que você fique velho não. Disse o menino quase chorando.

Pablito achava que morríamos só de velhice, até que escutou uma história de um bebê que havia nascido e falecido com 20 dias. Então interpelou a vovó:

- Esse nenezinho morreu também? Morreu como?

- Morreu porque tinha um dodói. Disse a vovó.

Apontando para um raspadinho do joelho resultado de um tombo no quintal, com os olhos arregalados Pablito perguntou:

- Vovó, eu tenho um dodói no joelhinho. Vou morrer também?

- Não meu amor. Você não vai morrer não. O dodói daquela nenezinha era um dodói enorme. O seu é pequeninho.

Aqui caiu a ficha da criança. Não morremos só de velho! Com essas descobertas desandou a perguntar o paradeiro de alguns parentes que ele sabia, ou pelo menos intuía, que já haviam morrido:

- Onde esta aquela tia que tinha uma gata?

- Morreu. Disse a vovó.

- E a sua mãe vovó?

- Morreu também.

- E a mãe do vovô?

- Também já morreu.

- E o pai do Romeu, nosso cachorrinho?

- Esse também morreu.

- E você vovó, vai morrer também?

- Sim meu querido. Um dia morrerei. Mas não fique assim tão aflito, isso vai demorar muito tempo.

Passados uns instantes ele lançou o grande desafio:

- Mas vovó, você precisa mesmo morrer vovó?

Pablito levantava uma complexa questão transcendental: Diante da inexorável morte, o que podemos fazer para herdar a vida eterna?

Fico aqui pensando como nós humanos nos preocupamos com aquilo que sequer podemos evitar. Para quê preocuparmo-nos com a morte? A vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro, disse Confúcio.

É verdade que um dia morreremos. Mas morremos um dia só, nos outros todos nós vivemos. Quanto de vida há numa fração de minuto? Mil beijos eu te darei, meu netinho, se encostares teu rosto ao meu um só segundo.

E tua gargalhada de criança arrancada pelo roçar da minha barba mal feita contra teu rostinho de menino nunca mais sairão das retinas dos meus olhos e nem se apagarão das lembranças de minh’alma. Ainda que eu vivesse um só minuto, desde sempre serei eu o avô mais feliz do mundo.

A você meu querido, um segredo vou contar. Há mais de mim em você do que você pode notar. Toda vez que sentires solidão, tristeza ou dificuldade, eu virei, de onde estiver, é só me chamar. Não precisa gritar alto, fazer gestos de invocação. Basta ficar em silêncio e eu ouvirei teu clamor pelas batidas do teu coração.

Lembre-se que temos a eternidade de todas as horas que nos restam e como disse Mario Quintana “tão bom morrer de amor! E continuar vivendo...”. Quando eu me for você ore por mim, quando chegar a tua hora eu te reencontrarei.